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      Edição 240 - Março de 2008
 

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“Se não tiver uma equipe saudável, a empresa não será suficientemente produtiva; e se as pessoas não se tratarem, os custos com saúde serão ainda maiores no longo prazo”

João Lins, Consultor de capital humano da PricewaterhouseCoopers


Baixa produtividade e retrabalho

À primeira vista, soa absurdo afirmar que o empregado com baixa produtividade custa mais caro à empresa do que aquele que falta ao trabalho. Mas uma comparação mais atenta ajuda a entender essa conta. “Numa falta não programada, a perda de produtividade é de 100% em um dia. Já quando o empregado vai ao trabalho, mas passa vários dias sem produzir o que deveria, devido a pequenas complicações de saúde, as perdas são muito maiores”, explica Brett Gorovsky, responsável pela pesquisa “2007 Unschedule Absence Survey”, feita pela consultoria CCH, com 317 empresas norte-americanas.

Além do mais, é comum que as tarefas realizadas pelo “presenteísta” resultem em retrabalho, com maiores gastos em energia elétrica, transporte, e alimentação, elevando o custo por funcionário. E um pequeno problema de saúde não tratado pode significar, no longo prazo, aumento dos custos com consultas, medicamentos e, até, com pensões ou aposentadorias. O professor da FGV, Roberto Heloani, lembra o caso de uma empresa de informática que proibiu os funcionários de trabalhar depois do fim do expediente, às 18h. O motivo? A companhia constatou que o custo do retrabalho das tarefas executadas nas horas extras era muito grande. “Como os funcionários precisavam de boa memória, após certo horário produziam muito menos e com qualidade inferior. Na prática, trabalhavam mais horas, gastavam mais recursos da empresa e, não raro, acabavam doentes”, conta Heloani.

De acordo com o livro America at Work: Choices and Chalanges (América e Trabalho: Escolhas e Desafios, sem tradução para o português), de Edward Lawler, um empregado doente que vai trabalhar, em vez de ficar em casa, custa o equivalente a US$ 255 por ano em perdas de produtividade. Algumas estimativas revelam que o presenteísmo gera uma perda de US$ 180 bilhões anuais para as empresas norte-americanas. Outro levantamento, feito pelo Instituto de Estudos em Saúde e Produtividade, da Universidade de Cornell, aponta números impressionantes sobre a redução da produtividade associada a problemas de saúde. Uma pessoa com artrite produz 9,7% menos. Já o diabetes pode diminuir a produtividade do trabalhador em até 19,9%. “O impacto para a empresa se dá em duas dimensões: se não tiver uma equipe saudável, não será suficientemente produtiva; e se as pessoas não se tratarem, os custos com saúde serão ainda maiores no longo prazo”, explica João Lins, consultor de capital humano, da PricewaterhouseCoopers.

 

Presente, mas doente

Dor de cabeça, febre, problemas gastrointestinais, resfriados ou gripes, dores musculares, distúrbios de sono, asma ou crise alérgica. Em maior ou menor grau, não há quem não tenha pensado em ficar em casa depois de acordar com um desses sintomas. Alguns especialistas dizem que a pessoa não deveria mesmo ir trabalhar assim. Afinal, até mesmo pequenas complicações físicas ou psicológicas podem interferir no rendimento, contaminar o ambiente de trabalho e, não raro, gerar mais custos para a empresa. “Com freqüência, as pessoas vão trabalhar doentes. O autônomo tem de ir porque não há quem o substitua. O assalariado, porque tem medo de perder o emprego”, comenta Zuher Hambar, diretor científico da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anam).

Outro aspecto é que os brasileiros não têm o hábito de procurar um médico por problemas que julgam de pouca importância – no máximo se automedicam. “Ninguém vai ao médico, a não ser que esteja passando mal”, aponta Thaís Blanco, responsável da consultoria de benefícios da Hewitt Associates. O problema é que aquilo que parece uma banalidade para uns pode afetar seriamente a produtividade de outros. Por isso, até uma dor de cabeça mais intensa poderia ser motivo para uma recomendação médica de afastamento do trabalho. Hambar ressalta que, além de avaliar o limite do corpo de cada paciente, o médico tem a responsabilidade de investigar sintomas que possam esconder alguma doença mais complicada. “Mas é importante ter em mente que cerca de 80% das pessoas não têm doenças, mas apenas sensações desagradáveis de desconforto físico que não a deixam render 100%”, alerta Ricardo de Marchi, diretor da CPH Health Solution. Para avaliar melhor cada situação e, ao mesmo tempo, detectar quando se trata de algum problema mais grave, a maioria das grandes empresas mantém estruturas próprias de assistência à saúde, além de exigir exames clínicos a cada seis meses.

 

As razões dos norte-americanos

65% Muito trabalho a fazer, prazos estreitos

56% Ninguém para cobrir sua falta

55% Não quer usar o tempo de férias

49% Temor de alguma punição

49% Dispensas por doença são reservadas para outras ocasiões

36% Lealdade à companhia

27 Cultura da companhia desencoraja o uso dos dias de afastamento por doença

9% Muito difícil trabalhar em casa

Fonte: 2007 CCH Unscheduled Absence Survey – pesquisa feita com 317 empresas dos Estados Unidos

 

Para os especialistas em RH, está claro que cada colaborador deve ter a responsabilidade e a consciência de que sua situação de saúde afeta a empresa. Mas, quando isso não ocorre, cabe ao líder da equipe observar mudanças de comportamento ou sintomas de que algo não vai bem com a saúde do colaborador. É o que acontece na AES Sul, distribuidora de energia do Rio Grande do Sul. As equipes que atuam nas redes elétricas são observadas atentamente, pois o responsável precisa ter certeza de que o funcionário está 100% focado no trabalho antes de liberá-lo para acompanhar as equipes de campo. “Estar presente e não completamente atento é perigoso, porque tanto aquele funcionário quanto seus colegas correm o risco de morrer se acontecer algo de errado”, explica Luis Cláudio Rangel Xavier, superintendente de relações humanas da AES Sul. Se a pessoa não apresenta condições, é afastada da equipe, podendo, até mesmo, ser liberada do trabalho – com a compensação por meio do banco de horas. “Dessa forma, as pessoas vêem como são tratadas e confiam mais na empresa”, acredita Xavier.

Xavier, da AES Sul: condições físicas e emocionais pesam na hora de liberar as equipes de campo

 

Algo semelhante acontece na unidade brasileira da companhia farmacêutica norte-americana Bristol-Myers Squibb. “Nós nos preocupamos com a saúde dos colaboradores, pois qualquer problema pode se transformar em uma epidemia”, diz Renato Paiva, gerente de recursos humanos da Bristol. Um estudo da consultoria norte-americana CCH (2007 Unscheduled Absence Survey) revelou que, em 85% das vezes nas quais o empregado vai trabalhar com problemas de saúde, trata-se de gripe ou resfriado, de fácil contágio. Por isso, a Bristol costuma dispensar funcionários com algum problema de saúde, principalmente quando há o risco de transmissão para os demais colegas. Outra solução que pode ser adotada pelas empresas é dar folga aos empregados, sem descontar do pagamento – o que é geralmente utilizado com executivos. “Mas no chão de fábrica é muito mais complicado fazer isso”, acredita Thaís, da Hewitt.

 

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