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      Edição 241 - Abril de 2008
 

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Diante da desvalorização do dólar ante as outras moedas, e particularmente o real, o que o empresário pode e o que não pode esperar do governo?
Diante da desvalorização do dólar, a expectativa que o empresário, e qualquer um, deve ter em relação ao governo brasileiro é que pouco pode ser feito. Há 15 dias uma ação comandada pelo Banco Central norte-americano injetou no sistema financeiro 200 bilhões de dólares. Na semana passada, eles colocaram mais 400 bilhões de dólares - sem nenhum efeito. Hoje (17 de março), os jornais dão a informação da compra do Banco Bear Stearns por 260 milhões de dólares, mais 20 bilhões de dólares para serem pagos em 20 anos, em um processo de alongamento de dívida. Você imaginaria um banco norte-americano como o Bear Stearns, que em 84 anos nunca tinha tido prejuízo, ser vendido por apenas 260 milhões de dólares? É uma coisa incrível. Agora, há instantes, os mercados estavam caindo 30%. Então, dificilmente o governo brasileiro poderá fazer alguma coisa em relação ao dólar. Quem poderia fazer alguma coisa em relação ao dólar seria o governo americano, mas não está conseguindo fazer nada. A economia americana, com toda a sua fragilidade, é que levou a essa situação.

Neste cenário, qual a margem de ação do governo brasileiro?
O que nós, do governo, temos que fazer, é tomar as medidas que estamos discutindo aqui. É dar condições ao empresário para que ele seja mais produtivo, mais competitivo, capaz de produzir com mais qualidade. Ao retirar impostos dos investimentos produtivos, o governo já estará ajudando o empresário, já estará transformando - teoricamente - o dólar de R$ 1,70 em um dólar de R$ 1,90. O nosso objetivo é possibilitar ao empresário uma redução de custo - tanto custos de produção quanto - e principalmente - de investimento. Por outro lado, é aquela história: em qualquer disputa, sempre há um perdedor e e um ganhador. O fato de o dólar estar derretendo permitiu que grande parte das empresas brasileiras tenha se modernizado e reduzido custos. Setenta por cento das nossas importações são de máquinas e equipamentos, matérias-primas e insumos, que entram a custo mais baixo.

O que mudou na sua visão sobre o papel do governo depois de deixar o setor privado e assumir uma função pública?
Descobri que o governo pode ajudar muito. E que a primeira forma pela qual o governo pode ajudar é não atrapalhando. A segunda forma de o governo ajudar é tomar a iniciativa. Não deveria ser necessário que o empresário fosse ao ministério do Desenvolvimento para explicar que tais e tais medidas ajudariam a indústria nacional a ser mais eficiente e competitiva. Deve partir do próprio governo essa iniciativa de procurar onde estão os problemas que atravancam o sucesso da indústria. O governo tem que procurar o empresário e dizer "Olha, tal imposto será retirado a partir de agora", e não esperar que o empresário venha até o governo e fique pressionando para retirar este ou aquele entrave à competitividade. Acho que estamos tentando mudar esse processo, tomar a iniciativa.

A diplomacia comercial brasileira não precisa melhorar sua articulação com o setor privado?
Temos de melhorar muito. Mas, ainda assim, acho que está bastante estruturada. Foi importante a estratégia do presidente Lula de diversificar mercados e reduzir nossa dependência do mercado norte-americano. A participação dos Estados Unidos nas nossas exportações, que era de quase 25%, hoje está em 16%. E não se trata de afirmar, como fazem algumas pessoas, que deixamos de vender para lá. Ao contrário: estamos vendendo para os Estados Unidos mais do que vendíamos há cinco anos. O que acontece é que regiões como América do Sul, África e Oriente Médio passaram a ter uma importância muito maior. Abriram-se muito mais possibilidades de exportação para o empresário brasileiro. As missões comerciais que o Brasil tem realizado aumentaram, com o envolvimento direto do presidente da República. Fico abismado com as críticas feitas ao presidente quando ele viaja pelo mundo para vender os produtos brasileiros. Quando eu estava na Volkswagen, e o setor discutia com o governo as condições para a criação do carro popular, o Itamar me contou, e não pediu segredo. "Miguel, vou te dizer uma coisa: ontem, o presidente Clinton me ligou para defender os interesses da Raytheon, no caso do Sivam. Ele me disse: ´Presidente, gostaria que o projeto da Raytheon fosse aprovado porque isso significa 30 mil empregos nos Estados Unidos.´" Clinton ligou duas vezes. E estava certo. Esse é o papel do presidente. É defender o povo dele, defender os empregos no país dele. Quando o presidente Lula vai para um país e chega lá acompanhado de um grupo de 40, 50, 80, 100 empresários, ele tem que vender o país mesmo. E ele faz isso com muita competência.

