| Numa orquestra sinfônica, tudo parece ter
nascido perfeito. Os músicos alinhados, os instrumentos em sintonia,
o maestro ditando o ritmo. Por detrás das cortinas, entretanto,
nem sempre o grupo é tão harmonioso como assiste a audiência.
Eventuais problemas de relacionamento, comuns a qualquer grupo, podem
se tornar ainda maiores se as pessoas envolvidas forem confiantes ao
extremo, inflexíveis e, finalmente, geniais naquilo que fazem.
“Todas as orquestras têm, igualmente, grandes talentos e
pessoas de difícil temperamento. Para que o público ouça
um grande espetáculo, é preciso conseguir um equilíbrio
delicado”, diz Alessandro Sangiorgi, titular da Orquestra Sinfônica
do Paraná.
Conflitos causados por “gênios geniosos” são
comuns também dentro das empresas. O desafio das corporações
que dependem desses talentos é saber o que fazer com eles. Afinal,
elas dependem, em igual medida, da cooperação e do trabalho
em equipe para prosperar. “Quando se aumenta a média de
QI [quociente de inteligência] dentro de um recinto, crescem também
os problemas emocionais”, constata Celso Braga, sócio do
grupo Bridge, especializado em treinamento de profissionais e Recursos
Humanos. Ele cita o exemplo de um executivo que já havia feito
dois mestrados, um doutorado e não conseguia permanecer em nenhum
emprego. Desesperado, buscava então se matricular em um Master
Business Administration (MBA). “Na verdade, o que ele precisava
não era mais conhecimento técnico, mas sim investimento
em se conhecer”, explica Braga. “Era genial, mas não
sabia como se relacionar com as pessoas. Por isso, não era contratado
e, quando era, não permanecia muito tempo na posição
conquistada.”
Seleção evita
a “saia-justa”
Como reconhecer os problemas causados pelos “gênios geniosos”?
As pistas surgem quando ter o colaborador na empresa traz várias
dores de cabeça, mas, ao mesmo tempo, não há motivos
para demiti-lo – já que realiza seu trabalho com excelência.
“Apesar da reconhecida competência do profissional, a energia
necessária ao convívio consome seus colegas. Uma pessoa
não precisa ser competente, mas uma equipe sim”, destaca
Rosângela Pedrosa, professora da Fundação Dom Cabral,
especializada em desenvolvimento de executivos.
Sérgio Zukov Neto, gerente-geral do Shopping Praia de Belas,
em Porto Alegre, relembra que já precisou dispensar gente com
potencial técnico acima da média, mas intratável.
“É melhor trabalhar com alguém que tenha capacidade
e interesse no que faz, saiba atuar em equipe e possa ser treinado,
do que com um gênio que saiba muito sobre o trabalho, mas nada
sobre convivência.” A opinião é compartilhada
por Renato Flores, professor de Genética da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Às vezes, a pessoa não
é tão brilhante, mas é sistemática e trabalhadora.
Assim, produz mais do que quem é muito criativo, mas dispersivo”,
explica. “O mérito de Darwin e Mendel não era serem
inteligentes, mas serem esforçados”.
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Muitas vezes, a demissão é a escolha da companhia para
solucionar esse problema. Porém é alternativa que só
deve ser colocada em prática quando o departamento de Recursos
Humanos esgotou as demais opções – de programas
de treinamento ao remanejamento interno. “A empresa opta por demitir
uma pessoa quando imagina que, assim, os custos serão menores
do que os danos morais, de sinergia e de clima organizacional ocasionados
pela permanência do colaborador no ambiente de trabalho”,
diz Rosângela Pedrosa, da Dom Cabral. O headhunter Rubem
Souza, da RSA Talentos Executivos, de Porto Alegre, testemunhou o caso
de um calejado executivo que falava três idiomas. Depois de um
ano de trabalho em uma indústria, foi demitido porque “não
soube priorizar aquilo que era mais importante para a função:
o relacionamento”. O problema é que, nas contas de Souza,
essa é a causa da demissão de um executivo em nada menos
do que 85% dos cargos.
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Alessandro Sangiorgi: nem tudo é
“sinfonia” |
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Para evitar que a situação degenere a esse ponto, cuidados
devem ser tomados pela empresa já a partir do processo de seleção.
