| Por que alguém que comanda uma
empresa familiar de sucesso resolve deixar a presidência
quando tem apenas 51 anos? Que sentido há na mudança,
quando o herdeiro que deixa a liderança executiva é
alguém que , em 18 anos de gestão, multiplicou por
38 o faturamento da companhia? É para entender as razões
do engenheiro e administrador Décio da Silva que AMANHÃ
esteve em Jaraguá do Sul, onde ele nasceu em 1956, cinco
anos antes de seu pai, Eggon João da Silva, e os sócios
Werner Ricardo Voigt e Geraldo Werninghaus juntarem suas iniciais
para fundar a Weg, hoje uma das cinco maiores fabricantes de motores
elétricos no mundo. “Eu achei que estava fazendo
mais do mesmo”, afirma Décio, agora presidente do
Conselho de Administração da Weg. Há uma
outra explicação para a mudança. Desde que
transmitiu o cargo de presidente executivo da Weg para o funcionário
de carreira Harry Schmelzer Jr., em setembro, Décio está
liberado para liderar um negócio que, nos próximos
anos, pode se tornar do tamanho da Weg, que faturou 4,5 bilhões
ano passado. É a Weg Participações, que administra
o patrimônio acumulado a partir dos dividendos que a companhia
paga às famílias dos três fundadores. “Ainda
estou num processo de adaptação a este desafio de
ver as coisas de um modo diferente, como investidor”, diz.
Como você pensou e levou a cabo o processo de
profissionalização do comando da Weg
A decisão de ter um modelo de gestão profissional
foi tomada aqui na Weg há muitos anos. Eu diria que foi
logo que a companhia começou a se estruturar, nos anos
70. O seu Egon, o seu Werner e seu Geraldo, que foram os três
fundadores (é daí que vêm as iniciais WEG),
fizeram um acordo: que a companhia iria ser gerida como uma empresa
de capital aberto – isso antes de ela abrir o seu capital...
Nesse modelo, eles já admitiam que em certos momentos de
sua história a Weg poderia ser administrada por pessoas
ligadas às famílias deles ou por alguém que
não tinha o sobrenome dos fundadores, como acontece agora,
com o Harry (Schmelzer Jr.).
Uma decisão ousada, na época.
Sim, completamente. Em 1970 eu tinha 9 anos, imagine... Foi depois
de um curso que o seu Egon foi fazer em São Paulo ou Rio...
Ele teve contato com um dos primeiros consultores brasileiros
de empresa familiar. E voltou com esta convicção
de que o nome dos dirigentes de uma empresa não importava
tanto quanto a capacidade, o conhecimento, a atitude e os princípios
que eles tivessem...
Era um acordo para mostrar que filhos e sobrinhos não
teriam vida fácil...
Sem dúvida. Neste protocolo, está escrito que os
filhos das três famílias seriam muito bem-vindos
dentro da organização, mas teriam que passar por
processo de recrutamento e seleção, e demonstrar
as competências e habilidades adequadas para cada cargo
que quisessem galgar. Foi nesse momento que começamos a
fazer o que lá nos anos 70 nós chamamos de encontros
de família. Vê esta foto? Aqui eu devia ter 16, 17
anos. Olha, como todo mundo estava lá, tinha até
criança de colo... Eram duas reuniões por ano, envolvendo
só as três famílias. Normalmente, vinha um
consultor de fora, um economista, um executivo da Weg... Ali se
passava a todos os familiares informações sobre
a companhia. Era uma forma de integrar as famílias e fazer
com que todos os acionistas recebessem informação
sobre a empresa. E também de de ir preparando todo mundo
para entender a diferença entre ter capital e ser gestor
da companhia, entre propriedade e gestão. Todo mundo ali
era proprietário de uma parcela da Weg. Gestor, não
se sabe. O que ficava claro, então, é que para adicional
valor à propriedade a gestão tinha de ser conduzida
da melhor maneira. Inclusive, naquele acordo que mencionei, os
três fundadores combinavam que não iriam influenciar
exageradamente a carreira dos filhos. Estimulariam, claro, uma
participação na companhia, mas sem fazer disso uma
obsessão.
