| Reportagem:
Marcos
Graciani
Texto: Andreas
Müller

 |
| Usina da Copel: estatal beneficia investimentos
no Paraná |
As contas da União vão bem, obrigado.
A poupança de dólares do Banco Central cresce sem
parar, o governo federal se mantém superavitário
e o presidente Lula, entusiasmado, fala em expandir os investimentos
em infra-estrutura em todo o país. O que preocupa, mesmo,
é a situação dos Estados. Poucas vezes, houve
um descompasso tão grande nas contas dos governadores –
especialmente os da Região Sul do Brasil, que acumulam
déficits orçamentários já há
vários anos. O caso mais crítico é o de Yeda
Crusius, que governa com uma margem para investimentos correspondente
a -3,9% da receita líquida corrente do Rio Grande do Sul.
Em bom português, Yeda não tem um único centavo
para realizar novos investimentos. Tampouco para bancar as despesas
correntes do Estado, como o pagamento de servidores ativos e inativos,
o serviço de dívidas antigas etc – que, juntas,
são 3,9% maiores do que a arrecadação total
do governo gaúcho. Nos outros Estados, a situação
não é tão sufocante assim, mas inspira cuidados.
Em Santa Catarina, por exemplo, descontadas as despesas “fixas”,
sobra apenas 1,3% da receita líquida corrente (ou RCL)
para o governador Luiz Henrique da Silveira investir. No Rio de
Janeiro, a margem é de 3,9%.
|
Margem
para investimentos |
|
é
a diferença entre a receita corrente líquida
(RCL) e a despesa total dos Estados antes dos investimentos.
Ou seja, é aquilo que sobra para os Estados investirem. |
|
Receita
corrente líquida ou RCL |
|
é
o dinheiro que efetivamente pertence a cada Estado. Ou seja,
é aquilo que fica com o Estado depois das transferências
constitucionais e legais aos municípios e os recursos
destinados ao Fundef – Fundo de Desenvolvimento e Manutenção
do Ensino Fundamental. |
Como explicar a diferença abissal entre
o poder de investimento da União e dos Estados? Um estudo
exclusivo encomendado por AMANHÃ ao economista Darcy Francisco
Carvalho dos Santos, especializado em contas públicas,
traz uma explicação simples: a diferença
básica é que os Estados ainda estão enredados
em compromissos adquiridos no passado – tais como pagar
dívidas contraídas por governos anteriores ou bancar
servidores inativos e pensionistas. São compromissos importantes,
é claro. Mas que constituem uma “herança maldita”
para a maioria dos atuais governadores. O estudo de Santos não
deixa dúvidas: os Estados que destinam as maiores parcelas
do orçamento para honrar esses compromissos são
justamente os que têm as piores condições
de realizar novos investimentos. Veja o caso dos três Estados
do Sul. No Paraná, apenas 27,6% da RCL vai para o pagamento
de inativos, pensionistas e serviço da dívida. Não
por acaso, o governo paranaense é o que goza de maior margem
para investimentos da região – equivalente a 7,2%
da RCL. Já o Rio Grande do Sul despeja 44% de sua RCL no
pagamento de inativos, pensionistas e serviço da dívida
e é o único Estado do Sul que não dispõe
de recursos próprios para realizar investimentos.
A regra não se aplica somente à
Região Sul. “O grau de investimentos de todos os
Estados brasileiros tende a ser reduzido em decorrência
do problema previdenciário”, sustenta Santos. Não
por acaso, vários governadores estudam a possibilidade
de criar uma previdência nova, com um regime atuarial diferente,
capaz de se manter sustentável à medida que a população
envelhece – e suficiente para evitar que o rombo do sistema
atual se torne ainda maior. Foi o que fez o Paraná, por
exemplo. Em dezembro de 1998, o então governador Jaime
Lerner criou o Paraná Previdência, uma entidade autônoma,
independente do Tesouro do Estado. Desde então, as contribuições
das pessoas que ingressam no sistema previdenciário vão
para um fundo diferente, mais saudável do que o anterior.
A medida foi crucial. Hoje, a “previdência velha”
drena apenas 18% da RCL paranaense. Esse dinheiro sustenta aproximadamente
89% dos inativos e pensionistas. A experiência paranaense
também está sendo adotada pelo Rio Grande do Sul
É claro que existem exceções
à regra. Minas Gerais, por exemplo, é considerado
um verdadeiro benchmark em finanças estaduais.
A partir de 2003, o Estado comandado por Aécio Neves passou
por uma verdadeira transformação. Na época,
o governo mineiro carregava um déficit anual de R$ 2,4
bilhões. Toda a receita obtida pelo Estado era quase 20%
inferior ao total das despesas – conseqüentemente,
não dispunha de margem nenhuma para investir. O quadro
foi revertido graças a um regime espartano de controle
e corte de gastos. Cerca de 3 mil cargos de confiança foram
extintos. Além disso, o sistema de compras do governo foi
reformulado. “Na hora de adquirir algo, analisamos se aquilo
não vai sobrar no nosso estoque ou se não estamos
pagando por algo de péssima qualidade”, conta Simão
Cirineu Dias, secretário da Fazenda de Minas Gerais. Finalmente,
a dívida com a União, de cerca de R$ 45 bilhões,
está sendo quitada aos poucos – em parcelas de R$
1,6 bilhão ao ano, em média. “O importante
é ser eficiente na gestão”, acredita Dias.
Hoje, Minas Gerais pode reservar até 10,7% de sua RCL para
novos investimentos. Nem mesmo São Paulo tem uma margem
tão alta.
Confira, nas próximas páginas,
uma análise detalhada da situação financeira
de cada um dos Estados do Sul.
|