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      Edição 242 - Maio de 2008
 

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O olhar do investidor

Uma questão que literalmente vale milhões de reais é: o que seduz um investidor e o convence a bancar um plano de negócio? Demonstrar que há um mercado em crescimento, mas mal atendido ou carente de soluções inovadoras é um bom começo. Isso só terá efeito, contudo, caso o business plan ofereça uma solução viável e lucrativa para transformar essa lacuna em uma oportunidade. Uma vez verificada a viabilidade da alternativa proposta, o olhar clínico do investidor se dirige para uma questão muito prática. Ele quer saber se a equipe envolvida no negócio está preparada para executar aquele plano – eis o outro pilar sobre o qual deve se sustentar um bom business plan.

Magadan, da Ventos do Sul: aproveitar a expertise dos sócios investidores é fundamental

Pesa, aí, o grau de experiência das pessoas que estarão capitaneando o projeto. “A equipe envolvida com a elaboração do business plan tem de ser composta por no mínimo três funções”, aponta Alexandre Malucelli. Na fórmula considerada ideal pelo executivo, há um grupo responsável pelas definições estratégicas: qual será o foco do negócio, quais as metas de crescimento a serem atingidas e demais variáveis. Outra equipe cuida da parte formal, reunindo advogados que analisam com lupa todos os aspectos legais que envolvem o negócio direta ou indiretamente. Por fim, o elenco se completa com um time hábil o suficiente para estruturar a parte econômico-financeira – é justamente aí que muitos planos de negócio aparentemente promissores são descartados por potenciais investidores.

“Ao analisar a viabilidade econômica do negócio, o investidor quer ter certeza de que não perderá de vista o dinheiro aplicado”, afirma Dornelas. Malucelli considera “desestimulante” para um investidor a constatação de que o plano que lhe foi apresentado peca justamente na modelagem financeira. “Com a economia globalizada, existem muitas possibilidades de investimentos. Esse é o ponto crucial na avaliação inicial por parte do investidor.”

Risco zero é impossível em qualquer negócio. Mas do ponto de vista do investidor, um plano realista praticamente anulará a possibilidade de um retumbante fracasso. Para André Burger, um dos sócios da Fama Private Equity, um business plan se impõe por seu realismo, aliado a uma boa estruturação financeira. “As maiores falhas nos planos de negócios estão relacionadas à parte financeira, ao dimensionamento do mercado e das necessidades de capital”, critica Burger, ex-diretor da CRP Participações, um dos mais tradicionais fundos de investimento do Brasil.

Quando a oportunidade está claramente delineada, torna-se possível conseguir não só o aporte financeiro como também a expertise do investidor. A Ventos do Sul procurou trazer para o negócio grupos que poderiam agregar experiência à execução da idéia. “O realismo nesse processo é muito importante, para que não se crie uma fantasia, algo que não irá avançar”, reforça Magadan. No caso da Ventos do Sul, o realismo em questão envolvia a participação de um parceiro com a experiência do grupo Eleknor, que já operou a implantação de mais 1,5 mil megawatts na Europa. O executivo lembra que a Eletrobrás habilitou, no programa de incentivo a fontes alternativas de energia, um total de 1,4 mil megawatts. Desse valor, apenas 200 megawatts saíram do papel, dos quais 150 pela Ventos do Sul. “Os demais 1,2 mil megawatts não se concretizaram e as empresas tinham os mesmos contratos que nós temos e os mesmos ventos, inclusive. Por que não aconteceu? Por que nós conseguimos? Esta é a questão”, provoca Magadan. A resposta, ele mesmo dá: o realismo do business plan.

 

Um torneio de bons projetos

A grande chance de chamar a atenção de investidores ou conseguir, no mínimo, uma boa avaliação sobre um business plan é participar do Latin Moot Corp, promovido anualmente em São Paulo pela Fundação Getúlio Vargas. É uma competição que envolve universidades de toda a América Latina e, além de render um prêmio em dinheiro, classifica o vencedor para a instância mundial da disputa, nos Estados Unidos.

O diretor do Latin Moot Corp, René Fernandes, já viu os mais diferentes tipos de planos de negócios e percebe que as falhas que levam à eliminação dos candidatos se repetem. Alguns erros clássicos: não trazer um time gerencial com capacidade para conduzir o projeto, apresentar custos subestimados e receitas superestimadas, carência de informações mercadológicas e excessiva autoconfiança. “A inovação, por exemplo, pode ser em processo, em produto ou na gestão. Mas quando não tem nenhuma fumaça, nenhum cheiro de boas inovações, o projeto é um dos primeiros a ser excluído do concurso, por lhe faltar a capacidade de se diferenciar do que já existe no mercado”, ressalta Fernandes.

Testar o conceito do produto ou serviço na competição pode render bons resultados, especialmente para quem sai vencedor do concurso. Foi o que aconteceu com Rodrigo Veloso, campeão do Latin Moot Corp de 2005. Após ganhar a etapa latina, obteve o credenciamento para a disputa na instância internacional, no Texas. Embora não tenha conseguido destaque por lá, investidores norte-americanos se interessaram pela idéia. Hoje, com menos de um ano de existência, a empresa de Veloso está chegando à casa dos US$ 2 milhões em exportação de água de coco para os Estados Unidos.

O plano de Veloso consistiu em inovar na maneira como o produto seria comercializado. Antes, a água de coco era vendida no mercado norte-americano como um produto étnico, voltado para latinos e hispânicos. Mas ele percebeu que as características da bebida eram similares ou até mesmo superiores às das bebidas isotônicas.

Na esteira da tendência norte-americana de consumir produtos naturais, a One Natural Experience está indo de vento em popa: a água de coco já é distribuída em uma cadeia de supermercados, competindo diretamente com os produtos isotônicos e não mais com os produtos étnicos.

Crescimento é uma palavra-chave em qualquer business plan, na opinião de Veloso. Segundo o jovem empresário, a execução de um plano no qual não existe a preocupação com o crescimento ou com a conquista permanente de novos negócios acabará resultando em um projeto que terá duração fugaz. “Não tenho dúvida em afirmar que nenhum investidor se interessará pela execução de um business plan que não se mostre capaz de gerar retorno financeiro no curto, no médio ou no longo prazo”, sustenta.

Veloso e sua One Natural Experience: água de coco brasileira
competindo com os isotônicos nos EUA

 

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