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Diante da desvalorização do dólar
ante as outras moedas, e particularmente o real, o que o empresário
pode e o que não pode esperar do governo?
Diante da desvalorização do dólar, a expectativa
que o empresário, e qualquer um, deve ter em relação
ao governo brasileiro é que pouco pode ser feito. Há
15 dias uma ação comandada pelo Banco Central norte-americano
injetou no sistema financeiro 200 bilhões de dólares.
Na semana passada, eles colocaram mais 400 bilhões de dólares
- sem nenhum efeito. Hoje (17 de março), os jornais dão
a informação da compra do Banco Bear Stearns por
260 milhões de dólares, mais 20 bilhões de
dólares para serem pagos em 20 anos, em um processo de
alongamento de dívida. Você imaginaria um banco norte-americano
como o Bear Stearns, que em 84 anos nunca tinha tido prejuízo,
ser vendido por apenas 260 milhões de dólares? É
uma coisa incrível. Agora, há instantes, os mercados
estavam caindo 30%. Então, dificilmente o governo brasileiro
poderá fazer alguma coisa em relação ao dólar.
Quem poderia fazer alguma coisa em relação ao dólar
seria o governo americano, mas não está conseguindo
fazer nada. A economia americana, com toda a sua fragilidade,
é que levou a essa situação.
Neste cenário, qual a margem de ação
do governo brasileiro?
O que nós, do governo, temos que fazer, é tomar
as medidas que estamos discutindo aqui. É dar condições
ao empresário para que ele seja mais produtivo, mais competitivo,
capaz de produzir com mais qualidade. Ao retirar impostos dos
investimentos produtivos, o governo já estará ajudando
o empresário, já estará transformando - teoricamente
- o dólar de R$ 1,70 em um dólar de R$ 1,90. O nosso
objetivo é possibilitar ao empresário uma redução
de custo - tanto custos de produção quanto - e principalmente
- de investimento. Por outro lado, é aquela história:
em qualquer disputa, sempre há um perdedor e e um ganhador.
O fato de o dólar estar derretendo permitiu que grande
parte das empresas brasileiras tenha se modernizado e reduzido
custos. Setenta por cento das nossas importações
são de máquinas e equipamentos, matérias-primas
e insumos, que entram a custo mais baixo.
O que mudou na sua visão sobre o papel do governo
depois de deixar o setor privado e assumir uma função
pública?
Descobri que o governo pode ajudar muito. E que a primeira forma
pela qual o governo pode ajudar é não atrapalhando.
A segunda forma de o governo ajudar é tomar a iniciativa.
Não deveria ser necessário que o empresário
fosse ao ministério do Desenvolvimento para explicar que
tais e tais medidas ajudariam a indústria nacional a ser
mais eficiente e competitiva. Deve partir do próprio governo
essa iniciativa de procurar onde estão os problemas que
atravancam o sucesso da indústria. O governo tem que procurar
o empresário e dizer "Olha, tal imposto será
retirado a partir de agora", e não esperar que o empresário
venha até o governo e fique pressionando para retirar este
ou aquele entrave à competitividade. Acho que estamos tentando
mudar esse processo, tomar a iniciativa.
A diplomacia comercial brasileira não precisa
melhorar sua articulação com o setor privado?
Temos de melhorar muito. Mas, ainda assim, acho que está
bastante estruturada. Foi importante a estratégia do presidente
Lula de diversificar mercados e reduzir nossa dependência
do mercado norte-americano. A participação dos Estados
Unidos nas nossas exportações, que era de quase
25%, hoje está em 16%. E não se trata de afirmar,
como fazem algumas pessoas, que deixamos de vender para lá.
Ao contrário: estamos vendendo para os Estados Unidos mais
do que vendíamos há cinco anos. O que acontece é
que regiões como América do Sul, África e
Oriente Médio passaram a ter uma importância muito
maior. Abriram-se muito mais possibilidades de exportação
para o empresário brasileiro. As missões comerciais
que o Brasil tem realizado aumentaram, com o envolvimento direto
do presidente da República. Fico abismado com as críticas
feitas ao presidente quando ele viaja pelo mundo para vender os
produtos brasileiros. Quando eu estava na Volkswagen, e o setor
discutia com o governo as condições para a criação
do carro popular, o Itamar me contou, e não pediu segredo.
