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      Edição 240 - Março de 2008
 

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O que nutre o sentimento antiliberal do brasileiro e como ele se expressa?
Uma pessoa que teve acesso à educação e perde o emprego não fica desesperada. Preocupa-se, claro, mas tem uma poupancinha, sabe que vai ficar algum tempo até arranjar outro emprego, que até pode não ser tão bom, mas se sente capaz, tem confiança em si. O cara que está lá embaixo, se perder o emprego, vai rezar, vai pedir auxílio ao governo, vai fazer promessa, entendeu? Esse cara tem uma vida mais insegura, e por isso acaba querendo mais governo, mais Estado, menos mercado, porque isso dá uma sensação de proteção – embora eu tenha minhas dúvidas de que isso proteja alguém. Já as pessoas com escolaridade mais alta se sentem mais autônomas. Como a escolaridade do brasileiro está aumentando, o Brasil tende a ficar mais liberal do ponto de vista econômico. Mas hoje ainda vejo o brasileiro esperando do Estado muito mais do que seria razoável.

O que não é razoável na expectativa que o brasileiro tem da ação do Estado?
Esta semana, vi um governador fazendo uma exposição sobre as ações da sua gestão. Havia coisas do tipo “fomento ao empreendorismo” e “fomento aos valores éticos da sociedade”. Isso é ridículo. Onde já se viu governador fomentar empreendedorismo? Não seria muito melhor o governo fazer o básico, isto é, educar a população? Depois, a população se vira. Ela vira empreendedora. O governador está sendo ridículo? Não. Ele faz isso porque a sociedade quer que ele aja assim, e cobra. No Brasil, a pressão é para o governo fazer tudo. Todo mundo pede tudo aos governantes. Então você tem aumento do gasto púbico, déficit fiscal. Tudo por causa dessa visão de mundo que está baseada na escolaridade baixa e na extrema pobreza.

Essa mesma visão está presente, contudo, em populações com alta escolaridade. Na Europa, por exemplo.
Toda sociedade tem suas diferenças. A França é muito mais estatizante que os Estados Unidos e que a Alemanha, por exemplo. Essas diferenças culturais existem, não tenho a menor dúvida, mas não entrei nisso em meu estudo. E acredito que, à medida que aumente a nossa escolaridade, o Brasil irá se tornar mais americanizado. E imagino que na França tenha acontecido o mesmo.

Você tem dito, com base nesse estudo sobre o brasileiro, que Petrobras e Banco do Brasil não serão privatizados tão cedo. Mas desde a última década várias privatizações foram realizadas.
Esta afirmação sobre Petrobras e Banco do Brasil, que são símbolos nacionais, é uma provocação. É que, com a mentalidade estatizante do brasileiro, não há como imaginar que essas empresas possam ser privatizadas. Ao menos em condições normais de temperatura e pressão, isso é improvável. Não tem saída. Para privatizar, só mudando a mentalidade da sociedade. A resistência é e será muito grande a qualquer tentativa de privatização desses símbolos. Quanto às privatizações do governo Fernando Henrique, a rejeição existia, mas houve tolerância em função de que a inflação estava sendo, enfim, derrotada.

O brasileiro que não é corrupto está a um passo da corrupção?
O problema é a cultura do jeitinho, que é a quebra de uma regra. O brasileiro tolera essa quebra, ele não é rígido em relação ao cumprimento da regra informal. Então, está a um passo da corrupção. Dar um jeitinho é visto como um comportamento sempre certo na opinião de 9%, e certo na maioria das vezes para 41%. Somente 18% dos entrevistados consideram o jeitinho sempre errado...

Haveria uma certa hipocrisia – a de repudiar o jeitinho somente quando ele beneficia os outros, e não a nós?
Pois é, dependendo do lado do balcão em que você está, a opinião sobre o jeitinho muda... O jeitinho é uma zona cinzenta moral. Aquilo nem sempre é errado, nem sempre certo, depende da situação. No fundo, é isto.


“60% dos brasileiros acham que todo o nosso destino ou grande parte dele está nas mãos de Deus, e não há como mudar esta situação. Isso eu considero um quadro de idade média”

A pesquisa mostra um Brasil ou vários? Há nuances regionais muito marcantes?
Veja, os habitantes do Rio Grande do Sul cantam o hino do seu Estado. No Rio de Janeiro isso não existe. Nem sei como é o hino do Rio. Nunca ouvi tocar. Em São Paulo, em todo lugar tem a bandeira. Nem sei direito como é a bandeira do Rio de Janeiro. É claro que o Brasil é diferente, regionalmente. A culinária é diferente, o sotaque idem. A pesquisa não investigou isso. Dentro das perguntas da pesquisa, o que diferencia o Brasil é o nível de escolaridade. Nós dois, por exemplo. Eu sou carioca e você é gaúcho. Nós pensamos parecido em relação aos valores da pesquisa, pois nossa escolaridade é semelhante. O sujeito com escolaridade alta no Nordeste pensa de uma maneira muito parecida com a do sujeito de escolaridade alta do Sul e do Sudeste. Esse o corte principal do Brasil. Não se trata de um corte regional, e sim de um corte de escolaridade.

O fator educação acaba, também, produzindo desníveis regionais?
Sim. O Nordeste é uma região mais atrasada que o Sul. Por quê? Por que a massa crítica de escolaridade baixa é muito grande na Região Nordeste. O resultado disso é que o Nordeste se mostra muito mais conservador e tradicional do que o Sul e o Sudeste. Mais até que o Centro-Oeste e o Norte, regiões que apresentam forte colonização do Sul. 

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