| Ricardo Young carrega em seu currículo
a marca do pioneirismo. Sob o comando da marca Yázigi Internexus,
liderou a equipe que inventou a franquia no Brasil. A experiência
e o conhecimento no tema o levaram a fundar, em 1987, a Associação
Brasileira de Franchising, reunindo hoje mais de 600 associados.
Ao longo dos anos, fez parte de diversas organizações
nacionais e internacionais envolvidas com os temas de sustentabilidade
e cidadania empresarial – como Transparência Brasil
e World Business Academy.
Hoje, ocupa a presidência do Instituto Ethos de
Empresas e Responsabilidade Social, âncora ética
de mais de 1,3 mil empresas que geram 2 milhões de empregos.
Em sua entrevista a AMANHÃ, durante o Global Forum
América Latina, realizado em junho, em Curitiba, Ricardo
Young reafirma a postura polêmica que o levou a ocupar lugar
de destaque no meio empresarial. Decreta o fim do líder
herói, critica as universidades corporativas e propõe
a renúncia ao consumismo como alternativa a um mundo mais
sustentável.
As empresas, que não têm encontrado profissionais
qualificados, criam universidades corporativas. As universidades,
por sua vez, transformam-se em centros tecnológicos. Afinal,
onde está hoje o conhecimento?
As organizações são espaços produtores
do saber. Hoje, há mais de 100 universidades corporativas
no Brasil, que terceirizam a educação e rebaixam
a democratização do ensino à segunda ou à
terceira prioridade. Por outro lado, as universidades emulam empresas
para preparar gente para o mercado e se despem da sua função
tradicional de universidades ao priorizar o ensino técnico.
Então, temos um diálogo de surdo e mudo.
O senhor é contrário às universidades
corporativas?
Particularmente, sou contra uma empresa criar uma escola para
formar os seus próprios funcionários. Considero
isso arrogante. Não vou discutir se é necessário
ou não, dado o caos da nossa educação. Às
vezes, por falta de opção, a empresa é obrigada
a isso. A Vale do Rio Doce, por exemplo, não encontrava
engenheiros de ferrovia. Teve de fazer uma escola de engenharia
ferroviária para formar engenheiros. Mas o papel da empresa
não é tentar reproduzir, dentro de si própria,
as funções que o conjunto da sociedade pode fazer
melhor. A empresa deve ser uma indutora de processos de aprendizagem
contínua. E essa indução pode vir por parcerias,
inclusive com programas de universidades. O dinheiro que ela eventualmente
coloca em uma universidade corporativa deveria ser investido em
um convênio com escolas de negócios, com centros
de capacitação, com sistemas via aprendizagem industrial.
Investindo em escolas, constitui-se um laboratório para
a geração de saberes que possam ser aplicados no
conjunto da sociedade – resguardadas, obviamente, as questões
industriais e de segredo de concorrência.
E o que devem fazer as empresas que não encontram
profissionais preparados no mercado, mas precisam deles em curto
espaço de tempo?
Acho que toda empresa que não consegue capacitar seus funcionários,
ou que vai ao mercado e não encontra as pessoas –
e digo isso por ser empresário e conhecer o mercado –,
não está estabelecendo os diálogos apropriados
com a sociedade. Se estivesse, encontraria parceiros para fazer
essa qualificação, nem que fossem as empresas juniores.
Muitas soluções corporativas passam, antes, por
um olhar diferenciado. Qual é a lógica do mercado?
Eu abro vagas e há uma demanda que, necessariamente, será
qualificada para as vagas. Esses profissionais serão automaticamente
funcionais. Essa é a lógica linear, arrogante. Qual
é a lógica sistêmica? Eu tenho vagas para
funções muitas vezes especializadas, que não
são formadas pelo mercado. Para recrutar pessoas para essas
vagas, preciso ir a centros de produção de conhecimento.
Terei de abrir o meu leque de relacionamentos e estabelecer redes
de colaboração. Quando surge uma vaga no Instituto
Ethos, por exemplo, sei que não vou abrir o jornal e encontrar
especialistas em responsabilidade social. O que fazemos então?
Existe uma rede de entidades que trabalham em conjunto. Dentro
dessa rede, a tendência de encontrar pessoas qualificadas,
ou que estão se qualificando, é muito maior.
Como devem ser os novos centros de produção
do saber?
O desafio mais importante é combater a fragmentação
do conhecimento. Os espaços de produção do
saber devem ser diferenciados. O MediaLab, que é quase
um templo de gênios no Massachusetts Institute of Technology
(MIT), é uma bagunça. No mesmo espaço, batatas
fritas, ursos de pelúcia e computadores de última
geração se misturam. Lá, o caos é
a ordem. Os espaços de integração criativa
acabam resultando mais desafiadores e humanos que os convencionais.
O lugar de aprender é fora da sala de aula.
Que tipo de líder é forjado nesses espaços?
Um líder cuja principal capacidade é a ousadia.
Que é capaz de aprender, desafiar seus conceitos e ousar
com criatividade: um verdadeiro interventor na realidade. É
preciso que ele seja um catalisador e tenha a ousadia da inovação.
Está decretada a falência do líder herói,
do líder especialista, do líder setorial. A sociedade
clama por lideranças com capacidade de olhar acima e além
do interesse pessoal, da sua organização ou do seu
setor. Esse tipo de liderança é urgente e necessária.
O novo desafio é empoderar lideranças que tenham
capacidade para mudar o padrão existente e produzir uma
nova realidade.
“Sou contra uma empresa criar
uma escola para formar os próprios funcionários.
Esse dinheiro deveria ser investido em parcerias com escolas
de negócio e centros de capacitação”
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Quais são as características desse novo
líder?
O MIT realizou uma pesquisa com 150 líderes de multinacionais,
na qual perguntou sobre o momento de decisão mais importante
de suas carreiras e ao que eles creditavam o sucesso. As respostas
não tinham nenhuma relação com business ou
aspectos profissionais. Todos, sem exceção, disseram
que os momentos de insight surgiram não do esforço
intelectual, mas da inspiração ou reflexão
profundas, aliando aspectos mentais, emocionais e até espirituais.
A partir daí, o MIT propôs a Teoria U, segundo a
qual não existe liderança sem um profundo processo
de conhecimento que envolve diálogo e intuição.
Tive a oportunidade de participar de um programa no próprio
MIT, durante um ano e quatro meses, entre 2006 e 2007, justamente
para assimilar a teoria e criar condições para aprofundá-la.
Quais os princípios dessa teoria?
O primeiro é perceber que o trabalho dos líderes
se restringe, ainda, à superfície dos processos.
Ainda temos um padrão mental do século 19, baseado
em uma visão mecânica e linear – e usamos esse
padrão para tomar decisões importantíssimas
em um mundo cuja lógica é da complexidade e do caos.
As leis que hoje regem as dinâmicas da sociedade não
são mais cartesianas. E a pressão da complexidade
não se dá apenas na dimensão intelectual.
Para compreendê-la, é necessário integrar
os diversos níveis de percepção da realidade
– intelectual, espiritual ou psíquico e emocional.
Os líderes estão utilizando ferramentas lineares
e superficiais para resolver problemas complexos. Essa é
a hipótese dos criadores da Teoria U.
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