Qual o papel da família numa empresa profissionalizada?
Olha, há empresas que são até radicais, assumem
acordos estabelecendo, por exemplo, que a partir desta ou daquela
geração não haverá mais nenhum familiar
na gestão... Acho uma decisão radical. Nós
entendemos que a família tem muito valor a agregar, desde
que conduza a gestão de uma maneira profissional.
Como a Gerdau e outras companhias de grande tradição
familiar?
Sim. A Gerdau segue uma filosofia semelhante. É inquestionável
que o executivo que entrou agora no comando do grupo Gerdau é
um profissional de extrema competência. Que bom quando se
consegue juntar o familiar e o profissional numa mesma solução.
Porque o familiar tem foco naquele negócio, está
ali, conhece a história da empresa e faz parte dela. É
aquilo: o olho do dono engorda o boi. Mas o olho do dono tem de
ser muito bom. Se for vesguinho não vai engordar coisa
alguma...
“Eu acredito na renovação.
Quando você fica muito tempo no mesmo cargo, corre um
risco grande. Vem aquele excesso de confiança: eu sei
tudo, já vi tudo..."
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A profissionalização tem raízes
no acordo entre os fundadores, mas coube a você estabelecer
um marco: entregar a presidência, pela primeira vez, a um
funcionário de carreira, sem ligação com
uma das três famílias. E não foi por uma situação
de crise, pois em quase 20 anos como presidente você multiplicou
o faturamento da Weg por 38. Como foi esta tomada de decisão?
Eu acredito muito, como toda a Weg, num processo de renovação.
Se você for ver historicamente, a Weg teve dois presidentes.
O Seu Egon, que ficou 47 anos, desde a fundação
em 1961, e eu, que fiquei 18 anos. Quando o Seu Egon passou o
cargo para mim, muita gente também achava que ele ainda
estava na plena vitalidade, física, mental e de experiência
para transmitir a presidência a um jovem de 33 anos. Por
aí você pode ver como é forte, aqui na Weg,
esta visão de longo prazo. De fato, na época o Seu
Egon estava na plenitude profissional. Por que, então,
ele decidiu encaminhar a sucessão, naquele momento? Porque
ele achava que tinha de renovar. Ele acreditava – como eu
também acredito – que quando a gente fica muito tempo
num mesmo cargo se corre um risco muito grande. Vem aquele excesso
de confiança: eu já sei tudo, eu já vi tudo...
Isso é natural no ser humano. E uma segunda motivação
que ele teve foi tentar ver a empresa sob um ângulo diferente.
A mudança faz muito bem para as organizações.
A mudança como um fim em si mesma?
Eu acho que há duas coisas que as empresas não podem
fazer. Uma: mudar sempre, que é o modelo, às vezes
meio exagerado, dos Estados Unidos, no qual há uma visão
de dois trimestres... Se não deu resultado,corta-se a cabeça
do presidente. Aí entra o novo presidente, que troca toda
a diretoria... Isso é um exagero. A empresa quase não
tem identidade. Não se dá nem tempo para firmar
uma relação entre funcionários, clientes,
fornecedores – todos os stakeholders. Outra coisa
inaceitável é não mudar nunca, é se
eternizar no cargo – por causa do risco que eu mencionei.
Vassoura nova varre bem. Depois de 18 anos na presidência,
achei que aquele era o limite para a empresa e para o meu ciclo
de vida.
O que deflagrou esta decisão? A sensação
de estar há muito tempo fazendo mais ou menos a mesma coisa?
A mesma coisa...Ali pelo 16º ano eu comecei a discutir com
o conselho e com os acionistas esta possibilidade.
Além do mais, eu tinha de ocupar a Weg Participações,
que é a empresa holding das três famílias.
Essa empresa, além de ter o controle da Weg, com 51% do
capital, possui carteira de ações, imóveis,
detêm 5% de participação na Perdigão
– uma série de investimentos. Ela recebe os dividendos
da Weg e dos outros negócios, e com estes recursos é
preciso pensar em fazer novas coisas, investir em outros negócios,
uma nova fase. Bom, eu achei que estava fazendo mais do mesmo.
