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      Edição 243 - Junho de 2008
 

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Jório Dauster
Presidente do Conselho de Administração da Brasil Ecodiesel

O embaixador que atuou como negociador da dívida
externa e presidiu a Vale manda a diplomacia às favas
e metralha – entre outros alvos – as “besteiras” proferidas
lá fora contra o etanol brasileiro

 
Eugênio Esber

A contundência de Jório Dauster nesta entrevista a AMANHÃ surpreende. Não que lhe faltem razões para subir o tom. Afinal, está ativo no front dos negócios, como presidente do Conselho da Brasil Ecodiesel e conselheiro de várias empresas, entre elas a Global Crop Diversity Trust, de Roma. Mas, aos 71 anos, ele, como bom carioca, apreciador de “um papo à beira de um uísque”, poderia dissolver sua impaciência em doses generosas de ironia. Recursos, tem de sobra. Diplomata de carreira, foi embaixador do Brasil junto à União Européia e ajudou a negociar o fim da moratória brasileira, em 1991. Como tradutor de Nabokov (Lolita, entre outras obras) e J.D. Salinger (O Apanhador no Campo de Centeio), está, portanto, acostumado a escolher muito bem as palavras. E escolheu expressões duras para fustigar burocratas da ONU, índios motorizados, ambientalistas ingênuos ou ignorantes e ONGs obscuras. Amante do tênis, e chegado a algumas incursões pelo teclado, produziu uma marchinha de carnaval (Marcha do Peru) que é uma verdadeira raquetada musical em tudo que lhe parece fora de lugar. Um verso: “Quero silêncio neste galinheiro agora”. A entrevista a seguir confirma: Jório perdeu a paciência.

A euforia brasileira em torno dos biocombustíveis não é exagerada?
O biocombustível não é uma opção, mas um imperativo. Por uma razão simples, até banal: é necessário encontrar substitutos para combustíveis fósseis, que, além de serem finitos, têm suas fontes em áreas politicamente conturbadas. Por outro lado, o petróleo, o gás e principalmente o carvão são altamente poluentes, o que é inaceitável na era do aquecimento global. Assim, é evidente que o mundo terá de estimular todas as possibilidades de energia renovável, venham elas da água, do sol, do vento, das marés... Tudo o que estiver ao nosso alcance é válido, mas as fontes que aparecem como as mais econômicas e as mais abundantes são as de matéria orgânica, originárias das plantas.

Por quê?
Porque uma parte imensa do consumo de petróleo serve para movimentar a frota de veículos. E é fundamental substituir o modelo atual. Alguns defendem, por exemplo, o uso de baterias sofisticadas para movimentar veículos. Mas esquecem, ou finguem esquecer, que as baterias precisam ser recarregadas com energia elétrica. Energia que muitas vezes vem de uma usina termelétrica que está usando gás ou diesel... e aí, na verdade, você não está escapando ao modelo... Fala-se em hidrogênio como um substituto válido. Mas o hidrogênio é complicadérrimo no que diz respeito tanto à produção quanto à distribuição, além de também exigir eletricidade. E, quando se fala em novas fontes, há uma questão que às vezes parece escapar à visão: o que é que você faz com os veículos que estão aí, milhões deles? Então, não há nada no horizonte tecnológico que possa gerar uma expectativa de substituição significativa de combustível líquido para veículos além dos biocombustíveis. Simplesmente não há.

Há ufanismo e mistificação em avaliações que projetam o Brasil como o líder de uma possível “Opep verde”?
Eu acho que não. Claro, toda afirmação, quando ufanista, corre o risco de cair no ridículo. Mas, exagero à parte, é preciso entender que se trata de aproveitar politicamente uma situação. É isso o que o presidente Lula tem feito a se tornar porta-voz destas expressões. E ele tem um entusiasmo pessoal muito grande por este tema dos biocombustíveis. Não é uma coisa montada para impressionar a imprensa. O interesse dele por este assunto é autêntico, uma coisa realmente incomum. Talvez até porque o biodiesel seja sem dúvida resultado de um programa do governo dele, ao contrário de outras iniciativas, como o Bolsa Família, onde se vêem as digitais do governo anterior.

Qual o tamanho real do protagonismo brasileiro em biocombustíveis?
O Brasil tem tudo para ser o líder na produção de etanol com base na cana-de-açúcar, e, pouco mais à frente, também na produção de biodiesel. A soma de sol, área cultivável, mão-de-obra e tecnologia, nos coloca em uma situação ímpar. Não temos nada a temer na competição com outros países. Acho natural que o Brasil trombeteie as suas vantagens. Todos os países fazem isso – por que não deveríamos fazer? Há uma grande oportunidade. Como eu disse, é um imperativo do mundo atual substituir, em parte, a gasolina pelo etanol e o diesel pelo biodiesel. De acordo com as metas que já são discutidas nos EUA e na Europa, em dez ou 15 anos se pensa em substituir de 15% a 20% do consumo de gasolina e diesel.

O que já significa volumes imensos.
Sem dúvida. A Agência Internacional de Energia divulgou um relatório mostrando que o etanol e o biodiesel representarão 63% do aumento da produção de combustíveis este ano nos países fora da Opep. Outro dado que impressiona é que em 2008 a produção de biocombustíveis já será equivalente a 655 mil barris de petróleo por dia – aí incluídos os Estados Unidos, principal produtor, o Brasil, que é o segundo, e os demais países. Então, a substituição do petróleo não só é um imperativo como já está havendo uma resposta a esta necessidade. Se hoje temos uma disparada no preço do petróleo, imagine-se o que seria, então, se não existisse esta mordidinha dos biocombustíveis... Ainda é uma mordidinha de canto. Mas é crescente e começa a assustar muita gente.

