Repensar o negócio
Com freqüência, as transformações
culturais e comportamentais da sociedade exigem das marcas bem mais
do que manter constância no lançamentos de novos produtos.
Em muitos casos, é preciso mudar o próprio negócio
da empresa, sob pena de vê-la alijada do mercado. Tome-se o caso
da fabricante de brinquedos Estrela, que até os anos 90 era onipresente
nas famílias com crianças. Quando surgiu o videogame,
a Estrela não percebeu que o novo brinquedo fazia parte do seu
negócio. Hoje, é com o videogame que as crianças
brincam – e a Estrela se tornou uma marca quase desconhecida nos
lares brasileiros.
Já a Petrobras soube antever o que poderá
ser o futuro. A companhia promoveu uma mudança estratégica
ao definir que seu negócio não é o petróleo
e seus derivados, e sim energia. Tanto que passou a se identificar junto
ao público com o slogan “O desafio é a
nossa energia”. Esse novo posicionamento aumenta o escopo de atuação
da empresa e permite que o seu negócio não se torne obsoleto
tão cedo. Se a humanidade deixar de usar petróleo, a Petrobras
não precisará mudar o seu conceito – continuará
produzindo energia, não importa a fonte. Ou seja, agora o foco
está na utilidade e não no produto em si.
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| Havaianas: das caixas de papelão para
os pés de atrizes e celebridades internacionais |
Esse tipo de postura diante do mercado é comum também
em companhias que não vendem diretamente para o consumidor final.
É o caso da catarinense Weg, de Jaraguá do Sul. Em pouco
mais de 40 anos de vida, ela ganhou notoriedade como fabricante de motores
elétricos. Mas, aos poucos, o negócio evoluiu e a companhia
passou a oferecer um conjunto de produtos e serviços na área
de energia. Por essa razão, a Weg está preparando mudanças
na sua identidade visual e na comunicação, de forma a
transmitir esse novo conceito: o de uma empresa que fornece soluções
completas em energia, não apenas fabrica motores. “Hoje,
Weg ainda significa motores. O desafio é passar a significar,
por exemplo, energia. Ou, então, eficiência energética.
Ela está definindo a forma como vai se apresentar ao mercado”,
conta Augusto Nascimento, diretor da agência de branding
BBN Brasil e co-autor do livro Os 4 Es de Marketing e Branding.
Como aconteceu com a Petrobras, o posicionamento da marca que antes
estava ancorado em produtos concretos passa a se sustentar num conceito
abstrato, que transmite a função dos produtos. “Isso
facilita uma comunicação mais espontânea e transmite
com maior clareza a estratégia de negócios da empresa”,
opina Nascimento.
Preservar a identidade
Os especialistas alertam para um outro aspecto fundamental no processo
de renovação das marcas. As mudanças – na
estratégia, nos produtos e na comunicação com o
consumidor – não podem arranhar a identidade e a personalidade
da marca. “Marca é um jeito de fazer as coisas. Todas as
marcas bem-sucedidas têm uma ‘causa’ bem definida.
Elas defendem um ponto de vista particular em determinado mercado”,
ressalta Castanho, da Thymus Branding. Segundo ele, ter uma identidade
clara não significa ficar parado no tempo, mas, sim, manter uma
consistência entre o que marca faz e diz ao longo dos anos. “Ao
mesmo tempo em que busca captar as novas tendências e anseios
dos consumidores, a marca preserva os seus valores essenciais”,
resume Ângela Hirata. Ela lembra, mais uma vez, do caso Havaianas.
Apesar do lançamento constante de novos modelos e novas campanhas
de identificação com o público, a marca procura
sempre comunicar os mesmos valores: brasilidade, bom-humor, irreverência,
conforto, qualidade e preocupação com as tendências
da moda.
Às vezes, porém, é necessário
mudar uma idéia fortemente relacionada à marca, especialmente
quando um determinado atributo já não representa mais
um diferencial. Foi o que aconteceu com o sabão em pó
Omo. Por décadas, a comunicação do Omo repetiu
que “lavava mais branco”, mas quando outras marcas começaram
a dizer a mesma coisa, ela simplesmente abandonou essa mensagem –
afinal, o atributo não era mais um elemento de diferenciação,
nem de conexão com as consumidoras.
A alemã Puma precisou fazer uma mudança
semelhante. A comunicação da marca sempre esteve focada,
principalmente, no desempenho dos produtos voltados para atletas. Com
isso, perdeu espaço para as concorrentes Adidas e Nike. A primeira
se tornou fashion, usada por adolescentes alternativos; a segunda
passou a pregar a superação com a mensagem “Just
do it”, defendendo a idéia de que o esporte pode ser praticado
por qualquer pessoa. A Puma não teve alternativa senão
rever seus conceitos. Logo passou a produzir tênis e roupas mais
apropriadas para usar no dia-a-dia – inclusive para sair à
noite. Hoje, a marca faz sucesso e tem coleções assinadas
por designers famosos – e não precisou abandonar
os produtos de alto desempenho destinados aos atletas.
Uma mudança no conceito ou na imagem da marca
pode, no entanto, representar um risco e até confundir o consumidor,
se não for bem conduzida. “Em alguns casos, nem deu tempo
para consolidar uma determinada imagem e a empresa já quer mudar.
Com isso, não consegue imprimir à marca uma idéia
consistente e diferenciada”, avalia Guilherme Belluzzo. A proposta
da Coca-Cola, por exemplo, continua praticamente a mesma desde seus
primórdios: proporcionar refrescância e estar sempre presente
em momentos de alegria. E a comunicação da marca procura
enfatizar sempre a magia desses momentos felizes. ”Para os
consumidores tradicionais, essa renovação aparece de maneira
sutil. Ao mesmo tempo, para o público mais jovem, a marca Coca-Cola
está sempre sintonizada com as tendências da atualidade”,
afirma Luiz Fernando Mattos, superintendente de marketing da Vonpar.
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| Atualização constante: Panvel
aposta nas mudanças suaves, com maior investimento nos produtos
de marca própria e na modernização das lojas |
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