O olhar do investidor
Uma questão que literalmente vale milhões
de reais é: o que seduz um investidor e o convence a bancar um
plano de negócio? Demonstrar que há um mercado em crescimento,
mas mal atendido ou carente de soluções inovadoras é
um bom começo. Isso só terá efeito, contudo, caso
o business plan ofereça uma solução viável
e lucrativa para transformar essa lacuna em uma oportunidade. Uma vez
verificada a viabilidade da alternativa proposta, o olhar clínico
do investidor se dirige para uma questão muito prática.
Ele quer saber se a equipe envolvida no negócio está preparada
para executar aquele plano – eis o outro pilar sobre o qual deve
se sustentar um bom business plan.
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| Magadan, da Ventos do Sul: aproveitar a expertise
dos sócios investidores é fundamental |
Pesa, aí, o grau de experiência das pessoas
que estarão capitaneando o projeto. “A equipe envolvida
com a elaboração do business plan tem de ser
composta por no mínimo três funções”,
aponta Alexandre Malucelli. Na fórmula considerada ideal pelo
executivo, há um grupo responsável pelas definições
estratégicas: qual será o foco do negócio, quais
as metas de crescimento a serem atingidas e demais variáveis.
Outra equipe cuida da parte formal, reunindo advogados que analisam
com lupa todos os aspectos legais que envolvem o negócio direta
ou indiretamente. Por fim, o elenco se completa com um time hábil
o suficiente para estruturar a parte econômico-financeira –
é justamente aí que muitos planos de negócio aparentemente
promissores são descartados por potenciais investidores.
“Ao analisar a viabilidade econômica do
negócio, o investidor quer ter certeza de que não perderá
de vista o dinheiro aplicado”, afirma Dornelas. Malucelli considera
“desestimulante” para um investidor a constatação
de que o plano que lhe foi apresentado peca justamente na modelagem
financeira. “Com a economia globalizada, existem muitas possibilidades
de investimentos. Esse é o ponto crucial na avaliação
inicial por parte do investidor.”
Risco zero é impossível em qualquer negócio.
Mas do ponto de vista do investidor, um plano realista praticamente
anulará a possibilidade de um retumbante fracasso. Para André
Burger, um dos sócios da Fama Private Equity, um business
plan se impõe por seu realismo, aliado a uma boa estruturação
financeira. “As maiores falhas nos planos de negócios estão
relacionadas à parte financeira, ao dimensionamento do mercado
e das necessidades de capital”, critica Burger, ex-diretor da
CRP Participações, um dos mais tradicionais fundos de
investimento do Brasil.
Quando a oportunidade está claramente delineada,
torna-se possível conseguir não só o aporte financeiro
como também a expertise do investidor. A Ventos do Sul procurou
trazer para o negócio grupos que poderiam agregar experiência
à execução da idéia. “O realismo nesse
processo é muito importante, para que não se crie uma
fantasia, algo que não irá avançar”, reforça
Magadan. No caso da Ventos do Sul, o realismo em questão envolvia
a participação de um parceiro com a experiência
do grupo Eleknor, que já operou a implantação de
mais 1,5 mil megawatts na Europa. O executivo lembra que a Eletrobrás
habilitou, no programa de incentivo a fontes alternativas de energia,
um total de 1,4 mil megawatts. Desse valor, apenas 200 megawatts saíram
do papel, dos quais 150 pela Ventos do Sul. “Os demais 1,2 mil
megawatts não se concretizaram e as empresas tinham os mesmos
contratos que nós temos e os mesmos ventos, inclusive. Por que
não aconteceu? Por que nós conseguimos? Esta é
a questão”, provoca Magadan. A resposta, ele mesmo dá:
o realismo do business plan.
Um
torneio de bons projetos
A grande chance de chamar a atenção de investidores
ou conseguir, no mínimo, uma boa avaliação sobre
um business plan é participar do Latin Moot Corp,
promovido anualmente em São Paulo pela Fundação
Getúlio Vargas. É uma competição que
envolve universidades de toda a América Latina e, além
de render um prêmio em dinheiro, classifica o vencedor para
a instância mundial da disputa, nos Estados Unidos.
O diretor do Latin Moot Corp, René Fernandes, já
viu os mais diferentes tipos de planos de negócios e percebe
que as falhas que levam à eliminação dos candidatos
se repetem. Alguns erros clássicos: não trazer um time
gerencial com capacidade para conduzir o projeto, apresentar custos
subestimados e receitas superestimadas, carência de informações
mercadológicas e excessiva autoconfiança. “A
inovação, por exemplo, pode ser em processo, em produto
ou na gestão. Mas quando não tem nenhuma fumaça,
nenhum cheiro de boas inovações, o projeto é
um dos primeiros a ser excluído do concurso, por lhe faltar
a capacidade de se diferenciar do que já existe no mercado”,
ressalta Fernandes.
Testar o conceito do produto ou serviço na competição
pode render bons resultados, especialmente para quem sai vencedor
do concurso. Foi o que aconteceu com Rodrigo Veloso, campeão
do Latin Moot Corp de 2005. Após ganhar a etapa latina, obteve
o credenciamento para a disputa na instância internacional,
no Texas. Embora não tenha conseguido destaque por lá,
investidores norte-americanos se interessaram pela idéia.
Hoje, com menos de um ano de existência, a empresa de Veloso
está chegando à casa dos US$ 2 milhões em exportação
de água de coco para os Estados Unidos.
O plano de Veloso consistiu em inovar na maneira como o produto
seria comercializado. Antes, a água de coco era vendida no
mercado norte-americano como um produto étnico, voltado para
latinos e hispânicos. Mas ele percebeu que as características
da bebida eram similares ou até mesmo superiores às
das bebidas isotônicas.
Na esteira da tendência norte-americana de consumir produtos
naturais, a One Natural Experience está indo de vento em popa:
a água de coco já é distribuída em uma
cadeia de supermercados, competindo diretamente com os produtos isotônicos
e não mais com os produtos étnicos.
Crescimento é uma palavra-chave em qualquer business
plan, na opinião de Veloso. Segundo o jovem empresário,
a execução de um plano no qual não existe a
preocupação com o crescimento ou com a conquista permanente
de novos negócios acabará resultando em um projeto
que terá duração fugaz. “Não tenho
dúvida em afirmar que nenhum investidor se interessará
pela execução de um business plan que não
se mostre capaz de gerar retorno financeiro no curto, no médio
ou no longo prazo”, sustenta.

Veloso e sua One Natural Experience: água
de coco brasileira
competindo com os isotônicos nos EUA |
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