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Uma
crônica sobre a ética
Por Luís Wever*
Em um momento de mercado altamente aquecido e promissor, em que empresas
nacionais e internacionais buscam freneticamente profissionais qualificados
para garantir um espaço no trem do crescimento econômico,
a palavra ética surge em todas as nossas conversas. Felizmente
todos pontuam este substantivo abstrato como uma “competência”
a ser garimpada nos históricos dos executivos.
É leitores... a ética virou competência! E por
quê?
Simplesmente porque ser ético não está mais somente
ligado à base incontestável da honestidade. Isto, sim,
todos sabemos, compreendemos, concordamos e nós, headhunters,
estamos capacitados a avaliar, pois a honestidade é pragmática.
O executivo deixa traços de seu comportamento durante seu histórico
profissional. Em países como a Inglaterra, por exemplo, se um
executivo colocado em uma empresa por um headhunter cometer algum ato
ilícito ou “não ético”, o consultor
responsável por esta colocação é também
chamado para dar explicações aos órgãos
competentes. Mas o fato de ser honesto não define por si só
a “competência” de ser ético.
A ética está ligada a capacidade de distinguir o que
é “certo” do que é “errado” frente
aos sofisticados desafios diários. Ela também está
ligada a entender que “dever” não é necessariamente
“poder” e vice-versa. É bom recordar disso toda vez
que se toma uma decisão que pode influenciar positiva ou negativamente
a vida das pessoas, a carreira de muitos profissionais e a imagem de
uma corporação.
Como exemplo, gostaria de dividir com o leitor um fato que pode ilustrar
o que é a postura ética de um executivo de sucesso. Não
faz muito tempo, tive a oportunidade de almoçar com um dos executivos
que mais respeito no cenário brasileiro. Trata-se de Fernando
Tigre, então presidente da Kaiser. Fernando tem em sua trajetória
muitas vitórias em empresas nacionais e internacionais, comandando
processos complexos de gestão e reestruturação.
O restaurante não estava cheio. Escolhemos uma mesa, e após
alguns minutos, um grupo de quatro executivos sentou-se ao nosso lado.
Almoçávamos tranqüilamente quando ele lançou
um olhar cuidadoso para a mesa ao lado. Achava que eram executivos da
concorrente. Ficou prestando atenção durante alguns segundos
para se certificar de que sua suposição era verdadeira.
Então, levantou-se, dirigiu-se à mesa, pediu licença
e explicou que era o presidente da Kaiser e que estava sentado próximo
a eles. E mais: disse que, se fossem tratar de algum assunto confidencial,
deveriam saber que ele poderia ouvir. Depois retornou para a mesa e
continuamos nosso almoço. Os quatros executivos ficaram muito
impressionados com a postura do Fernando, entreolharam-se e agradeceram
muito sua retidão. Não é preciso comentar que passaram
a falar bem mais baixo durante o restante do almoço.
Naquele dia, eu e os executivos da mesa ao lado presenciamos uma demonstração
explícita de respeito aos outros e a si mesmo e de cooperação
em vez da competição. Ou seja, a equação
– “dever e poder”, “certo e errado” –
é um desafio constante na rotina de qualquer profissional que
pretenda se tornar um expoente em nosso país.
* Luís Wever é sócio-diretor da Ray &
Berndtson Brasil, de São Paulo.
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