| No Estado de São Paulo, quase um terço
das empresas fecham as portas antes de completar o primeiro ano. Segundo
dados coletados pelo observatório de pequenas empresas do Sebrae-SP,
a principal causa para essa quebradeira é a falta de um planejamento
prévio – aquilo que tecnicamente os especialistas chamam
de business plan, ou plano de negócio. Conclusão:
o business plan é um ótimo começo para
qualquer negócio, certo? Nem sempre. Se não for feito
baseado em estudos, pesquisas e testes, o business plan pode
se transformar num mero documento sem serventia, condenado a ficar esquecido
no fundo de uma gaveta. Ou, dependendo da magnitude dos equívocos,
o plano de negócios pode conduzir ao fracasso do empreendimento
e à perda do capital investido.
Quando um empreendedor identifica uma oportunidade de negócios,
surge a necessidade de colocar a idéia no papel. Esse documento,
que pode ter algumas poucas folhas ou ser um calhamaço, é
o business plan. É por ele que deve começar,
e porventura terminar, o sonho de qualquer novo empreendimento. É
o documento que dará cara de negócio àquilo que,
até então, não passa de uma idéia. Não
existe um caminho único para se construir um sólido plano
de negócios. Mas, ao consultar um time de especialistas no assunto,
AMANHÃ identificou que os erros cometidos durante esse processo
se aplicam à maioria dos casos – e compõem uma espécie
de manual do que não se deve fazer.
Autor do livro Planos de Negócios Que Dão Certo,
o professor José Dornelas faz uma boa síntese desse antimanual.
Os erros cruciais são três, segundo ele. “O primeiro
erro é você contar com pessoas que não entendem
de implementação de negócios, porque nesse caso
não adianta ter um plano perfeito”, afirma Dornelas. “O
segundo erro é começar a implementação de
um plano que já está desatualizado.” E a terceira
mancada, arremata, é colocar em prática um plano malfeito,
com premissas inadequadas para a realidade do mercado.
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Ingredientes
que fazem diferença |
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Um business
plan bem-feito deve:
• Ter foco. Não mirar
objetivos e interesses difusos, amplos demais. A estratégia
do negócio precisa estar bem definida;
• Ser analisado com frieza por
pessoas que não estejam envolvidas com a concepção
do plano;
• Evitar o superdimensionamento
do negócio, tomando o cuidado para não estimar o mercado
acima do tamanho que realmente tem. É mais fácil tomar
medidas para crescer do que para encolher. Então, é
interessante iniciar o negócio sendo mais realista ou até
conservador;
• Levantar alternativas de fornecedores,
além daqueles avaliados inicialmente como os principais;
• Fugir ao erro de planejar
o empreendimento baseado na demanda de um ou dois grandes clientes;
• Projetar os possíveis
cenários: um conservador, um realista e um otimista;
• Considerar as questões
locais, nacionais e internacionais que poderão, de alguma
maneira, causar impacto no empreendimento;
• Prever um plano de contingência
capaz de apontar saídas emergenciais.
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As premissas, eis a questão. Ninguém deve investir capital
em um negócio novo sem antes responder a questões elementares.
Algumas delas: quanto será necessário investir? Em quanto
tempo o investimento dará retorno? Quais riscos o empreendedor
está correndo? Quais são os pontos fortes e as fraquezas
do projeto?
E, antes de pensar em gastar uma fortuna com a contratação
de experts que vão dar essas respostas iniciais, uma boa notícia:
não há ninguém melhor do que o próprio empreendedor
para ir a campo e suar a camisa na caça a essas informações.
“Não adianta pensar que basta contratar um profissional
para fazer um plano maravilhoso, todo encadernadinho. Muito esforço
e transpiração vão fazer com que o empreendedor
aprenda, porque tem coisas que só se enxerga quando se vive a
realidade. Ter uma orientação é importante, mas
fazer o plano e vivenciar a situação é papel do
empreendedor”, cobra Sérgio Diniz, consultor do Sebrae-SP.
Em linha com essa visão, Dornelas sustenta que os consultores
devem entrar em cena somente em um segundo momento. “Especialistas
podem ajudar. Geralmente, essas pessoas são mais críticas,
porque têm uma visão externa. Não é nem pelo
conhecimento, porque o empreendedor é quem deve conhecer o próprio
negócio mais do que ninguém, mas essa visão crítica
é importante para ajudá-lo a perceber se ele está
esquecendo alguma premissa importante na avaliação do
empreendimento”, analisa. Talvez a maior contribuição
de uma consultoria seja oferecer uma visão racional sobre o projeto.