O senhor mencionou a preocupação de capacitar as empresas brasileiras a se defender de práticas abusivas ou desleais de comércio. O setor privado está despreparado?
Este é um ponto interessante. A Secretaria de Comércio Exterior do governo está começando um trabalho com a Câmara Americana de Comércio, e vamos estender esta experiência a outras câmaras, para que as informações sobre defesa comercial chegem às empresas. Nós percebemos claramente a falta de informação no âmbito das empresas, o que é reflexo, penso, da falta de uma cultura exportadora no Brasil. Este processo começou há muito pouco tempo, dez, quize anos atrás... E, de outra parte, a economia brasileira era fechada, protegida. As empresas não estavam expostas à competição internacional. Naquele contexto, boa parte das empresas estava mais preocupada em sobreviver. Afinal, tivemos oito planos e seis moedas em apenas 20 anos. A ordem era resistir. E o empresário brasileiro se revelou um herói. Mais recentemente, ele passa a olhar para fora, e aí é preciso se capacitar. Fui ao Amazonas no ano passado e, num encontro na federação de indústrias local, ouvi de vários setores a queixa de que estavam sendo atingidos pela China. Eu perguntei a um dos empresários: "Se é assim, porque você não entrou com uma medida anti-dumping?" Ele não sabia. Nós estamos estamos colocando a Secex, os departamentos de proteção e defesa comercial, à disposição das federações para dar palestras que orientem os empresários sobre o que deve ser feito. A Fiesp está preparada, assim como a Fiep, a Fiergs, a Fiesc... Mas há federações de indústrias que não estão... Outra coisa: mesmo no âmbito de São Paulo, é preciso considerar que a maioria das empresas não está filiada à Fiesp, e isso se aplica também à Federações mais avançadas, como Fiesc, Fiep e Fiergs... As informações, portanto, não chegam a todas as empresas. E esta média empresa que não está filiada ao sistema estadual e sofre com a concorrência predatória de um exportador, não sabe como pode ingressar com uma ação anti-dumping. E, mesmo que saiba, precisará de um apoio jurídico. Por isso estamos fazendo este trabalho com as federações. Para dar à empresa média condições de se defender de uma prática de comércio danosa, que a esteja forçando a sair do mercado. Nesse sentido, fizemos uma mudança importante. Retiramos do Rio a área de defesa comercial, que estava ali havia muitos anos, e centralizamos tudo em Brasília para podermos acompanhar de perto este processo que, entre outras coisas, envolve medidas anti-dumping não apenas contra China, mas também contra empresas dos Estados Unidos, da Inglaterra...

