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      Edição 244 - Julho de 2008
 

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Uma crônica sobre a ética
Por Luís Wever*

Em um momento de mercado altamente aquecido e promissor, em que empresas nacionais e internacionais buscam freneticamente profissionais qualificados para garantir um espaço no trem do crescimento econômico, a palavra ética surge em todas as nossas conversas. Felizmente todos pontuam este substantivo abstrato como uma “competência” a ser garimpada nos históricos dos executivos.

É leitores... a ética virou competência! E por quê?

Simplesmente porque ser ético não está mais somente ligado à base incontestável da honestidade. Isto, sim, todos sabemos, compreendemos, concordamos e nós, headhunters, estamos capacitados a avaliar, pois a honestidade é pragmática. O executivo deixa traços de seu comportamento durante seu histórico profissional. Em países como a Inglaterra, por exemplo, se um executivo colocado em uma empresa por um headhunter cometer algum ato ilícito ou “não ético”, o consultor responsável por esta colocação é também chamado para dar explicações aos órgãos competentes. Mas o fato de ser honesto não define por si só a “competência” de ser ético.

A ética está ligada a capacidade de distinguir o que é “certo” do que é “errado” frente aos sofisticados desafios diários. Ela também está ligada a entender que “dever” não é necessariamente “poder” e vice-versa. É bom recordar disso toda vez que se toma uma decisão que pode influenciar positiva ou negativamente a vida das pessoas, a carreira de muitos profissionais e a imagem de uma corporação.

Como exemplo, gostaria de dividir com o leitor um fato que pode ilustrar o que é a postura ética de um executivo de sucesso. Não faz muito tempo, tive a oportunidade de almoçar com um dos executivos que mais respeito no cenário brasileiro. Trata-se de Fernando Tigre, então presidente da Kaiser. Fernando tem em sua trajetória muitas vitórias em empresas nacionais e internacionais, comandando processos complexos de gestão e reestruturação.

O restaurante não estava cheio. Escolhemos uma mesa, e após alguns minutos, um grupo de quatro executivos sentou-se ao nosso lado. Almoçávamos tranqüilamente quando ele lançou um olhar cuidadoso para a mesa ao lado. Achava que eram executivos da concorrente. Ficou prestando atenção durante alguns segundos para se certificar de que sua suposição era verdadeira. Então, levantou-se, dirigiu-se à mesa, pediu licença e explicou que era o presidente da Kaiser e que estava sentado próximo a eles. E mais: disse que, se fossem tratar de algum assunto confidencial, deveriam saber que ele poderia ouvir. Depois retornou para a mesa e continuamos nosso almoço. Os quatros executivos ficaram muito impressionados com a postura do Fernando, entreolharam-se e agradeceram muito sua retidão. Não é preciso comentar que passaram a falar bem mais baixo durante o restante do almoço.

Naquele dia, eu e os executivos da mesa ao lado presenciamos uma demonstração explícita de respeito aos outros e a si mesmo e de cooperação em vez da competição. Ou seja, a equação – “dever e poder”, “certo e errado” – é um desafio constante na rotina de qualquer profissional que pretenda se tornar um expoente em nosso país.

 

* Luís Wever é sócio-diretor da Ray & Berndtson Brasil, de São Paulo.

 
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