| Imagine não ter de desembolsar
um centavo para alugar um DVD, para fazer as compras do mês
ou até mesmo viajar ao exterior. Alguns visionários
tentam demonstrar que uma sociedade repleta de bens e serviços
gratuitos será uma conseqüência natural da superabundância
da oferta de produtos que fatalmente ocorrerá num futuro
não tão distante. Para o presidente da consultoria
de tendências holandesa Trendwatching, Reinier Evers, um
dos defensores da tese, os apelos tradicionais de marketing serão
insuficientes quando as pessoas ficarem “enjoadas”
de tanto consumir, depois de algumas décadas de compras
frenéticas. “Nas economias mais evoluídas,
os consumidores já não se sensibilizam com propaganda
e deixaram de se preocupar com status. Muitos não estão
dispostos a pagar por um bem que já possuem ou do qual
na realidade nem precisam. Talvez a única forma de despertar
o interesse dessas pessoas seja oferecer bens e serviços
gratuitos”, disse Evers a AMANHÃ.
Há um dilema óbvio relacionado a
essa tendência: por mais que avance a economia do gratuito,
as empresas continuarão tendo como objetivo o lucro. E
alguém terá de pagar a conta. A saída mais
óbvia é faturar com atividades associadas aos produtos
ou serviços sem custo, o que enfraquece – e muito
– o caráter supostamente utópico da economia
free. Na realidade, o que se dará gratuitamente terá
sempre algum objetivo comercial, ainda que essa relação
nem sempre seja direta ou fique explícita. Isso quer dizer
que a máxima “não existe almoço grátis”
continuará valendo para todo o sempre? Talvez não.
Nada impede que um supermercado passe a oferecer almoço
de graça para qualquer pessoa, independentemente de ter
feito compras ali ou não. Esse pode ser um apelo decisivo
para que o consumidor volte no momento de encher a despensa –
uma conquista e tanto em um cenário de grande concorrência.
O aumento nas vendas gerado por esse tipo de iniciativa possivelmente
compensaria com folga os gastos com os almoços oferecidos
– embora tal raciocínio seja válido, evidentemente,
para países com distribuição de renda mais
justa que a do Brasil.
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| Viagens gratuitas: a companhia irlandesa
Ryanair dá bilhetes de graça, mas cobra pelos
outros serviços, inclusive despacho de bagagens e lanches |
Preço
simbólico
Encontrar formas menos óbvias de gerar
faturamento será o maior desafio das empresas no futuro,
supõem os visionários da freeconomics.
Não parece nada fácil imaginar, com a mentalidade
de hoje, uma fabricante de geladeiras que sobreviva de outro jeito
que não seja vendendo geladeiras, mas o princípio
é mais ou menos esse. Um exemplo vem da empresa de aluguéis
de carros alemã LaudaMotion. Nem todo mundo está
disposto a pagar para utilizar um carro, visto que há muitos
outros modos de se locomover, em especial nas cidades européias,
com ótimas opções de transporte coletivo
em metrôs, ônibus e trens suburbanos. A LaudaMotion
resolveu oferecer o serviço por um valor simbólico
(apenas um euro), o que faz com que as pessoas se disponham a
dirigir os automóveis por todos os cantos da cidade. Para
assegurar a rentabilidade necessária, a empresa vendeu
espaço publicitário para empresas diretamente interessadas
nos turistas, o público-alvo da LaudaMotion. Assim, os
automóveis foram inteiramente pintados com as cores e com
a logomarca da empresa de cartão de crédito Visa
ou, então, com anúncios de lanches do McDonald’s.
É um modelo que, na teoria, pode ser aplicado a qualquer
outro serviço em que se identifiquem interesses compartilhados
e um público-alvo específico.
Já no caso das viagens aéreas, muitos
especialistas acreditam que elas tenham se transformado em commodities
– ou seja, já não há um valor agregado,
seja de status ou qualquer outro, no ato de viajar de avião.
Como tanto faz, para grande parte dos usuários, voar por
uma companhia aérea ou por outra, as empresas que mais
atraem o consumidor médio são aquelas que oferecem
o preço mais baixo. Ou não cobram nada pela viagem!
É o caso da irlandesa Ryanair. Levar uma pessoa de Londres
para Barcelona custa à empresa cerca de 70 libras. Ao oferecer
tíquetes gratuitos, ela transfere esse custo cobrando por
serviços especiais. Despacho de bagagens, bancos com maior
espaçamento entre os assentos, lanches, tudo é pago,
mas apenas por quem precisa ou decide usá-los. A AsiaAir
e a norte-americana Spirit Airways fazem algo semelhante. “Segmentamos
nossos serviços especiais e cobramos mais por isso”,
diz Juan Aberlaez, assessor de comunicação da Spirit.
