| por Odino Marcondes |
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Sua empresa anda exportando burocracia?
Uma das regras de ouro do comércio exterior é “não
exportar impostos”. A razão é simples: impostos
não beneficiam os consumidores de outros países. Nós,
entretanto, consumidores no nosso próprio país, não
somos ressarcidos de um imposto cruel: a burocracia que as empresas
nos transferem agregadas ao produto ou serviço que compramos.
No momento em que uma empresa começa a se organizar é
que ela transfere, para seus clientes e usuários, parte das suas
dificuldades de lidar com o próprio crescimento. A primeira e
mais importante dificuldade é a de lidar com o poder. Todos os
cargos têm algum poder, mas, em geral, poder para falar “não”.
Quantos têm o poder para falar “sim”? Poucos. Porque
o “sim” é o deflagrador de mudanças. Já
o “não” é conservador, paralisador do pensamento
criativo. Portanto, o verdadeiro poder é o de dizer “sim
e não”.
Vejamos alguns exemplos práticos. Em um aeroporto qualquer,
o passageiro com excesso de bagagem é encaminhado ao balcão
da companhia aérea. O responsável calcula a diferença
e o passageiro preenche o cheque. Ao receber o cheque, o responsável
aplica, no verso, um carimbo solicitando várias informações.
Em seguida, pede-se a carteira de identidade, o cartão de garantia
do cheque e o atendente confere os dados. Posteriormente, coloca um
carbono entre o cartão e o cheque e esfrega a caneta de modo
a gravar, neste, os dados do cartão. Ainda falta uma etapa. O
responsável se dirige ao telefone e liga para o banco a fim de
verificar se o emitente tem os fundos suficientes para cobrir o cheque.
Depois de recebido um OK, é devolvido o recibo e o passageiro
está pronto para retirar o seu cartão de embarque.
Nas inúmeras vezes em que o passageiro passou por essa experiência,
tentou conversar com as diferentes pessoas que o atenderam. Todas elas,
quando perguntadas sobre o porquê daquela burocracia, respondiam
que cumpriam ordens. Quando perguntadas se conversavam com seus chefes
sobre as reclamações dos passageiros, respondiam com um
"já falei" e ponto. Ora, os atendentes são pessoas
que estão na interface com os clientes. Eles têm a informação
em primeira mão. Estão próximos dos problemas e,
portanto, das soluções. Mas não têm poder
para falar o “sim”. Só o “não”,
acompanhado de uma omissão desrespeitosa – afinal, já
perderam a paciência para explicar aos seus interlocutores que
a demora não é por má vontade.
Outra situação. Um morador deseja a mudança
de um poste que está na entrada da sua garagem. Liga para a concessionária
e recebe a informação de que é possível
a mudança, desde que ele pague antecipadamente. Quando questiona
o porquê do pagamento antecipado, o atendente retruca: “E
se fizermos o serviço e o senhor não pagar?”. O
morador contra-argumenta: “Vocês têm um recurso: cobrem
na conta de luz e se eu não pagar, cortem o fornecimento de energia”.
Não adianta. Tempos depois, decide fazer a mudança. Recebe
uma carta com todas as informações, menos sobre a forma
de pagamento. Ao lado da assinatura do funcionário, há
um número de telefone. O morador liga. A resposta: “Não
podemos dar informações por telefone”. Ele argumenta:
“Só quero saber como pagar!” Não adianta.
Manda um motoboy que atravessa a cidade. Este volta com a informação:
“O pagamento é através de boleto bancário”.
Vejamos, agora, casos diferentes. O Comandante Rolim, que era o Presidente
Estratégico da TAM, contava dois casos em que seus funcionários
assumiram o cargo de Presidentes Operacionais, em situações
críticas, e nas quais se encontravam na interface com o cliente
ou com o problema. Um foi o da telefonista que tomou a iniciativa de
contratar um táxi aéreo para levar uma peça para
uma fábrica que estava parada em Paranaguá. O outro foi
o do comandante que sacou o seu talão de cheques e mandou comprar
uísque para os passageiros depois que seu avião ficou
retido em Viracopos, por problemas meteorológicos. Estes exemplos
evidenciam duas coisas: primeiro, as pessoas não ficaram presas
dentro dos limites dos seus cargos dizendo simplesmente “não”.
Segundo, elas não transferiram, para o cliente, os eventuais
entraves burocráticos da empresa. Nos dois casos, elas foram
os Presidentes Operacionais porque fizeram o que tinha de ser feito,
independente do fato de serem ou não suas as responsabilidades.
Uma das características mais fortes da burocracia é
o enquadramento das pessoas dentro dos limites dos cargos e dos regulamentos.
As pessoas passam a ver a empresa e o seu trabalho através dessas
janelas estreitas. Hoje, é preciso que os trabalhadores se vejam
como parte de um processo. Assim, ainda que não seja obrigação
do comandante comprar uísque para passageiros, ele foi capaz
de se perceber dentro de algo maior do que simplesmente tirar e devolver
o avião ao solo com segurança.
Empowerment é derrubar paredes, pisos e tetos dos
cargos, redesenhando-os sob a ótica do processo no qual aquelas
pessoas estão envolvidas. Entretanto, as paredes só caem
quando a Visão, o Negócio e a Missão da empresa
são claros para todos. Numa empresa, onde há um processo
de empowerment, a transferência de burocracia, para o
cliente, é mínima ou inexistente. Porque, afinal de contas,
a burocracia não agrega nenhum valor ao produto ou serviço
pelo qual nós estamos pagando.
*Odino Marcondes é sociólogo, consultor e diretor da
Marcondes Consultores Associados.
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