E pensei: “Vou deixar outro fazer diferente e fazer melhor.
E vou me ocupar de outras coisas.“ Eu tenho paixão
pela Weg. E quando a gente gosta muito de algo ou alguém,
a gente quer o melhor, é a maneira mais inteligente de
gostar. E eu acho que, para a Weg, o melhor era fazer a mudança
neste momento.
Como foi conduzido este processo até ser escolhido
o novo presidente e consumada a troca de comando?
Durante dois anos tivemos a participação de três
empresas de consultoria daqui do Brasil, duas delas de forma muito
ativa. Nos momentos decisivos, tivemos a participação
dos fundadores, por que se tratava de uma decisão altamente
estratégica. Mas, desde o primeiro momento, este processo
teve a coordenação do Conselho de Administração,
presidido pelo Nildemar Secches, nosso parceiro da Perdigão.
O Seu Baumer, vice-presidente do Conselho, também teve
um papel importante. Antes da virada, mexemos na estrutura diretiva
da companhia para esta nova fase da Weg. Há uns 7, 8 anos,
ao perceber que a Weg era cada vez mais forte lá fora,
eu havia dividido o mundo em três partes e criado três
diretores internacionais: um diretor para América, um diretor
para a Ásia e um diretor para Europa. Só que esses
diretores viviam aqui em Jaraguá do Sul, e viajavam para
lá. Isso mudou. Hoje, a sede do diretor da Ásia
é em Shangai. A sede do diretor da América do Norte
é em Atlanta. E a sede do diretor da Europa é momentaneamente
em Portugal. Também decidimos que a Weg devia voltar a
ter um vice-presidente, como ocorria antes da minha gestão.
E foi escolhido o Sérgio Schwartz, que é membro
da família (é casado com a Miriam, filha do sr.
Werner). É a este vice-presidente que os três diretores
internacionais respondem. E uma terceira mudança foi a
decisão de concentrar os negócios em três
unidades principais: energia, automação e motores.
A escolha do novo presidente envolveu candidatos de
dentro e de fora da família?
Da família e de fora da família. Todos foram avaliados,
ao longo de dois anos. Os atributos técnicos de cada um
foram examinados, claro, mas isso é o mínimo...
Quem não tem condição técnica nem
participa do processo. Mais do que competência técnica,
é preciso querer ser. Querer muito ser... Também
vemos como fundamental a liderança do profissional diante
dos seus pares. Nós valorizamos muito a equipe aqui na
Weg. Este é um fator extremamente relevante.
E os talentos que chegaram à ponta do funil mas
não foram escolhidos: como gerar oportunidades para eles?
Crescendo. E eu acho que uma das grandes conquistas da Weg, até
hoje, e que permitiu a ela manter sempre uma boa equipe, é
conseguir sustentar uma alta taxa de crescimento. Durante minha
passagem pela presidência, nós abrimos dezoito filiais
no exterior, com novos diretores. Claro, alguns foram recrutados
do mercado internacional, mas metade é gente de casa, que
fez carreira aqui. Hoje, temos mais de 60 profissionais morando
fora do Brasil. Então, as oportunidades se abriram. E veja
que tomou posse um novo presidente, foi recriado o cargo de vice-presidente,
e até agora eles não trocaram ninguém. Essa
é outra característica da cultura de nossa organização
– de não sair trocando diretores “porque estes
não são de confiança”. Não é
assim. Claro, vai ter um processo natural de trocas, aqui e ali,
mas não será uma troca de equipe, e sim uma mudança
de posições em uma equipe que estava jogando junto
o tempo todo. Não se espere uma descontinuidade na Weg.
A empresa é um processo contínuo, ela faz a renovação
um pouco a cada dia, e a mudança vai aparecendo devagarzinho.
Um presidente não muda tudo de uma vez, porque o plano
não é do presidente, é da companhia. Claro
que a implementação vai trazer a pitada, o estilo,
do presidente. Mas, no básico, as coisas são feitas
em conjunto.
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