E por mais que a companhia aérea não ofereça
sempre passagens gratuitas, consegue uma ocupação
de 85% a 95% em todas as rotas operadas – acima da média
mundial, que fica abaixo dos 80%. Essa ocupação
garante as promoções com ofertas pontuais de bilhetes
gratuitos. “É impossível operar sem cobrar,
parece-me uma utopia. As companhias precisam ter rendimentos”,
esclarece Aberlaez.
Quem aposta na disseminação crescente
da gratuidade de bens e serviços costuma argumentar, entre
outras coisas, que os custos de produção vêm
caindo ano após ano, sobretudo em decorrência dos
avanços tecnológicos. Insumos cruciais para a composição
dos custos de uma empresa – comunicação, logística
e armazenagem de dados, por exemplo – estão ficando
progressivamente mais baratos. A tendência é uma
aproximação cada vez maior do custo zero. Isso significa
que dar uma geladeira de presente a um consumidor, apostando em
alguma outra forma de fazê-lo gastar dinheiro, é
uma estratégia muito mais viável hoje do que era
no passado, e será ainda mais no futuro.
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Portugal: sociedade da abundância
é incabível |
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Esse processo de “banalização”
de um produto comprometeria o desejo do consumidor por ele, o
que fulminaria o equilíbrio da mão invisível
de Adam Smith. Afinal, será que está por surgir
um modelo econômico que acabará com a Lei da Oferta
e Demanda – máxima da economia que trabalha com a
hipótese de que o mundo é da escassez e não
da abundância? Não é o que defende Marcelo
Portugal, professor de Macroeconomia da Faculdade de Ciências
Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(FCE-UFRGS). “Em uma economia de escala, isso é impossível”,
afirma Portugal. Para ele, a idéia de viver em uma sociedade
de abundância é incabível, visto que os recursos
naturais continuarão sendo escassos. Seguindo o mesmo raciocínio,
uma sociedade baseada no gratuito só poderia se sustentar
em duas circunstâncias: se houvesse uma infinita oferta
de um bem – “o ar só é gratuito porque
está em excesso no mundo”, exemplifica Portugal –
ou quando não se conseguisse controlar a propriedade do
direito de um bem, como aqueles que estão na internet.
Exemplos bem reais da carência de recursos naturais é
a escalada, nos últimos anos, dos preços das commodities
metálicas, do petróleo e dos grãos, para
citar alguns produtos que não existem em abundância.
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| Evers, da Trendwatching: nos países
ricos, as pessoas já estão enjoadas de tanto consumir |
Caminho
sem volta
Em contrapartida, há quem acredite que
o advento da economia free será uma espécie
de “caminho sem volta” quando começarem a proliferar
ofertas de produtos e serviços gratuitos, em decorrência
de uma postura histórica dos consumidores, reforçada
mais recentemente pelas experiências envolvendo a internet:
a de resistir ao máximo para abrir mão de “direitos
já conquistados”. Quem já baixou softwares
ou livros digitais sem pagar nada dificilmente concordará
em desembolsar algo pelos mesmos produtos.
Claro que o dilema entre cobrar ou oferecer gratuitamente
ainda está bastante circunscrito às empresas que
lidam com produtos da nova economia – justamente as que
buscam fórmulas inovadoras para sustentar o negócio.
Como o custo de armazenagem e distribuição digital
tende a zero e o controle do uso da tecnologia é complicado,
muitas empresas disponibilizam os programas gratuitamente na rede
para serem compartilhados, cobrando apenas dos consumidores interessados
em serviços especiais, mais completos ou exclusivos. “Costuma-se
trabalhar com a idéia de que 3% a 5% dos usuários
pagarão por um serviço extra. Isso é o suficiente
para cobrir o custo e ainda faturar”, afirma o diretor do
setor de desenvolvimento de negócios da Microsoft Corporation,
Don Dodge. A empresa de Bill Gates se viu obrigada a rever conceitos
e mudar posturas depois que os softwares livres abocanharam parte
do mercado de seus produtos. “Aplicamos hoje vários
modelos de venda, com licenças perpétuas, contratação
de serviços ou até mesmo gratuidade. Não
é inteligente adotar apenas um tipo de negócio,
como a empresa fazia antes”, comenta Dodge.
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