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      Edição 244 - Julho de 2008
 

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Artigo
 
por Décio Luiz Gazzoni*

Biotecnologia é pra ontem

Há algum tempo, encontrei em um congresso científico a Dra. Lila Vodkin, prestigiada cientista da Universidade Illinois (EUA). Lila me contou, entusiasmada, sobre os progressos do mapeamento do código genético da soja, liderado por ela. Trata-se de um investimento de dezenas de milhões de dólares, envolvendo seis universidades que estudam mais de 200 mil pedaços de cromossomos com o objetivo de identificar os genes da soja. “História de americano louco”, alguém pode pensar. Mas o fato é que a Inglaterra, a Alemanha, a França e o Japão também investem na identificação dos genes de plantas e animais.

E não são apenas países ricos, com dinheiro sobrando. China, Cuba e Índia, por exemplo, investem maciçamente em engenharia genética. O governo chinês pretende liderar o setor de biotecnologia entre os países emergentes até o final desta década – até 2020, a idéia é liderar o setor em escala planetária. O governo chinês é visionário? Não, é pragmático. Esses países entendem que o futuro do agronegócio está reservado para quem dispuser de diferenciais mercadológicos. Um agricultor pode vender sua produção bruta para o atravessador, a preço vil, ou pode agregar valor, processá-la e embalá-la, obtendo aí um diferencial de preço. O mesmo ocorre em escala global. O Brasil pode limitar suas aspirações ao crescimento vegetativo de sua venda de soja (que hoje vale uns US$ 10 bilhões) ou agregar valor à soja de maneira que a torne um diferencial no mercado. Como fazê-lo?

Para responder à questão, pesquisei na literatura o que sairá da cornucópia dos cientistas nos próximos anos. Grupei os avanços científicos em cinco categorias: enriquecimento de alimentos com minerais ou vitaminas; enriquecimento nutricional de óleos vegetais; melhoria dos teores e da qualidade de carboidratos e proteínas; melhoria de componentes funcionais (nutracêuticos); e redução de componentes indesejáveis. O resultado da minha pesquisa aponta para uma significativa melhora na qualidade de vida humana. Por exemplo: a vitamina E, sintetizada apenas nos vegetais, é essencial para os animais e seu efeito anti-oxidante previne inúmeros distúrbios de saúde. Os cientistas introduziram na soja o gene que aumenta o teor de tocoferol – o precursor da vitamina E –, transformando a soja em uma importante fonte desta vitamina. Isso significa que, no futuro, será possível retardar o envelhecimento.

A soja tem alto teor de minerais, como cálcio e fósforo. Entretanto, a maior parte pode estar indisponível na forma de sais do ácido fítico. Os cientistas introduziram um gene que sintetiza a enzima fitase e torna disponíveis esses nutrientes da soja para o organismo. Isto pode redundar em um poderoso atenuante da osteoporose.

O óleo de soja é o mais consumido no Brasil e no mundo. Torná-lo mais saudável é um desejo dos médicos e uma preocupação dos cientistas. Existem genes que melhoram o perfil dos ácidos graxos da soja. Um deles aumenta o ácido oléico, reduz o teor dos ácidos saturados e, conseqüentemente, a necessidade de hidrogenação dos ácidos graxos para produzir margarinas – tornando o óleo mais saudável e diminuindo seus custos de processamento. O coração humano, penhorado, agradece.

Apesar de ser um ótimo alimento, a soja possui restrições. Ela pode gerar alergia intestinal. O problema, no entanto, está sendo resolvido pelos cientistas. Eles isolaram o gene que sintetiza a proteína P34, responsável pela alergia da soja. Também foi identificado o gene que sintetiza a rafinose, que causa a flatulência. Ao interromper as atividades dos dois genes, serão eliminados esses inconvenientes da soja. Anote mais estes dois pontinhos.

Usei o exemplo da soja. Entretanto, o exposto se aplica aos outros grãos, frutas, hortaliças ou produtos derivados de animais. O Brasil pode se acomodar e oferecer uma matéria-prima convencional, ou pode investir fortemente em tecnologias de última geração e agregar valor aos seus produtos – tornando-os mais saudáveis e competitivos. A decisão é nossa. Mas precisamos ser rápidos, porque os nossos concorrentes já estão virando a curva lá na frente.


* Décio Luiz Gazzoni é engenheiro agrônomo, mestre em entomologia, pesquisador da Embrapa Soja e membro do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB).

 
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