| A contundência de Jório
Dauster nesta entrevista a AMANHÃ surpreende. Não
que lhe faltem razões para subir o tom. Afinal, está
ativo no front dos negócios, como presidente do Conselho
da Brasil Ecodiesel e conselheiro de várias empresas, entre
elas a Global Crop Diversity Trust, de Roma. Mas, aos 71 anos,
ele, como bom carioca, apreciador de “um papo à beira
de um uísque”, poderia dissolver sua impaciência
em doses generosas de ironia. Recursos, tem de sobra. Diplomata
de carreira, foi embaixador do Brasil junto à União
Européia e ajudou a negociar o fim da moratória
brasileira, em 1991. Como tradutor de Nabokov (Lolita, entre outras
obras) e J.D. Salinger (O Apanhador no Campo de Centeio), está,
portanto, acostumado a escolher muito bem as palavras. E escolheu
expressões duras para fustigar burocratas da ONU, índios
motorizados, ambientalistas ingênuos ou ignorantes e ONGs
obscuras. Amante do tênis, e chegado a algumas incursões
pelo teclado, produziu uma marchinha de carnaval (Marcha do Peru)
que é uma verdadeira raquetada musical em tudo que lhe
parece fora de lugar. Um verso: “Quero silêncio neste
galinheiro agora”. A entrevista a seguir confirma: Jório
perdeu a paciência.
A euforia brasileira em torno dos biocombustíveis
não é exagerada?
O biocombustível não é uma opção,
mas um imperativo. Por uma razão simples, até banal:
é necessário encontrar substitutos para combustíveis
fósseis, que, além de serem finitos, têm suas
fontes em áreas politicamente conturbadas. Por outro lado,
o petróleo, o gás e principalmente o carvão
são altamente poluentes, o que é inaceitável
na era do aquecimento global. Assim, é evidente que o mundo
terá de estimular todas as possibilidades de energia renovável,
venham elas da água, do sol, do vento, das marés...
Tudo o que estiver ao nosso alcance é válido, mas
as fontes que aparecem como as mais econômicas e as mais
abundantes são as de matéria orgânica, originárias
das plantas.
Por quê?
Porque uma parte imensa do consumo de petróleo serve para
movimentar a frota de veículos. E é fundamental
substituir o modelo atual. Alguns defendem, por exemplo, o uso
de baterias sofisticadas para movimentar veículos. Mas
esquecem, ou finguem esquecer, que as baterias precisam ser recarregadas
com energia elétrica. Energia que muitas vezes vem de uma
usina termelétrica que está usando gás ou
diesel... e aí, na verdade, você não está
escapando ao modelo... Fala-se em hidrogênio como um substituto
válido. Mas o hidrogênio é complicadérrimo
no que diz respeito tanto à produção quanto
à distribuição, além de também
exigir eletricidade. E, quando se fala em novas fontes, há
uma questão que às vezes parece escapar à
visão: o que é que você faz com os veículos
que estão aí, milhões deles? Então,
não há nada no horizonte tecnológico que
possa gerar uma expectativa de substituição significativa
de combustível líquido para veículos além
dos biocombustíveis. Simplesmente não há.
Há ufanismo e mistificação em avaliações
que projetam o Brasil como o líder de uma possível
“Opep verde”?
Eu acho que não. Claro, toda afirmação, quando
ufanista, corre o risco de cair no ridículo. Mas, exagero
à parte, é preciso entender que se trata de aproveitar
politicamente uma situação. É isso o que
o presidente Lula tem feito a se tornar porta-voz destas expressões.
E ele tem um entusiasmo pessoal muito grande por este tema dos
biocombustíveis. Não é uma coisa montada
para impressionar a imprensa. O interesse dele por este assunto
é autêntico, uma coisa realmente incomum. Talvez
até porque o biodiesel seja sem dúvida resultado
de um programa do governo dele, ao contrário de outras
iniciativas, como o Bolsa Família, onde se vêem as
digitais do governo anterior.
Qual o tamanho real do protagonismo brasileiro em biocombustíveis?
O Brasil tem tudo para ser o líder na produção
de etanol com base na cana-de-açúcar, e, pouco mais
à frente, também na produção de biodiesel.
A soma de sol, área cultivável, mão-de-obra
e tecnologia, nos coloca em uma situação ímpar.
Não temos nada a temer na competição com
outros países. Acho natural que o Brasil trombeteie as
suas vantagens. Todos os países fazem isso – por
que não deveríamos fazer? Há uma grande oportunidade.
Como eu disse, é um imperativo do mundo atual substituir,
em parte, a gasolina pelo etanol e o diesel pelo biodiesel. De
acordo com as metas que já são discutidas nos EUA
e na Europa, em dez ou 15 anos se pensa em substituir de 15% a
20% do consumo de gasolina e diesel.
O que já significa volumes imensos.
Sem dúvida. A Agência Internacional de Energia divulgou
um relatório mostrando que o etanol e o biodiesel representarão
63% do aumento da produção de combustíveis
este ano nos países fora da Opep. Outro dado que impressiona
é que em 2008 a produção de biocombustíveis
já será equivalente a 655 mil barris de petróleo
por dia – aí incluídos os Estados Unidos,
principal produtor, o Brasil, que é o segundo, e os demais
países. Então, a substituição do petróleo
não só é um imperativo como já está
havendo uma resposta a esta necessidade. Se hoje temos uma disparada
no preço do petróleo, imagine-se o que seria, então,
se não existisse esta mordidinha dos biocombustíveis...