"Miguel, vou te dizer uma coisa: ontem, o presidente Clinton
me ligou para defender os interesses da Raytheon, no caso do Sivam.
Ele me disse: ´Presidente, gostaria que o projeto da Raytheon
fosse aprovado porque isso significa 30 mil empregos nos Estados
Unidos.´" Clinton ligou duas vezes. E estava certo.
Esse é o papel do presidente. É defender o povo
dele, defender os empregos no país dele. Quando o presidente
Lula vai para um país e chega lá acompanhado de
um grupo de 40, 50, 80, 100 empresários, ele tem que vender
o país mesmo. E ele faz isso com muita competência.
O senhor mencionou a preocupação de capacitar
as empresas brasileiras a se defender de práticas abusivas
ou desleais de comércio. O setor privado está despreparado?
Este é um ponto interessante. A Secretaria de Comércio
Exterior do governo está começando um trabalho com
a Câmara Americana de Comércio, e vamos estender
esta experiência a outras câmaras, para que as informações
sobre defesa comercial chegem às empresas. Nós percebemos
claramente a falta de informação no âmbito
das empresas, o que é reflexo, penso, da falta de uma cultura
exportadora no Brasil. Este processo começou há
muito pouco tempo, dez, quize anos atrás... E, de outra
parte, a economia brasileira era fechada, protegida. As empresas
não estavam expostas à competição
internacional. Naquele contexto, boa parte das empresas estava
mais preocupada em sobreviver. Afinal, tivemos oito planos e seis
moedas em apenas 20 anos. A ordem era resistir. E o empresário
brasileiro se revelou um herói. Mais recentemente, ele
passa a olhar para fora, e aí é preciso se capacitar.
Fui ao Amazonas no ano passado e, num encontro na federação
de indústrias local, ouvi de vários setores a queixa
de que estavam sendo atingidos pela China. Eu perguntei a um dos
empresários: "Se é assim, porque você
não entrou com uma medida anti-dumping?" Ele não
sabia. Nós estamos estamos colocando a Secex, os departamentos
de proteção e defesa comercial, à disposição
das federações para dar palestras que orientem os
empresários sobre o que deve ser feito. A Fiesp está
preparada, assim como a Fiep, a Fiergs, a Fiesc... Mas há
federações de indústrias que não estão...
Outra coisa: mesmo no âmbito de São Paulo, é
preciso considerar que a maioria das empresas não está
filiada à Fiesp, e isso se aplica também à
Federações mais avançadas, como Fiesc, Fiep
e Fiergs... As informações, portanto, não
chegam a todas as empresas. E esta média empresa que não
está filiada ao sistema estadual e sofre com a concorrência
predatória de um exportador, não sabe como pode
ingressar com uma ação anti-dumping. E, mesmo que
saiba, precisará de um apoio jurídico. Por isso
estamos fazendo este trabalho com as federações.
Para dar à empresa média condições
de se defender de uma prática de comércio danosa,
que a esteja forçando a sair do mercado. Nesse sentido,
fizemos uma mudança importante. Retiramos do Rio a área
de defesa comercial, que estava ali havia muitos anos, e centralizamos
tudo em Brasília para podermos acompanhar de perto este
processo que, entre outras coisas, envolve medidas anti-dumping
não apenas contra China, mas também contra empresas
dos Estados Unidos, da Inglaterra...
Um aspecto crítico para a competitividade das
empresas brasileiras é a infra-estrutura. É possível
contar, ainda, com as parcerias público-privadas para financiar
a infra-estrutura?
Nesse momento, sou mais favorável a operar com concessões
e não com parcerias público-privadas. Porque as
concessões são a maneira mais fácil e rápida
de você trabalhar na restauração e na reconstrução
da infra-estrutura. Tanto que, no último ano, o Conselho
Nacional de Desestatização, que eu, como ministro,
presido, assinou dezenas de concessões de estradas. Isso
é mais rápido que PPP. Porque a PPP parece mais
complexa. Tanto que até hoje não saiu. A concessão
deixa a regra mais clara. Você sabe que vai operar um determinado
trecho rodoviário, por exemplo, ou um porto, ou coisa parecida,
durante um determinado período, pagando tanto e tendo que
fazer tais coisas. E não tem muita discussão sobre
isso. Então você vai para o leilão, com regras
muito claras... As concessões são um sucesso. Veja:
em São Paulo, há poucas semanas, um consórcio
ganhou a concessão de um trecho do anel rodoviário
com pedágio de pouco mais de um real. Um pedágio
muito barato, estabelecido após uma grande disputa que
envolveu cinco grandes grupos internacionais, inclusive, portugueses,
espanhóis... Esta é a vantagem das concessões.