Um aspecto crítico para a competitividade das empresas brasileiras é a infra-estrutura. É possível contar, ainda, com as parcerias público-privadas para financiar a infra-estrutura?
Nesse momento, sou mais favorável a operar com concessões e não com parcerias público-privadas. Porque as concessões são a maneira mais fácil e rápida de você trabalhar na restauração e na reconstrução da infra-estrutura. Tanto que, no último ano, o Conselho Nacional de Desestatização, que eu, como ministro, presido, assinou dezenas de concessões de estradas. Isso é mais rápido que PPP. Porque a PPP parece mais complexa. Tanto que até hoje não saiu. A concessão deixa a regra mais clara. Você sabe que vai operar um determinado trecho rodoviário, por exemplo, ou um porto, ou coisa parecida, durante um determinado período, pagando tanto e tendo que fazer tais coisas. E não tem muita discussão sobre isso. Então você vai para o leilão, com regras muito claras... As concessões são um sucesso. Veja: em São Paulo, há poucas semanas, um consórcio ganhou a concessão de um trecho do anel rodoviário com pedágio de pouco mais de um real. Um pedágio muito barato, estabelecido após uma grande disputa que envolveu cinco grandes grupos internacionais, inclusive, portugueses, espanhóis... Esta é a vantagem das concessões. O modelo já está desenhado e o país tem uma experiência acumulada nisso. Temos concessões desde o século XIX. Concessões são três regrinhas e pronto. Por tudo isso, eu apostaria mais nelas do que no modelo das PPPs.


“Você não faz uma empresa competitiva à base de subsídios e redução salarial. Você faz com investimento tecnológico, explorando nichos, agregando valor. Este é o caminho”

Até onde pode chegar o impacto da crise do sistema financeiro norte-americano no Brasil?
A crise no sistema financeiro dos Estados Unidos é grave, e tudo indica que ainda não se manifestou completamente. Mesmo assim, já produz efeitos bastante negativos sobre a economia norte-americana, como apontam os muitos dados que indicam uma acentuada desaceleração do ritmo da atividade econômica. Por representar um terço do PIB mundial, esta diminuição inevitavelmente se refletirá sobre todas economias do planeta. Mas é importante observar que as economias dos países emergentes, entre elas a do Brasil, estão muito mais bem preparadas para enfrentar este fenômeno. Elas passam por fortes ciclos de crescimento. Além disso, apresentam fundamentos muito mais sólidos do que possuíam nas crises econômicos globais que varreram o planeta nos anos 90. O Brasil, por exemplo, apresenta um equilíbrio macro-econômico que nos dá tranqüilidade para enfrentarmos a crise que começou nos Estados Unidos. Ingressamos num ciclo de crescimento sustentado, com a inflação sob controle, equilíbrio fiscal, e aumento expressivo e constante do emprego formal, da renda e do crédito. Ao mesmo tempo, diminuímos exponencialmente nossa vulnerabilidade externa, que quase quebrara o País ma década passada. Estamos com reservas cambiais próximas ao equivalente a US$ 200 bilhões e com quase nenhum pedaço da dívida mobiliária federal indexada à variação cambial. Além disso, o sistema de câmbio flutuante adotado pelo Brasil é o mais adequado nos momentos de crises globais.

O crescimento do crédito, que hoje atinge níveis inéditos na história do país, pode gerar um boom de inadimplência e ameaçar a sustentabilidade do crescimento?
Não acredito que, em um cenário de médio e longo prazos, o crescimento do crédito comprometa a sustentabilidade do crescimento econômico brasileiro. Os dados do Banco Central e os balanços dos bancos brasileiros refletem uma situação de invejável solidez do sistema financeiro nacional, que é baseada, entre diversos fundamentos positivos, pela reduzida inadimplência. E tudo indica que este quadro deve perdurar por muito tempo.O aumento da demanda agregada, gerado, entre outros fatores, pela saudável e necessária expansão do crédito, está sendo e continuará sendo suprido pela elevação correspondente da oferta. O quadro de estabilidade macro-econômica e o Programa de Aceleração do Crescimento estão dando a previsibilidade e segurança necessárias para a iniciativa privada investir muito no crescimento da oferta nos próximos anos. Em breve, o governo também lançará a segunda fase da política industrial, que auxiliará muito o esforço de aumento da oferta feito pelos empresários. Entre as macro-metas desta política, estão a aceleração do investimento e o estímulo à inovação. Com a política que está sendo elaborada pelo MDIC, BNDES e Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial - ABDI, pretendemos chegar a um investimento fixo equivalente a 21% do Produto Interno Bruto, em 2010 – em 2007, foi de 17,6%. Também queremos elevar os gastos privados em pesquisa e inovação para o equivalente a 0,65% do PIB, também em 2010, contra os 0,51%, em 2006. 

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