Rio
Grande do Sul: sinal vermelho
Em matéria de poder de investimento, nenhum
Estado da Região Sul apresenta situação tão
alarmante quanto o Rio Grande do Sul. O governo gaúcho
vem tentando promover um amplo programa de corte de despesas e
elevação de receitas. Mas tem esbarrado em resistências
políticas. Por duas vezes, a governadora Yeda Crusius tentou
aumentar as alíquotas de ICMS. A medida, no entanto, foi
rejeitada pela Assembléia Legislativa – e o orçamento
estadual continuou déficitário. O resultado é
que, hoje, o Rio Grande do Sul não tem condições
de realizar nenhum investimento com recursos próprios.
Trata-se de um quadro penoso, especialmente para um Estado que,
até a década de 80, podia reservar até 30%
das receitas para novos investimentos. Em 2007, segundo o economista
Darcy Santos, o Estado investiu apenas 2,7% da receita líquida
– dinheiro totalmente obtido por meio de empréstimos.
Na opinião de Santos, este índice deveria ser pelo
menos três vezes maior. “Não há outra
saída. Quem quiser ter dinheiro para investir terá
de diminuir despesas e aumentar receita”, declara o economista.
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Santos: déficit previdenciário
engole os recursos |
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Os gaúchos estão pagando caro pela
complacência com uma política previdenciária
que, há anos, dá sinais de ser insustentável.
Nenhum outro Estado brasileiro compromete tanto a sua receita
com a folha de pagamento – e a maior parte do dinheiro (44%)
vai para inativos e pensionistas, além do pagamento de
dívidas antigas. Mesmo assim, o governo do Estado se ressente
da falta de quadros em algumas áreas essenciais para o
funcionamento da máquina pública. Segundo Darcy
Santos, a margem para investimentos do Rio Grande do Sul é
negativa – equivale a -3,9% de sua RCL. Isto é: mesmo
sem investir nada, as despesas ainda são 3,9% maiores do
que tudo que o Palácio Piratini arrecada por ano.
Uma das medidas adotadas pelo governo para reduzir
os gastos foi a venda de parte das ações do Banrisul,
que rendeu aos cofres do Estado pouco mais de R$ 2 bilhões.
Quase a totalidade dos recursos foram destinados a um fundo que
servirá para pagar os aposentados e pensionistas, aliviando
o déficit previdenciário mensal sobre a folha de
pagamento.
O economista e professor da Universidade do Estado
de Santa Catarina (Udesc), Alcides Goularti Filho, propõe
uma solução para lá de polêmica: aumentar
ainda mais o endividamento do Estado – e aplicar os recursos
em áreas capazes de gerar empregos e tributos no curto
prazo. “O déficit gerado com melhoria nos salários
do serviço público, por exemplo, é bom, porque
melhora a renda. Nesse caso, cortar gastos significaria cortar
renda”, opina ele, citando a linha de pensamento do economista
polonês Michael Kalecki.
Quem pode investir
mais
Parcela da Receita Líquida Corrente
disponível para investimento |
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| Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional
/ Balanços dos Estados |
Santa
Catarina: sinal amarelo
Santa Catarina não chega a apresentar uma
situação tão crítica quanto a do Rio
Grande do Sul. Mesmo assim, está longe de poder afrouxar
o cinto. Conforme o estudo de Darcy Francisco Carvalho dos Santos,
que se baseou em dados de 2006, o Estado pode reservar apenas
1,3% de sua receita corrente líquida para novos investimentos.
Isso equivale a apenas R$ 88,2 milhões. O próprio
governo catarinense sabe que é pouco dinheiro. Não
por acaso, vem utilizando um grande volume de recursos de terceiros
para bancar novas obras e assegurar o crescimento da economia.
Só em 2008, cerca de 40% dos investimentos públicos
em Santa Catarina serão realizados com empréstimos
ou repasses do governo federal – especialmente aqueles previstos
no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
“Como precisamos garantir a aplicação dos
recursos subordinados às vinculações legais,
a única alternativa para investir é buscar crédito”,
aponta Abel Guilherme Cunha, diretor da Dívida Pública
da Secretaria de Fazenda catarinense.
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Alves: criação
de dois institutos de previdência em Santa Catarina pode
ser a melhor saída |
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O que seca as fontes de investimento de Santa
Catarina? Basicamente, são compromissos adquiridos no passado
– isto é, dívidas herdadas de governos anteriores
e o pagamento de servidores aposentados ou inativos. Esses dois
grupos de despesa abocanham aproximadamente 35% da RCL catarinense.
Só o Rio Grande do Sul apresenta índice pior. A
boa notícia é que o governo catarinense já
detectou o problema. Há dois projetos de lei tramitando
na Assembléia Legislativa do Estado com o objetivo de equacionar
a questão previdenciária. A idéia é
criar dois institutos de previdência – um para os
servidores que já estão na ativa e outro para funcionários
que serão admitidos no futuro. “Dessa forma, aumentaríamos
os valores dos repasses por conta dos funcionários e desoneraríamos,
aos poucos, o Tesouro”, explica Sérgio Alves, secretário
da Fazenda de Santa Catarina. Hoje, o Estado desembolsa cerca
de R$ 480 milhões por mês para cobrir o rombo do
Instituto de Previdência de Santa Catarina (Ipesc).
Enquanto isso, o governo catarinense se sustenta
como pode. “A saída é o PAC. Se não
fosse esse programa do governo federal, com certeza as expectativas
para o Estado seriam ainda piores”, afirma o economista
Alcides Goularti Filho, professor da Universidade do Estado de
Santa Catarina (Udesc). Ele lembra que, entre 2000 e 2006, o crescimento
industrial catarinense foi de 2% ao ano – inferior à
média nacional, de 3,6%. E faz uma crítica: descontando-se
os projetos para sanar o Ipesc, a gestão de Luiz Henrique
tem feito pouco para cortar despesas e elevar investimentos. Nos
últimos quatro anos, por exemplo, foram criadas 36 secretarias
de Desenvolvimento Regional – uma para cada nove municípios.
“Não há receita que agüente. Essas secretarias
aumentaram de forma exponencial os nossos gastos com custeio”,
ataca Goularti Filho. O governo alega que o Estado segue todas
as recomendações da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Em 2007, as dívidas catarinenses equivaliam a 87,4% da
receita corrente do Estado. É bem menos do que o limite
máximo permitido pela legislação, de 200%.
“Estamos abaixo do limite e, por isso, podemos buscar novas
operações de crédito para investir”,
assinala Cunha, da Secretaria de Fazenda.
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