O modelo já está desenhado e o país tem uma
experiência acumulada nisso. Temos concessões desde
o século XIX. Concessões são três regrinhas
e pronto. Por tudo isso, eu apostaria mais nelas do que no modelo
das PPPs.
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“Você não faz uma
empresa competitiva à base de subsídios e redução
salarial. Você faz com investimento tecnológico,
explorando nichos, agregando valor. Este é o caminho”
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Até onde pode chegar o impacto da crise do sistema
financeiro norte-americano no Brasil?
A crise no sistema financeiro dos Estados Unidos é grave,
e tudo indica que ainda não se manifestou completamente.
Mesmo assim, já produz efeitos bastante negativos sobre
a economia norte-americana, como apontam os muitos dados que indicam
uma acentuada desaceleração do ritmo da atividade
econômica. Por representar um terço do PIB mundial,
esta diminuição inevitavelmente se refletirá
sobre todas economias do planeta. Mas é importante observar
que as economias dos países emergentes, entre elas a do
Brasil, estão muito mais bem preparadas para enfrentar
este fenômeno. Elas passam por fortes ciclos de crescimento.
Além disso, apresentam fundamentos muito mais sólidos
do que possuíam nas crises econômicos globais que
varreram o planeta nos anos 90. O Brasil, por exemplo, apresenta
um equilíbrio macro-econômico que nos dá tranqüilidade
para enfrentarmos a crise que começou nos Estados Unidos.
Ingressamos num ciclo de crescimento sustentado, com a inflação
sob controle, equilíbrio fiscal, e aumento expressivo e
constante do emprego formal, da renda e do crédito. Ao
mesmo tempo, diminuímos exponencialmente nossa vulnerabilidade
externa, que quase quebrara o País ma década passada.
Estamos com reservas cambiais próximas ao equivalente a
US$ 200 bilhões e com quase nenhum pedaço da dívida
mobiliária federal indexada à variação
cambial. Além disso, o sistema de câmbio flutuante
adotado pelo Brasil é o mais adequado nos momentos de crises
globais.
O crescimento do crédito, que hoje atinge níveis
inéditos na história do país, pode gerar
um boom de inadimplência e ameaçar a sustentabilidade
do crescimento?
Não acredito que, em um cenário de médio
e longo prazos, o crescimento do crédito comprometa a sustentabilidade
do crescimento econômico brasileiro. Os dados do Banco Central
e os balanços dos bancos brasileiros refletem uma situação
de invejável solidez do sistema financeiro nacional, que
é baseada, entre diversos fundamentos positivos, pela reduzida
inadimplência. E tudo indica que este quadro deve perdurar
por muito tempo.O aumento da demanda agregada, gerado, entre outros
fatores, pela saudável e necessária expansão
do crédito, está sendo e continuará sendo
suprido pela elevação correspondente da oferta.
O quadro de estabilidade macro-econômica e o Programa de
Aceleração do Crescimento estão dando a previsibilidade
e segurança necessárias para a iniciativa privada
investir muito no crescimento da oferta nos próximos anos.
Em breve, o governo também lançará a segunda
fase da política industrial, que auxiliará muito
o esforço de aumento da oferta feito pelos empresários.
Entre as macro-metas desta política, estão a aceleração
do investimento e o estímulo à inovação.
Com a política que está sendo elaborada pelo MDIC,
BNDES e Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial
- ABDI, pretendemos chegar a um investimento fixo equivalente
a 21% do Produto Interno Bruto, em 2010 – em 2007, foi de
17,6%. Também queremos elevar os gastos privados em pesquisa
e inovação para o equivalente a 0,65% do PIB, também
em 2010, contra os 0,51%, em 2006.
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