|
Bode
maior que a sala
Por James Görgen*
A (con)fusão das operadoras Oi (Grupo Telemar) e Brasil Telecom
(BrT) está indo muito além de um grande negócio
entre dois conglomerados de telecomunicações. Colocada
no meio da sala do processo de revisão do marco regulatório
do setor, acelerado pelo advento da convergência tecnológica,
a operação transformou-se na ponta de um iceberg político
manobrado com pouca habilidade por governo e as empresas de telefonia.
A idéia inicial era adequar a regulamentação, principalmente
o Plano Geral de Outorgas (PGO), para garantir que a tele móvel
do grupo Telemar pudesse comprar a instável Brasil Telecom, cujo
comando é disputado desde o final do processo de privatização,
há dez anos.
O governo Lula não vê problema, inclusive, em repetir
seu sucessor e injetar recursos do BNDES (estima-se o aporte em R$ 1,3
bilhão) para constituir o que os entusiastas chamam de megatele
nacional, uma empresa verde-amarela com condições de competir
no exterior. Mesmo que não exista espaço para isso lá
fora.
No papel, a idéia parece atraente. Caso a aquisição
se concretize, o grupo Telemar formará o maior conglomerado de
telecomunicações do País, com mais da metade dos
terminais fixos em funcionamento e 20% da base de assinantes de celulares.
A receita bruta do novo grupo superaria os R$ 40 bilhões. Antes
disso, porém, Opportunity, Citi e fundos de pensão precisarão
resolver suas querelas jurídicas no controle da BrT. Do lado
da Oi, a engenharia financeira é muito mais complexa do que uma
mudança no PGO (leia
a matéria do Telesíntese para saber mais).
Frente ao aceno do governo de que estaria disposto a alterar as regras
do jogo para concretizar o negócio, as empresas aproveitaram
para pedir mais. Por meio de sua entidade, a Abrafix, fizeram uma consulta
à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel)
onde solicitaram uma atualização da Lei Geral de Telecomunicações
para flexibilizar as regras facilitando a consolidação
do ambiente de convergência tecnológica. A proposta foi
encampada pelo Ministério das Comunicações, que
enviou ofício ao órgão regulador solicitando uma
revisão no mesmo sentido, e gerou calafrios nas empresas de TV
por assinatura e pequenos provedores de serviços de telecomunicações.
É difícil afirmar se a confluência de interesses
entre Minicom e teles veio antes ou depois das empresas assumirem a
conta do programa de banda larga do governo, que deve ser lançado
nos próximos dias e promete levar internet de alta velocidade
a 22 mil escolas públicas urbanas do País somente neste
ano. Ou antes de engolirem sem muitas reclamações as novas
regras para a telefonia móvel. Mais fácil é prever
que as operadoras não aceitarão uma alteração
no marco regulatório que jogue contra elas. Ou seja, desagregação
de redes, portabilidade numérica e universalização
dos serviços continuarão vindo a conta-gotas. As companhias
querem mesmo é pisar no acelerador regulatório para oferecer
conteúdo de comunicação, explorar serviços
de TV paga e operar concessões em todas as regiões do
País. Tudo que seus concorrentes de outros segmentos não
querem nem ouvir falar.
Em meio a tudo isso, a aquisição da Brasil Telecom pela
Oi, cujo anúncio ainda deve demorar mais duas semanas por conta
de acomodações acionárias dos dois grupos, está
ameaçada de virar um fato irrelevante.
* James Görgen edita a coluna Monitor Digital da revista
AMANHÃ e é coordenador de projetos do Epcom – Instituto
de Estudos e Pesquisas em Comunicação.
|