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      Edição 240 - Março de 2008
 

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Alberto Almeida
Sociólogo

O autor da pesquisa que deu origem ao livro
A cabeça do brasileiro vê um país fatalista,
com pouca disposição para empreender e muito
inclinado à idéia de que quanto mais governo, melhor

 
Eugênio Esber

O sociólogo carioca Alberto Carlos Almeida sabia, claro, onde estava pisando quando propôs à Fundação Ford uma espécie de raio-x do que pensam seus compatriotas. E não deu outra: ao final das 2.363 entrevistas que realizou, com o apoio de universidades de todo o país, apareceram traços que ele já havia encontrado na obra do antropólogo Roberto DaMatta, autor de clássicos como “Carnavais, Malandros e Heróis” e “O Que Faz o Brasil?”. Mesmo assim, Almeida ficou impressionado com o painel que teve em mãos. “O quadro é pior do que eu pensava”, diz o autor de “A Cabeça do Brasileiro”, livro que reúne as conclusões da pesquisa aplicada em 103 municípios do país – aí incluídas 27 capitais. Com doutorado em Ciência Política pelo Iuperj, Almeida prepara o lançamento de “A Cabeça do Eleitor”, que também se apóia em uma pesquisa. “É sobre o que o eleitor leva em consideração no momento em que faz sua escolha”, resume o sócio do Instituto Análise, empreendimento que prentende transformar em seu QG de consultoria.

Você se surpreendeu com os resultados da pesquisa que deu origem ao livro “A Cabeça do Brasileiro”?
A pesquisa me surpreendeu em dois aspectos. Em primeiro lugar, porque o quadro é muito ruim. Claro, depois que você pára para pensar, a surpresa deixa de ser surpresa. Mas em geral a situação do Brasil é muito ruim. O brasileiro tem uma mentalidade muito arcaica, antiga, atrasada. Quando você pega todos os resultados juntos e vê o panorama total, é surpreendente. Eu não esperava, por exemplo, um conservadorismo tão grande com relação às práticas sexuais. Ficou claro que o brasileiro é um falador. Fala mais do que faz. O segundo aspecto que me surpreendeu na pesquisa é o valor que se dá à hierarquia, algo bem típico da obra do Roberto DaMatta. O brasileiro é hierárquico, e muito. Continua chamando o patrão de “senhor” mesmo que ele faculte ao empregado chamá-lo de você...

A surpresa, então, vem menos do atraso e mais da proporção que assume?
Exatamente. No fundo, eu esperava menos. Só que, aí, você se debruça sobre os resultados e começa a ver melhor... A escolaridade do Brasil é uma das piores do mundo. Quando tomamos a Europa, Portugal tem uma das escolaridades mais baixas. Quando tomamos as Américas, isso se aplica ao Brasil. Não é por acaso. Tal pai, tal filho. A cultura portuguesa que não valoriza a escolarização foi trazida para o Brasil. Por isso somos assim.

Um traço do nosso atraso seria a falta de confiança nas instituições?
O brasileiro confia realmente na família – muito mais do que em qualquer outro grupo social: amigos, colegas de trabalho etc. A confiança na família é gigantesca. Esse familismo muito forte explica por que se empregam tantos parentes em cargos de confiança.

O nepotismo, que tanto escândalo gera, seria então algo muito natural na cabeça do brasileiro?
A sociedade inteira faz isso. Basicamente, o que acontece é que a gente fica muito indignado com os políticos, mas o livro manda um recado diferente. Ele está dizendo que não são os políticos a fonte do problema. É a sociedade. A sociedade é assim. Costuma-se dizer: “Ah, ele foi eleito e se transformou”. Errado. O político, quando foi eleito, não mudou. Ele foi criado naquela sociedade e é produto dela. Ele confiava na família antes de ser eleito, e continuou confiando depois de eleito. Qualquer um que fosse eleito faria a mesma coisa. Esse é que é o problema. Não adianta você esperar as mudanças mudando o governo. O governo é resultado da sociedade.

Como esse familismo se manifesta nas empresas?
Se a sociedade é familista, você entende, por exemplo, por que no Brasil você tem tantas empresas familiares. E quem instituiu as empresas não-familiares não foram os brasileiros. Foram as multinacionais, que chegaram aqui com outra ideologia, outra cabeça. No Brasil, em alguns lugares a empresa é familiar, mas passou a exigir qualificação do familiar. A Gerdau, no Sul, é assim: o mais qualificado sucedeu o Jorge (Gerdau Johannpeter). Mas isso é raro. E o familismo também aparece em multinacional. Às vezes, alguém que tem poder em uma multinacional emprega um parente seu, ou da esposa.

“O cara sem escolaridade, quando perde o emprego, vai rezar, pedir auxílio ao governo... Ele tem uma vida insegura e por isso acaba querendo mais governo. É uma proteção”

É um traço que pode ser percebido em todas as classes, indistintamente?
Mesmo no nível superior completo, 96% confiam em primeiro lugar na família. É quase 100%. A questão é que, no nível superior, a diferença entre quem confia na família e quem confia sobretudo nos amigos é de 35 pontos percentuais. É bem menos do que no segmento de escolaridade baixa. Ali, a diferença em favor da família é de 60 pontos percentuais.

O que há de medieval na cabeça do brasileiro?
No fundo, muita coisa. Avaliamos a a visão que o brasileiro tem do destino. Resultado: 60% acreditam que todo o destino, ou grande parte dele, está nas mãos de Deus, e os homens não controlam nada, ou são capazes de mudá-lo muito pouco...Acham que tudo está nas mãos de Deus – ou quase tudo...E só 14% entendem que não há destino. Isso eu considero um quadro de idade média, que justifica muitas coisas. “Ah, estava no lugar errado, na hora errada. É o destino. Deus quis...”

É um indício de que os brasileiros acreditam muito em Deus e pouco em si.
De fato. Quando você junta o familismo e essa visão fatalista, depara com um limite importante para a atitude de empreender. Aquela coisa: não sobrou nada para eu fazer, tenho de abrir uma birosca. Não há empreendedorismo.

A pesquisa flagra uma conexão entre postura estatizante e baixo nível de instrução dos brasileiros. Mas há brasileiros cultos com essa mesma visão.
Vou falar uma coisa que serve para todas as respostas da pesquisa. A sociedade tem uma massa critica, isto é, uma certa quantidade de pessoas que pensam de um jeito. A nossa massa crítica de grau superior é pequena. Ela tem muito pouca capacidade de mudar ou influenciar a grande massa que tem escolaridade baixa. Se, em vez de 10%, tivéssemos 30% dos brasileiros com ensino superior, o Brasil seria muito diferente. Teríamos uma massa crítica brutal, gigantesca. Na situação de hoje, até mesmo quem tem escolaridade mais alta está num ambiente em que todo mundo quer o governo. E aí é complicado você também não querer o governo, ou querer menos governo.

 

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