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O crescimento do mercado acionário brasileiro,
que surfou em altas estratosféricas nos últimos
anos, não é – como chegaram a pensar os mais
céticos – uma bolha fadada a explodir a cada crise
de liquidez global. Os espasmos de incerteza e intranqüilidade
nas principais bolsas do mundo, causados por fatores como as cólicas
da economia norte-americana, a inflação dos alimentos
no mundo e a disparada dos preços do petróleo, têm
impacto na Bovespa, naturalmente, mas não alteram o cenário
virtuoso da principal bolsa brasileira, ainda mais fortalecida
por meio do processo de unificação com a Bolsa de
Mercadorias & Futuros. O número de novas companhias
abrindo capital e a presença dos investidores internacionais
– agora reforçada pela obtenção do
grau de investimento concedido pelas agências de risco Standard&Poor’s
e Fitch – sinalizam que o ciclo de expansão pode
estar apenas começando. No final de maio, a Bovespa registrava
que as pessoas físicas já representavam 27,9% do
volume negociado no pregão. O valor de mercado das companhias
listadas na Bovespa já se equipara ao valor do PIB brasileiro,
fenômeno próprio de nações com um mercado
de capitais amadurecido.
Os novos tempos do mercado acionário brasileiro
e o boom histórico de IPOs (a oferta inicial de
ações que marca a abertura de capital das empresas)
se refletiram, também, e de forma decisiva, no mercado
de trabalho de profissionais ligados à bolsa. Especialistas
de diversas áreas têm visto seu passe se valorizar
de maneira explosiva. São analistas de investimentos, de
controles internos e de compliance, contadores e auditores,
experts em governança, consultores externos, advogados
societários e especialistas em Relações com
Investidores (RI). O ímpeto dos brasileiros por investir
em ações também escancara oportunidades em
outras áreas, como a de consultorias financeiras e de direito
societário, gestores de fundos, cursos de capacitação
e, também, do mercado editorial focado em finanças
pessoais e investimentos. “Sem dúvida, os últimos
oito anos podem ser considerados históricos para
o mercado de capitais brasileiro – e isso se reflete na
demanda por profissionais e serviços especializados”,
afirma Arleu Anhalt, diretor-presidente da Firb, empresa especializada
em consultoria de Relações com Investidores (RI).
“Neste primeiro trimestre de 2008, tivemos um aumento
de 88%, em relação a 2007, nos pedidos de profissionais
para atuar em áreas relacionadas ao mercado de capitais”,
complementa Gino Oyamada, sócio da Fesa Global Recruiters.
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| Sílvia Emanoele: profissionais
com dois ou três anos de experiência já são
considerados veteranos |
Tempos
inusitados
A procura por serviços e profissionais
especializados em mercado de capitais ganhou novo impulso, também,
com a criação, em 2001, do Novo Mercado da Bovespa
– compromisso voluntário assumido por empresas dispostas
a adotar boas práticas de governança corporativa,
em um padrão de transparência superior ao que a lei
exige. Até 2005, apenas 19 empresas estavam listadas no
Novo Mercado (NM), mas a partir de 2006 praticamente todos os
novos IPOs foram feitos já com as empresas enquadradas
nesse nível de classificação na bolsa. No
início de junho, chegou a 100 o número de companhias
classificadas no Novo Mercado. “Isso aumentou muito a procura
por profissionais de RI, das áreas de auditoria e de contabilidade
e, também, de especialistas em controles internos, capazes
de formatar mecanismos de governança para garantir a transparência”,
diz Ana Paula Ramos, gerente da divisão de finanças
da consultoria Michael Page, especializada em recrutamento de
média gerência.
A demanda é tanta que produz situações
impensadas há poucos anos. “Os profissionais passaram
a receber dois ou três telefonemas semanais com ofertas
de empregos e aqueles com dois ou três anos de experiência
passaram a ser considerados veteranos, verdadeiros dinossauros
em RI”, conta Sílvia Emanoele Sewaybricker, gerente
de RI da Positivo Informática.
