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Por que a globalização dos serviços nunca
será massificada
Economistas norte-americanos têm reunido dados e estatísticas
para dimensionar o impacto real do “international outsourcing”,
ou seja, da terceirização internacional. O objetivo deles
é avaliar qual é a relação real entre a
criação de empregos fora do país e a destruição
de empregos nos Estados Unidos. O caso mais evidente se refere à
Índia e ao seu setor de tecnologia. E esse não é
um fenômeno isolado. A Comissão Econômica para a
Europa das Nações Unidas (Unece, em sua sigla em inglês)
tem se debruçado sobre o assunto, pois a terceirização
internacional tem ocorrido em toda a Europa, principalmente no Leste
Europeu.
Essa terceirização, geralmente identificada nos setores
de tecnologia, informação e comunicação,
alcança uma grande variedade de serviços, como embalagem,
montagem, logística, entre outros. Analisados à distância,
o que vemos é a globalização do setor de serviços
– que ocorre sem alarde, sem requerer marcos regulatórios
e em uma velocidade maior que a capacidade dos governos de regulamentá-las.
O Brasil não está fora dessa tendência. O Ministério
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior divulgou,
recentemente, números revelando que a média de crescimento
de exportação de serviços foi de 10,8% em 2005,
o triplo da média internacional. Passamos a ocupar o 7º
lugar em crescimento de exportação de serviços,
o 31º em volume de exportações (US$ 15 bilhões)
e o 24º em volume de importações, com mais de US$
22 bilhões.
Há, basicamente, dois tipos de inserção num
mercado globalizado. No modelo presencial, a empresa deve se instalar
no local onde está a demanda. Nesse ponto, cabem inúmeras
conexões e formas de trabalho com a matriz. No outro modelo,
que podemos chamar de exportador, a empresa não precisa estar
onde está a demanda. Os dois se aplicam também à
área de serviços.
Poucos anos atrás, discutíamos sobre a inserção
do setor de serviços na Alça. As barreiras indicavam que
os governos protegeriam seus mercados contra a entrada dos estrangeiros.
Discutia-se a imposição de equivalência curricular
para os serviços profissionais e a necessidade de um sócio
natural do país-hóspede fazer parte de uma empresa prestadora
de serviços. Também se cogitava a limitação
percentual do capital social que poderia ficar em mãos estrangeiras,
além de barreiras operacional, financeira e tributária.
A discussão mostrou como fomos pouco criativos. Uma boa parte
do setor de serviços não saiu de seus países para
se globalizar, mas foi acessado internacionalmente a partir de sua base
local. Sem sair do seu país, as empresas prestam serviços
a todo o mundo – e o Brasil se adaptou a esse padrão. O
interessante nesse modelo, no qual o Brasil tem tido um desempenho acima
da média, é que, na maioria dos casos, ele quebra o paradigma
clássico da globalização pelo qual se imaginava
a massificação dos bens e produtos. Seria impossível
para um hindu atender a uma dúvida de um cliente nos Estados
Unidos sem se adequar à cultura do país. Da mesma forma,
é impossível vender um software brasileiro de gestão
para outro país sem adequá-lo aos padrões financeiros,
tributários e operacionais daquele país.
Na área de serviços profissionais, há exemplos
interessantes, como na advocacia (só para citar um em que temos
experiência diária). Nesse setor, empresas globais contratam,
do exterior, escritórios locais. A contratação
pode ser desde uma auditoria na filial brasileira, uma consulta sobre
nossa legislação, ou até a participação
em um projeto global. Há, ainda, atuações na linha
corporativa. É o que ocorre quando um cliente que coordena todas
as plantas da América Latina a partir do Brasil, por exemplo,
decide implantar um projeto com alcance regional, como um Banco de Horas,
em todos os países em que atua. O escritório aciona sua
rede e coordena localmente a implantação do projeto internacional
contando com sua rede globalizada.
Nesses casos, embora a legislação seja local, a forma
do atendimento, a velocidade das informações, o padrão
de qualidade, o formato de apresentação e a forma de faturamento
são adequadas ao cliente internacional. A empresa deve falar
inglês e o fuso horário, principalmente da Europa, exige
rapidez para que o prometido para aquele dia ou o seguinte não
chegue depois do expediente.
Este nível de globalização seria impossível
sem o estágio de desenvolvimento tecnológico em que vivemos.
O fascinante da globalização dos serviços é
que ela pode ser ampliada para uma prestação de serviços
de maneira ainda mais complexa, atendendo a cadeias de clientes ainda
mais dispersos. Porém, nunca será massificada.
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*Bernardo Francisco Pereira Gomes, diretor-presidente da Senior
Solution S.A.
bernardo.gomes@seniorsolution.com.br
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