| O sociólogo carioca Alberto Carlos
Almeida sabia, claro, onde estava pisando quando propôs
à Fundação Ford uma espécie de raio-x
do que pensam seus compatriotas. E não deu outra: ao final
das 2.363 entrevistas que realizou, com o apoio de universidades
de todo o país, apareceram traços que ele já
havia encontrado na obra do antropólogo Roberto DaMatta,
autor de clássicos como “Carnavais, Malandros e Heróis”
e “O Que Faz o Brasil?”. Mesmo assim, Almeida ficou
impressionado com o painel que teve em mãos. “O quadro
é pior do que eu pensava”, diz o autor de “A
Cabeça do Brasileiro”, livro que reúne as
conclusões da pesquisa aplicada em 103 municípios
do país – aí incluídas 27 capitais.
Com doutorado em Ciência Política pelo Iuperj, Almeida
prepara o lançamento de “A Cabeça do Eleitor”,
que também se apóia em uma pesquisa. “É
sobre o que o eleitor leva em consideração no momento
em que faz sua escolha”, resume o sócio do Instituto
Análise, empreendimento que prentende transformar em seu
QG de consultoria.
Você se surpreendeu com os resultados da pesquisa
que deu origem ao livro “A Cabeça do Brasileiro”?
A pesquisa me surpreendeu em dois aspectos. Em primeiro lugar,
porque o quadro é muito ruim. Claro, depois que você
pára para pensar, a surpresa deixa de ser surpresa. Mas
em geral a situação do Brasil é muito ruim.
O brasileiro tem uma mentalidade muito arcaica, antiga, atrasada.
Quando você pega todos os resultados juntos e vê o
panorama total, é surpreendente. Eu não esperava,
por exemplo, um conservadorismo tão grande com relação
às práticas sexuais. Ficou claro que o brasileiro
é um falador. Fala mais do que faz. O segundo aspecto que
me surpreendeu na pesquisa é o valor que se dá à
hierarquia, algo bem típico da obra do Roberto DaMatta.
O brasileiro é hierárquico, e muito. Continua chamando
o patrão de “senhor” mesmo que ele faculte
ao empregado chamá-lo de você...
A surpresa, então, vem menos do atraso e mais
da proporção que assume?
Exatamente. No fundo, eu esperava menos. Só que, aí,
você se debruça sobre os resultados e começa
a ver melhor... A escolaridade do Brasil é uma das piores
do mundo. Quando tomamos a Europa, Portugal tem uma das escolaridades
mais baixas. Quando tomamos as Américas, isso se aplica
ao Brasil. Não é por acaso. Tal pai, tal filho.
A cultura portuguesa que não valoriza a escolarização
foi trazida para o Brasil. Por isso somos assim.
Um traço do nosso atraso seria a falta de confiança
nas instituições?
O brasileiro confia realmente na família – muito
mais do que em qualquer outro grupo social: amigos, colegas de
trabalho etc. A confiança na família é gigantesca.
Esse familismo muito forte explica por que se empregam tantos
parentes em cargos de confiança.
O nepotismo, que tanto escândalo gera, seria então
algo muito natural na cabeça do brasileiro?
A sociedade inteira faz isso. Basicamente, o que acontece é
que a gente fica muito indignado com os políticos, mas
o livro manda um recado diferente. Ele está dizendo que
não são os políticos a fonte do problema.
É a sociedade. A sociedade é assim. Costuma-se dizer:
“Ah, ele foi eleito e se transformou”. Errado. O político,
quando foi eleito, não mudou. Ele foi criado naquela sociedade
e é produto dela. Ele confiava na família antes
de ser eleito, e continuou confiando depois de eleito. Qualquer
um que fosse eleito faria a mesma coisa. Esse é que é
o problema. Não adianta você esperar as mudanças
mudando o governo. O governo é resultado da sociedade.
Como esse familismo se manifesta nas empresas?
Se a sociedade é familista, você entende, por exemplo,
por que no Brasil você tem tantas empresas familiares. E
quem instituiu as empresas não-familiares não foram
os brasileiros. Foram as multinacionais, que chegaram aqui com
outra ideologia, outra cabeça. No Brasil, em alguns lugares
a empresa é familiar, mas passou a exigir qualificação
do familiar. A Gerdau, no Sul, é assim: o mais qualificado
sucedeu o Jorge (Gerdau Johannpeter). Mas isso é
raro. E o familismo também aparece em multinacional. Às
vezes, alguém que tem poder em uma multinacional emprega
um parente seu, ou da esposa.
“O cara sem escolaridade, quando
perde o emprego, vai rezar, pedir auxílio ao governo...
Ele tem uma vida insegura e por isso acaba querendo mais governo.
É uma proteção”
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É um traço que pode ser percebido em todas
as classes, indistintamente?
Mesmo no nível superior completo, 96% confiam em primeiro
lugar na família. É quase 100%. A questão
é que, no nível superior, a diferença entre
quem confia na família e quem confia sobretudo nos amigos
é de 35 pontos percentuais. É bem menos do que no
segmento de escolaridade baixa. Ali, a diferença em favor
da família é de 60 pontos percentuais.
O que há de medieval na cabeça do brasileiro?
No fundo, muita coisa. Avaliamos a a visão que o brasileiro
tem do destino. Resultado: 60% acreditam que todo o destino, ou
grande parte dele, está nas mãos de Deus, e os homens
não controlam nada, ou são capazes de mudá-lo
muito pouco...Acham que tudo está nas mãos de Deus
– ou quase tudo...E só 14% entendem que não
há destino. Isso eu considero um quadro de idade média,
que justifica muitas coisas. “Ah, estava no lugar errado,
na hora errada. É o destino. Deus quis...”
É um indício de que os brasileiros acreditam
muito em Deus e pouco em si.
De fato. Quando você junta o familismo e essa visão
fatalista, depara com um limite importante para a atitude de empreender.
Aquela coisa: não sobrou nada para eu fazer, tenho de abrir
uma birosca. Não há empreendedorismo.
A pesquisa flagra uma conexão entre postura estatizante
e baixo nível de instrução dos brasileiros.
Mas há brasileiros cultos com essa mesma visão.
Vou falar uma coisa que serve para todas as respostas da pesquisa.
A sociedade tem uma massa critica, isto é, uma certa quantidade
de pessoas que pensam de um jeito. A nossa massa crítica
de grau superior é pequena. Ela tem muito pouca capacidade
de mudar ou influenciar a grande massa que tem escolaridade baixa.
Se, em vez de 10%, tivéssemos 30% dos brasileiros com ensino
superior, o Brasil seria muito diferente. Teríamos uma
massa crítica brutal, gigantesca. Na situação
de hoje, até mesmo quem tem escolaridade mais alta está
num ambiente em que todo mundo quer o governo. E aí é
complicado você também não querer o governo,
ou querer menos governo.
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