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O que nutre o sentimento antiliberal do brasileiro e
como ele se expressa?
Uma pessoa que teve acesso à educação e perde
o emprego não fica desesperada. Preocupa-se, claro, mas
tem uma poupancinha, sabe que vai ficar algum tempo até
arranjar outro emprego, que até pode não ser tão
bom, mas se sente capaz, tem confiança em si. O cara que
está lá embaixo, se perder o emprego, vai rezar,
vai pedir auxílio ao governo, vai fazer promessa, entendeu?
Esse cara tem uma vida mais insegura, e por isso acaba querendo
mais governo, mais Estado, menos mercado, porque isso dá
uma sensação de proteção – embora
eu tenha minhas dúvidas de que isso proteja alguém.
Já as pessoas com escolaridade mais alta se sentem mais
autônomas. Como a escolaridade do brasileiro está
aumentando, o Brasil tende a ficar mais liberal do ponto de vista
econômico. Mas hoje ainda vejo o brasileiro esperando do
Estado muito mais do que seria razoável.
O que não é razoável na expectativa
que o brasileiro tem da ação do Estado?
Esta semana, vi um governador fazendo uma exposição
sobre as ações da sua gestão. Havia coisas
do tipo “fomento ao empreendorismo” e “fomento
aos valores éticos da sociedade”. Isso é ridículo.
Onde já se viu governador fomentar empreendedorismo? Não
seria muito melhor o governo fazer o básico, isto é,
educar a população? Depois, a população
se vira. Ela vira empreendedora. O governador está sendo
ridículo? Não. Ele faz isso porque a sociedade quer
que ele aja assim, e cobra. No Brasil, a pressão é
para o governo fazer tudo. Todo mundo pede tudo aos governantes.
Então você tem aumento do gasto púbico, déficit
fiscal. Tudo por causa dessa visão de mundo que está
baseada na escolaridade baixa e na extrema pobreza.
Essa mesma visão está presente, contudo,
em populações com alta escolaridade. Na Europa,
por exemplo.
Toda sociedade tem suas diferenças. A França é
muito mais estatizante que os Estados Unidos e que a Alemanha,
por exemplo. Essas diferenças culturais existem, não
tenho a menor dúvida, mas não entrei nisso em meu
estudo. E acredito que, à medida que aumente a nossa escolaridade,
o Brasil irá se tornar mais americanizado. E imagino que
na França tenha acontecido o mesmo.
Você tem dito, com base nesse estudo sobre o brasileiro,
que Petrobras e Banco do Brasil não serão privatizados
tão cedo. Mas desde a última década várias
privatizações foram realizadas.
Esta afirmação sobre Petrobras e Banco do Brasil,
que são símbolos nacionais, é uma provocação.
É que, com a mentalidade estatizante do brasileiro, não
há como imaginar que essas empresas possam ser privatizadas.
Ao menos em condições normais de temperatura e pressão,
isso é improvável. Não tem saída.
Para privatizar, só mudando a mentalidade da sociedade.
A resistência é e será muito grande a qualquer
tentativa de privatização desses símbolos.
Quanto às privatizações do governo Fernando
Henrique, a rejeição existia, mas houve tolerância
em função de que a inflação estava
sendo, enfim, derrotada.
O brasileiro que não é corrupto está
a um passo da corrupção?
O problema é a cultura do jeitinho, que é a quebra
de uma regra. O brasileiro tolera essa quebra, ele não
é rígido em relação ao cumprimento
da regra informal. Então, está a um passo da corrupção.
Dar um jeitinho é visto como um comportamento sempre certo
na opinião de 9%, e certo na maioria das vezes para 41%.
Somente 18% dos entrevistados consideram o jeitinho sempre errado...
Haveria uma certa hipocrisia – a de repudiar o
jeitinho somente quando ele beneficia os outros, e não
a nós?
Pois é, dependendo do lado do balcão em que você
está, a opinião sobre o jeitinho muda... O jeitinho
é uma zona cinzenta moral. Aquilo nem sempre é errado,
nem sempre certo, depende da situação. No fundo,
é isto.
“60% dos brasileiros acham que
todo o nosso destino ou grande parte dele está nas
mãos de Deus, e não há como mudar esta
situação. Isso eu considero um quadro de idade
média”
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A pesquisa mostra um Brasil ou vários? Há
nuances regionais muito marcantes?
Veja, os habitantes do Rio Grande do Sul cantam o hino do seu
Estado. No Rio de Janeiro isso não existe. Nem sei como
é o hino do Rio. Nunca ouvi tocar. Em São Paulo,
em todo lugar tem a bandeira. Nem sei direito como é a
bandeira do Rio de Janeiro. É claro que o Brasil é
diferente, regionalmente. A culinária é diferente,
o sotaque idem. A pesquisa não investigou isso. Dentro
das perguntas da pesquisa, o que diferencia o Brasil é
o nível de escolaridade. Nós dois, por exemplo.
Eu sou carioca e você é gaúcho. Nós
pensamos parecido em relação aos valores da pesquisa,
pois nossa escolaridade é semelhante. O sujeito com escolaridade
alta no Nordeste pensa de uma maneira muito parecida com a do
sujeito de escolaridade alta do Sul e do Sudeste. Esse o corte
principal do Brasil. Não se trata de um corte regional,
e sim de um corte de escolaridade.
O fator educação acaba, também,
produzindo desníveis regionais?
Sim. O Nordeste é uma região mais atrasada que o
Sul. Por quê? Por que a massa crítica de escolaridade
baixa é muito grande na Região Nordeste. O resultado
disso é que o Nordeste se mostra muito mais conservador
e tradicional do que o Sul e o Sudeste. Mais até que o
Centro-Oeste e o Norte, regiões que apresentam forte colonização
do Sul.
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