De fato, a mais recente versão, divulgada
em 2007, da Pesquisa sobre o Profissional de RI, promovida pelo
IBRI em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas
Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), traz dados
reveladores sobre a evolução dos salários
nessa área. Entre os 110 profissionais de nível
gerencial entrevistados, 49% deles recebiam salários acima
de R$ 12 mil mensais no segundo semestre de 2006, quando o levantamento
foi feito. Para se ter uma idéia, em 2003 esse mesmo padrão
salarial só era alcançado por 24% dos profissionais.
A pesquisa mostrou também que houve acentuado declínio
na média de idade desses profissionais. Entre 2003 e 2006,
a parcela situada na faixa etária de até 29 anos
aumentou de 8% para 25%, enquanto a faixa acima de 45 anos caiu
de 41% para 27%. Um sinal, inclusive, de que os profissionais
mais experientes migraram para níveis mais elevados na
hierarquia empresarial, como diretorias de relacionamento com
o mercado, ou para outros segmentos que pagam até melhor,
como as instituições financeiras ou de gestão
de fundos. Othamar Gama Filho, presidente da operação
brasileira da People Keys, empresa internacional de headhunting,
conta que na área financeira já há profissionais
no Brasil ganhando até 30% mais do que em Wall Street.
“Não é incomum que um gestor de fundos no
Brasil ganhe entre R$ 30 mil e R$ 40 mil por mês, em média”,
comenta.
É claro que a rápida movimentação
do mercado também traz problemas. O principal é
a falta de tempo para a capacitação dos profissionais.
“Eles são obrigados a descer do ônibus andando
e têm de aprender enquanto fazem, sem tempo para um longo
aprendizado”, preocupa-se Luís Fernando Moran Oliveira,
gerente de RI do grupo catarinense Weg e diretor de comunicação
do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores
(IBRI). O diretor da Michael Page, Roberto Picino, sofreu os efeitos
da falta de talentos para dar conta da explosão da demanda.
“Na área de RI, por exemplo, tivemos muitos problemas
com profissionais recém-formados que eram contratados já
em posição sênior. Pessoas com 28 ou 29 anos
de idade passaram a receber salários de até R$ 18
mil mensais, porque a procura era altíssima.”
Os mais procurados
Elo fundamental com os investidores e analistas,
os profissionais de RI estão entre os que tiveram a função
– e os salários – bastante valorizados. “Até
2006, trabalhávamos com uma demanda semestral por dez profissionais.
Em 2007, essa demanda já havia saltado para cerca de 40
profissionais requisitados por empresas ou instituições
financeiras”, conta Ana Paula. Ricardo Rosanova Garcia,
gerente de RI do Paraná Banco e também responsável
pela Comissão de Novos Associados do IBRI, acompanha de
perto o boom da profissão de RI – uma das
grandes beneficiárias da expansão da bolsa e da
multiplicação dos IPOs. Garcia lembra que há
dez anos, em 1998, quando começou a trabalhar no Itaú, o
banco ainda não tinha sequer um departamento de RI. Hoje,
a companhia é considerada uma das principais referências
brasileiras no campo de Relação com Investidores.
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Gama: importação
de talentos será inevitável” |
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O grande número de aberturas de capital
é, sem dúvida, o principal fator que fez aumentar
a procura por profissionais de RI. De acordo com Geraldo Soares,
presidente executivo do IBRI e gerente de RI da Itaú Holding
Financeira, a área de RI tem a função de
preparar a estratégia de comunicação, promover
o alinhamento das práticas da companhia com a legislação
e eliminar eventuais ruídos na maneira como o mercado interpreta
os movimentos da empresa. “E a demanda tende a crescer à
medida que as companhias percebem que é um erro ir para
um IPO sem uma equipe de RI já estruturada”, diz
Soares. Nesse cenário, desponta toda uma cadeia de aperfeiçoamento
das práticas das empresas que vincula profissionalização,
controles internos e governança corporativa. “Nas
companhias abertas, aqueles profissionais da área financeira,
acostumados a dissecar balanços e indicadores, precisam
trabalhar junto com outras pessoas, para entender o quadro geral
da companhia e comunicar isso ao mercado de forma adequada”,
comenta Ana Paula.
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