Ainda é uma mordidinha de canto. Mas é crescente
e começa a assustar muita gente.
“Até um comissário
da ONU se saiu com uma série de bobagens sobre o etanol
de cana-de-açúcar para depois ter de se desdizer
vergonhosamente”
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O que sustenta a liderança norte-americana?
Os EUA, como sempre, estão usando suas infinitas reservas
financeiras para ocupar o primeiro lugar na produção
de biocombustíveis, mas obviamente o estão fazendo
a um preço e em condições que são
debatíveis – do ponto de vista econômico, pelo
volume de subsídios que exige. Do ponto de vista ambiental,
pela ineficiência energética.
O uso da agricultura para produzir energia está
no centro do debate.
Há dois anos, havia quase que uma euforia mundial, não
só brasileira, com os biocombustíveis. E, de repente,
parece que alguém vira a página e você só
encontra dúvidas e críticas, muito mais do que elogios.
Por quê? Para começar, se formos olhar a origem dessas
manifestações aqui e acolá vamos encontrar
lobbies poderosíssimos por trás disso. Sobretudo
as petroleiras, que não brincam em serviço. Ninguém
gosta de competição. Mas há outros grandes
interesses envolvidos nessas críticas.
As críticas mais contundentes partem dos ambientalistas.
Os ambientalistas merecem um capítulo à parte. Claro,
há muita gente bem intencionada. Mas o que se observa,
muitas vezes, é um grau extraordinário de ingenuidade
e de desconhecimento – até científico –
de seus porta-vozes, que por isso se tornam alvo fácil
para todo tipo de manipulação. Na minha experiência
como embaixador, em Bruxelas, encontrei muitas dessas ONGs, algumas
de renome internacional, com um nível de ignorância
em relação ao Brasil realmente chocante. Diziam
e dizem muita besteira. Os grandes lobbies sabem espalhar
uns dinheirinhos, sabem plantar a informação, e
isso é repercutido de uma forma extraordinária.
Os representantes de algumas dessas ONGs trepam em arranha-céus,
fazem pirotecnias que não há jornal que não
reproduza. E há outras formas de agir, porque, em matéria
de ciência, como em matéria de direito, você
pode comprar um parecer pró e um parecer contra das maiores
sumidades...
Mas há elementos consistentes em certos reparos
e alertas que são formulados em relação ao
uso de biocombustíveis, não?
Talvez pelo excesso de otimismo que a gente observou há
alguns anos em matéria de biocombustíveis, está
havendo, agora, uma reação proporcional, porque
os lobbies tiveram tempo de se organizar e começar
a manipular a opinião pública – eles são
campeões nisso. Você vai dizer: mas é tudo
inventado? Claro que não. Veja a luta que vem sendo, para
o Brasil, separar o que se diz sobre o etanol de cana-de-açúcar
produzido aqui da questão ligada à produção
de etanol de milho nos EUA. Até mesmo um comissário
das Nações Unidas, em cargo de altíssima
responsabilidade, sai-se com uma série de bobagens sobre
como o etanol de cana-de-açúcar prejudica a produção
de alimentos, para depois ter de se desdizer vergonhosamente.
Mas aí já disse, milhões de pessoas leram
ou ouviram o bestialógico inicial, e a retratação
é pouco divulgada. Agora, até o Obama também
resolveu misturar cana-de-açúcar com Amazônia.
É tão fácil manipular esses elementos de
forte impacto emocional!
Tecnicamente, como se distinguem o etanol de cana e
o etanol de milho?
A questão fundamental a ser discutida é o balanço
energético. O etanol do milho tem um balanço energético
absolutamente ridículo, na melhor das hipóteses
é 1,3, ou seja, você gasta uma unidade de energia
fóssil para produzir 1,3 de energia renovável. Em
contraste, o balanço energético da cana-de-açúcar
está em 8,5, nove, caminhando para dez, isto é,
uma unidade de fóssil produz nove, dez unidades de energia
renovável. Não há a menor dúvida de
que o balanço é altamente favorável ao etanol
de cana. Nós, na Brasil Ecodiesel, encomendamos um estudo
a uma empresa européia, a Eco Securities, sobre o biodiesel
produzido a partir de mamona, na Bahia, utilizando agricultura
familiar, e o resultado já é 13,5. E se, em vez
de metanol, usar o etanol, o balanço energético
é de um para 40. O que é melhor para o planeta?
Há um consenso, porém, de que a produção
de alimentos não pode ser afetada.
Esta questão é complexa. Passa pelos subsídios
agrícolas dos países ricos, pelo forte aumento do
consumo de alimentos nos países emergentes, pela disparada
dos preços do petróleo e dos fertilizantes... Enfim,
algo que não pode ter seu debate restringido, como se busca
fazer, à questão da produção de biocombustíveis.
As críticas ao etanol de milho, por exemplo, têm
fundamentação. Mas depois que você mostra
a diferença entre uma coisa e outra, os sábios do
lado de lá levam a discussão para outro lugar. “Ah,
está bem, o etanol de cana-de-açúcar é
válido, mas cultivar na Amazônia não dá,
porque vai gerar desmatamento. Ah, e tem trabalho escravo, a vida
que o cortador de cana leva é um pavor...”. Ou seja,
existem sempre elementos de crítica. Ninguém está
dizendo que o etanol de cana-de-açúcar é
uma panacéia, que é uma solução milagrosa
para todos os problemas. Mas a distorção que é
feita acaba contaminando todo o debate.
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