| por Paulo Arvate e Marcos Mendes* |
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A importância das instituições e a construção
de um ajuste fiscal
Na história recente do país perdemos, por fragilidade
de nossas instituições, a oportunidade de garantir um
ajuste fiscal sustentável para ingressar em um ciclo de crescimento
com estabilidade de preços. Entre esses momentos históricos,
destacam-se os efeitos da excessiva fragmentação política
da Nova República em 1984-85.
No momento da redemocratização, a tentativa de atender
os diversos grupos que ficaram afastados do contexto político
transformou contas públicas razoavelmente equilibradas num pântano
de déficits insustentáveis. Outro fato a se destacar foi
a nova Constituição de 1988. Ela transformou desequilíbrios
fiscais que até então eram circunstâncias em permanentes,
por tentar resgatar, instantaneamente, através de excessivos
"direitos" difusos e sem contrapartidas (numa tentativa de
atender muitos grupos de interesse), a dívida social do país.
Dez anos mais tarde, quando vivíamos o segundo ano de sucesso
do Plano Real e sem nenhuma crise externa (o PIB crescia acima de 4%
desde 1993), adiamos o ajuste porque a prioridade política naquele
momento passou a ser a aprovação da emenda da reeleição.
O resultado, para a construção de uma maioria com condições
de mudança constitucional, foi o atendimento de mais interesses
difusos que levaram qualquer preocupação de controle das
contas públicas para um segundo plano.
Mesmo diante desse histórico, deixamos passar os últimos
três magníficos anos da economia internacional, no qual
poderíamos ter, finalmente, promovido um ajuste estrutural nas
contas públicas que encaminhasse o país para um crescimento
sustentável.
Uma análise mais cuidadosa desses momentos nos dá a
dimensão de que não se pode olhar apenas o momento econômico.
Chama-nos a atenção de como é difícil para
o Executivo formar maiorias estáveis no Congresso com baixo custo
para a sociedade na tentativa de implantar as reformas necessárias.
Oportunidade – O ano de 2007 será um
momento oportuno para quebrarmos a tradição do passado
recente e realizarmos reformas estratégicas de difícil
tramitação no Congresso. O primeiro ano de mandato presidencial
tende a ser de "lua-de-mel" com o Congresso, pois a força
das urnas, em eleições majoritárias, constrói,
para o vencedor, um período de enormes possibilidades de reforma.
Nesse contexto, a reforma política parece ser um avanço
institucional prioritário. Se bem executada, viabilizará
a formação de coalizões entre partidos com base
em objetivos de política, e não com base em interesses
privados, que impõem custos para a sociedade.
Esses custos foram percebidos claramente, no passado recente, nos diversos
casos de corrupção de parlamentares. Um governo, para
aprovar medidas no Congresso, precisa repartir a administração
pública. Existe a troca de favores nesse processo e quanto maior
o número de negociadores, maior a necessidade de espaço
político (cargos, orçamento) ou corrupção
(como alternativa à montagem de uma maioria onde não se
negocia espaço político no governo).
É preciso criar regras eleitorais em que, mantida a elevada
competitividade, os custos de governar, com base em coalizões,
sejam os menores possíveis. Um sistema político onde o
resultado final leve ao Congresso um menor número de negociadores,
com mais representatividade, é melhor que um grande número
de negociadores com menos representatividade. A sociedade parece que
entendeu, infelizmente pela pior forma possível, que existe um
custo político de se governar.
As alternativas já estão postas pelos cientistas políticos.
Além da já vigente cláusula de barreira, muito
já se discutiu sobre: fidelidade partidária, fim das coligações
em eleições proporcionais, mudança na proporção
de cadeiras por estados, mix de financiamento de campanha público-privado,
critérios de inelegibilidade, fim do voto secreto no parlamento,
sistema de votação em lista aberta ou fechada, voto distrital.
São todos assuntos cuja discussão está madura,
os trade-offs já estão identificados e existem projetos
em avançado estágio de tramitação na Câmara.
Falta a prioridade política para se negociar o consenso e selar
as escolhas.
A omissão no trato desse ponto poderá gerar novas legislaturas
de baixa qualidade e padrão ético, jogando o país
em séria crise institucional, na esteira de um descrédito
amplo da população em relação ao Congresso.
Por outro lado, uma reforma política bem executada facilitará
sobremaneira a aprovação, no Legislativo, de outras reformas
institucionais que permitirão que se obtenha um equilíbrio
fiscal sustentável ao longo do tempo, conjugado a uma maior eficiência
do gasto público.