“Até um comissário da ONU se saiu com uma série de bobagens sobre o etanol de cana-de-açúcar para depois ter de se desdizer vergonhosamente”

O que sustenta a liderança norte-americana?
Os EUA, como sempre, estão usando suas infinitas reservas financeiras para ocupar o primeiro lugar na produção de biocombustíveis, mas obviamente o estão fazendo a um preço e em condições que são debatíveis – do ponto de vista econômico, pelo volume de subsídios que exige. Do ponto de vista ambiental, pela ineficiência energética.

O uso da agricultura para produzir energia está no centro do debate.
Há dois anos, havia quase que uma euforia mundial, não só brasileira, com os biocombustíveis. E, de repente, parece que alguém vira a página e você só encontra dúvidas e críticas, muito mais do que elogios. Por quê? Para começar, se formos olhar a origem dessas manifestações aqui e acolá vamos encontrar lobbies poderosíssimos por trás disso. Sobretudo as petroleiras, que não brincam em serviço. Ninguém gosta de competição. Mas há outros grandes interesses envolvidos nessas críticas.

As críticas mais contundentes partem dos ambientalistas.
Os ambientalistas merecem um capítulo à parte. Claro, há muita gente bem intencionada. Mas o que se observa, muitas vezes, é um grau extraordinário de ingenuidade e de desconhecimento – até científico – de seus porta-vozes, que por isso se tornam alvo fácil para todo tipo de manipulação. Na minha experiência como embaixador, em Bruxelas, encontrei muitas dessas ONGs, algumas de renome internacional, com um nível de ignorância em relação ao Brasil realmente chocante. Diziam e dizem muita besteira. Os grandes lobbies sabem espalhar uns dinheirinhos, sabem plantar a informação, e isso é repercutido de uma forma extraordinária. Os representantes de algumas dessas ONGs trepam em arranha-céus, fazem pirotecnias que não há jornal que não reproduza. E há outras formas de agir, porque, em matéria de ciência, como em matéria de direito, você pode comprar um parecer pró e um parecer contra das maiores sumidades...

Mas há elementos consistentes em certos reparos e alertas que são formulados em relação ao uso de biocombustíveis, não?
Talvez pelo excesso de otimismo que a gente observou há alguns anos em matéria de biocombustíveis, está havendo, agora, uma reação proporcional, porque os lobbies tiveram tempo de se organizar e começar a manipular a opinião pública – eles são campeões nisso. Você vai dizer: mas é tudo inventado? Claro que não. Veja a luta que vem sendo, para o Brasil, separar o que se diz sobre o etanol de cana-de-açúcar produzido aqui da questão ligada à produção de etanol de milho nos EUA. Até mesmo um comissário das Nações Unidas, em cargo de altíssima responsabilidade, sai-se com uma série de bobagens sobre como o etanol de cana-de-açúcar prejudica a produção de alimentos, para depois ter de se desdizer vergonhosamente. Mas aí já disse, milhões de pessoas leram ou ouviram o bestialógico inicial, e a retratação é pouco divulgada. Agora, até o Obama também resolveu misturar cana-de-açúcar com Amazônia. É tão fácil manipular esses elementos de forte impacto emocional!

Tecnicamente, como se distinguem o etanol de cana e o etanol de milho?
A questão fundamental a ser discutida é o balanço energético. O etanol do milho tem um balanço energético absolutamente ridículo, na melhor das hipóteses é 1,3, ou seja, você gasta uma unidade de energia fóssil para produzir 1,3 de energia renovável. Em contraste, o balanço energético da cana-de-açúcar está em 8,5, nove, caminhando para dez, isto é, uma unidade de fóssil produz nove, dez unidades de energia renovável. Não há a menor dúvida de que o balanço é altamente favorável ao etanol de cana. Nós, na Brasil Ecodiesel, encomendamos um estudo a uma empresa européia, a Eco Securities, sobre o biodiesel produzido a partir de mamona, na Bahia, utilizando agricultura familiar, e o resultado já é 13,5. E se, em vez de metanol, usar o etanol, o balanço energético é de um para 40. O que é melhor para o planeta?

Há um consenso, porém, de que a produção de alimentos não pode ser afetada.
Esta questão é complexa. Passa pelos subsídios agrícolas dos países ricos, pelo forte aumento do consumo de alimentos nos países emergentes, pela disparada dos preços do petróleo e dos fertilizantes... Enfim, algo que não pode ter seu debate restringido, como se busca fazer, à questão da produção de biocombustíveis. As críticas ao etanol de milho, por exemplo, têm fundamentação. Mas depois que você mostra a diferença entre uma coisa e outra, os sábios do lado de lá levam a discussão para outro lugar. “Ah, está bem, o etanol de cana-de-açúcar é válido, mas cultivar na Amazônia não dá, porque vai gerar desmatamento. Ah, e tem trabalho escravo, a vida que o cortador de cana leva é um pavor...”. Ou seja, existem sempre elementos de crítica. Ninguém está dizendo que o etanol de cana-de-açúcar é uma panacéia, que é uma solução milagrosa para todos os problemas. Mas a distorção que é feita acaba contaminando todo o debate.

 

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