Aí, o papel dos departamentos de Recursos Humanos das companhias
é determinante. A análise entre qualidades técnicas
e comportamentais deve ser detalhada, para evitar enganos tanto de perfil
quanto de cargo na hora da contratação. “O processo
seletivo é a parte mais importante da contratação.
Quando se faz a seleção correta, elimina-se retrabalho
e frustrações, além dos custos de admissão
e demissão para a empresa”, previne Rubem Souza. Algumas
vezes, porém, tanto as empresas recrutadoras como os departamentos
de recursos humanos são espremidos por prazos e precisam encontrar
sucessores em tempo recorde – o popular “para ontem”.
É bem-feito para a companhia. “Seleção errada
é culpa da empresa. O ideal é contratar pessoas pelas
suas competências, mas também pelas capacidades técnicas
e comportamentais”, reconhece Glaucy Bocci, consultora sênior
de leadership transformation do Hay Group.
Muitas empresas já percebem a importância fundamental
dos processos de seleção para evitar problemas insuspeitos.
É o que diz Adeildo Feliciano do Nascimento Filho, diretor de
Recursos Humanos da GVT, com sede em Curitiba. “Nossa preocupação
é trazer para o ambiente de trabalho pessoas que tenham o ‘jeitão’
da GVT”, diz. Os candidatos a trabalharem na empresa, após
a análise de currículos, participam de sessões
de dinâmica de grupo e entrevistas, pelas quais são diagnosticadas
suas competências e também sua capacidade de trabalhar
em equipe – um dos pré-requisitos mais importantes para
a contratação.
A GVT chegou a criar um programa de educação tecnológica
na tentativa de moldar o perfil dos futuros colaboradores desde o início.
“Nós os capacitamos e mostramos o ‘jeito GVT’
de trabalhar”, conta Nascimento.
Domando os leões
Mas o que fazer se o gênio difícil já estiver
dentro da equipe? A primeira providência dos líderes é
reconhecer o problema e não subestimar os conflitos comportamentais
que ele pode gerar. Se a empresa fizer vistas grossas, dará margem
à formação de verdadeiros motins. “Em uma
empresa brasileira de alimentos, os colaboradores de uma área
se revoltaram e deram um ultimato à direção”,
conta Carlos de Paola, gestor em Tecnologia da Informação
– área famosa por concentrar profissionais de capacidade
apurada e gênio complicado. “A equipe avisou que, se o chefe
não se demitisse, todos eles se demitiriam”. Ninguém
duvidava da capacidade técnica do chefe em questão, mas
a mala havia se tornado pesada demais. A empresa, então, não
teve outra saída e o demitiu.
Trabalhando em grandes empresas argentinas e brasileiras, De Paola
já enfrentou situações em que o colaborador era
excelente, mas o convívio... A opção mais natural
é tentar contornar a dificuldade de convívio dessas pessoas.
Avaliações organizacionais podem ser um bom caminho –
como a chamada avaliação de 360 graus, que inclui a participação
da chefia, dos colegas de trabalho e do próprio colaborador,
tanto com relação às suas competências técnicas
como no relacionamento interpessoal. Dessa forma, pode-se perceber se
a pessoa é adequada ou não à função
que ocupa, assim como a maneira como é notada pelos demais colegas.
“Na Santista Têxtil, utilizamos esse método”,
conta De Paola. “Reunimos os chamados ‘supertécnicos’
da empresa, que enxergavam e eram enxergados pelos colegas, tanto subordinados
como superiores. Olhando-se sob distintos espelhos, é mais fácil
perceber as próprias falhas”.
Com a análise em mãos, a área de Recursos Humanos
elabora um feedback a ser dado ao funcionário. Juntos,
estabelecem metas de curto, médio e longo prazos para tentar
melhorar as falhas apontadas – inclusive de relacionamento. “Para
ajudar os colaboradores, algumas empresas patrocinam atividades de coaching
e mentoring, treinamentos personalizados que desenvolvam plenamente
suas capacidades”, observa Vanderlei Schadeck, presidente da seccional
Santa Catarina da Associação Brasileira de Recursos Humanos
(ABRH-SC). Nessa caminhada, vale até mesmo encaminhar o profissional-problema
a programas terapêuticos. “Um dos maiores desafios dos executivos
é o autoconhecimento”, destaca Rosângela Pedroso,
professora da Fundação Dom Cabral.
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