Referimo-nos, aqui, por exemplo, à reforma do processo orçamentário,
para que se estabeleça, com clareza, o limite máximo de
despesas a ser obedecido pelo Legislativo, e se encerre o jogo de soma
negativa entre o Legislativo (que infla as despesas) e o Executivo (que
as contingências), abrindo espaço para a barganha e a corrupção.
Não menos importante é a alteração da legislação
para flexibilizar gastos de natureza obrigatória como os da saúde
(que por determinação constitucional crescem no mesmo
ritmo do PIB nominal), das aposentadorias nos setores público
e privado e dos programas sociais cujos benefícios são
vinculados ao salário mínimo.
Eficiência - A agenda de aperfeiçoamentos
das instituições brasileiras, com vistas a equilibrar
as contas públicas e garantir a eficiência do gasto estatal
não é pequena, e depende sobremaneira da aprovação
ou do apoio político do Congresso. É preciso mudar os
critérios de distribuição de transferências
federais, que atualmente mandam dinheiro para municípios onde
ele é menos necessário, gerando desperdício de
bilhões de reais todos os anos.
É preciso avançar no uso de instrumentos de governo
eletrônico, para gerar dados para uma contabilidade de custos
da administração, e que seriam utilizados pelas universidades
e outras instituições para avaliar a relação
custo-benefício dos programas públicos.
É necessário racionalizar a política de contratação
e salários no setor público, o que inclui o corte no grande
número de cargos em comissão (moeda de troca muito utilizada
nas negociações políticas no contexto de um sistema
político-eleitoral que dificulta a formação de
maiorias). É preciso quebrar o privilégio das universidades
públicas na alocação de fundos para a educação,
redirecionando recursos para os níveis básicos de ensino.
Não há, na lista acima apresentada, uma só medida
que não desperte a reação de setores privilegiados
pelo atual modelo de gasto público. Daí a importância
de se ter regras eleitorais e congressuais que facilitem a formação
de coalizões majoritárias, para dar sustentação
ao governo para adotar medidas que contrariem interesses organizados.
Não podemos perder a oportunidade política que se abrirá
em 2007. E o fio da meada parece estar na reforma política, que
criará as condições para acelerar e reduzir os
custos políticos e econômicos da evolução
das instituições públicas. Só através
dessa evolução é que encontraremos sustentação
contínua para as medidas que necessitam ser adotadas. A literatura
já mostrou que boas instituições são fundamentais
em termos de resultados fiscais.
Questão fiscal – Desde que o país
começou a gerar seguidos superávits primários,
a partir de 1999, houve um relaxamento da preocupação
com a questão fiscal. Mas não se pode falar que existe
equilíbrio das contas públicas se não há
certeza quanto à sua sustentabilidade ao longo do tempo. O tipo
de ajuste que vem sendo praticado no Brasil, baseado em corte de investimentos
e aumento da carga tributária, deprime o crescimento e não
se sustenta por muito tempo, como demonstram diversos artigos acadêmicos
sobre padrões de ajuste fiscal.
Não se pode cortar investimentos e subir a carga tributária
indefinidamente. Os investimentos públicos precisam ser retomados
algum dia. O corte dos investimentos na área de energia elétrica,
com fins de ajustamento, já nos mostrou o quanto existe de verdade
nessa afirmação. Os impostos de baixa qualidade, por sua
vez, aumentam a ineficiência das transações na economia,
e a carga tributária total do Brasil está num patamar
superior aos dos países em desenvolvimento e latino-americanos.
Não é possível ficar continuamente fora do padrão
de nossos competidores em termos de carga tributária total.
A dificuldade do governo federal para cumprir a meta de superávit
primário para este ano (mesmo lançando mão de receitas
extraordinárias, como transferências elevadas de lucros
de instituições financeiras públicas ao Tesouro)
parece prenunciar o esgotamento desse modelo.
Está na hora do ajuste pelo lado dos gastos. O que é
muito mais difícil de fazer, e exige uma sólida base do
governo no Congresso. É no binômio "reforma política-avanços
institucionais na gestão do gasto" que se encontra a chave
para sairmos da armadilha do baixo crescimento e inexpressivo avanço
de indicadores sociais. E é preciso pressa, antes que venha a
próxima crise da economia internacional.
* Professor da Escola de Economia da FGV-SP e doutor em economia
pela USP, respectivamente.
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