“O idealizador do negócio pode forçar a barra no
próprio plano. Infelizmente, mesmo fazendo o business plan,
alguns tendem a um otimismo exagerado, o que é natural para o
empreendedor. Afinal, ele está apaixonado pela idéia”,
diz Dornelas.
Para evitar a criação de um plano delirante, é
preciso seguir alguns passos fundamentais. O primeiro deles é
buscar informações, pesquisar muito – a partir daquelas
fontes que estão acessíveis. Vasculhar a internet, conferir
feiras e publicações são providências simples
capazes de trazer um conhecimento mais sólido sobre o mercado
que o produto ou serviço pretende atingir. Ir a campo é
o segundo passo, que é tão ou mais importante que o primeiro
e se desdobra em várias etapas. Visitar a concorrência,
por exemplo, ajudará a conhecer melhor o perfil da futura clientela.
Ao descobrir lacunas no serviço prestado pelo concorrente, o
empreendedor poderá estabelecer com mais clareza diferenciais
em relação ao que já existe no mercado. Conversar
com fornecedores também é uma ótima pedida, pois
eles possuem um grande conhecimento sobre o negócio e podem dar
dicas muito úteis para eliminar os aspectos mais subjetivos do
plano. A partir desse embasamento, o empreendedor poderá validar
– ou derrubar – as premissas que havia estabelecido originalmente.
“A cadeia de fornecimento é motivo de problemas freqüentes”,
detecta Diniz, do Sebrae paulista. “Eu abro o negócio e
vou procurar o fornecedor. Só que ele me diz que minha primeira
compra precisa ser à vista e deve ter uma quantidade mínima.
E isso eu deveria saber antes de executar o plano”, exemplifica.
No extremo oposto da cadeia, onde está sua majestade, o cliente,
há uma armadilha muito comum para empreendedores novatos. “Não
dá para começar um negócio imaginando, por exemplo,
vender para um único cliente. Alguém que responda por
metade das compras pode colocar a empresa em uma situação
vulnerável”. Caso aconteça uma inadimplência,
ela quebra, pois não tem fluxo de caixa suficiente para enfrentar
uma situação de inadimplência desse porte.
Embora surpresas sempre possam ocorrer, o plano de negócios
existe justamente para tentar preveni-las. Para isso, existem os planos
de contingência. Imagine um negócio baseado em importação,
por exemplo. Se o dólar está baixo e por qualquer motivo
vier a explodir, o empreendedor já deveria ter em mãos
uma estratégia previamente elaborada para enfrentar a nova situação.
“Se estiver abrindo uma loja de perfumes importados, a valorização
do dólar poderá impactar o negócio. Com um plano
B já pronto, caso isso aconteça, será possível,
por exemplo, oferecer ao público uma alternativa de produto nacional”,
aconselha Diniz
Plano para dez anos
Ao contrário do que muita gente pensa, o business plan
não é um documento que serve apenas para a estruturação
inicial do negócio. Empresas e operações que já
estão estabelecidas no mercado também seguem planos de
negócios, que são revisados periodicamente. “O
business plan é algo dinâmico. É nele que traçamos
e monitoramos os objetivos, o tempo que se vai levar para atingir um
objetivo. É ali que consideramos todos os obstáculos a
serem transpostos e todas as relações que envolvem o negócio”,
diz Telmo Magadan, presidente da Ventos do Sul Energia, administradora
do Parque Eólico de Osório, um dos maiores do mundo. O
processo de realimentação, de feedback, é fundamental.
Por isso, o plano deve ser permanentemente ajustado”, assinala
Magadan.
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| Alexandre Malucelli: plano com horizonte de
longo prazo, mas submetido a constantes mudanças |
Ajustar com freqüência o business plan não
significa que se deva trabalhar com ênfase apenas em visões
de curto prazo. Ao contrário: embora submetido a mudanças
constantes, o plano deve ter, desde sua concepção, um
horizonte de longo prazo. “Em primeiro lugar, um business
plan deve considerar um horizonte de dez anos”, aconselha
Alexandre Malucelli, presidente da J. Malucelli Seguradora, do Paraná.
Futurologia? Malucelli admite que sim. “Prever alguma coisa em
qualquer lugar do mundo já é difícil; no Brasil,
é ainda pior”, diz. Por isso mesmo é que a seguradora,
integrante do grupo J. Malucelli, revisa invariavelmente suas projeções
e expectativas – mesmo já tendo a expertise de quem atua
há 18 anos nesse segmento. “Estamos em constante alerta.
Neste momento, pensamos em uma grande mudança no fluxo operacional”,
antecipa o executivo.
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