|
Mas o senhor é aquele centroavante de área,
oportunista, ou um destes atacantes de movimentação,
que fica abrindo espaço para os outros?
Não, sou aquele centroavante aproveitador. Porque todo
mundo passa a bola para mim.
É porque ninguém quer ficar mal com o
comandante?
É verdade...
É possível conhecer o caráter de
um profissional em uma simples pelada?
É possível, sim. E é incrível como
o futebol transforma as pessoas e como elas se revelam no futebol.
Olha, você falou uma verdade. O que eu fiz e faço
sempre é observar. Às vezes, você começa
a desconfiar de uma pessoa pelo caráter que ela demonstra
ter em campo. Nesses casos, começo a ficar com o olho mais
aberto para esse tipo de pessoa que dá um pontapé,
que se mostra pedante com os mais humildes ou que não tem
espírito de equipe... Esse tipo de atitude eu considero
muito na vida profissional também.
O estilo de comando mudará muito com a chegada
de seu filho à presidência?
A gente, a principio, estranha um pouco, porque você queria
que seu filho fosse como você, mas não existem duas
pessoas iguais. Eu tenho uma forma de me conduzir com muita cautela,
com muita alegria e com muito otimismo. Quando chegam as piores
notícias, eu procuro olhar o lado bom. Isso eu estou tentando
passar para os meus filhos, e estou conseguindo. É que
as pessoas destas gerações mais novas têm
um conceito mais rude, mais duro, menos humano. Mais focado em
resultados, passando por cima de quem for. Eu tento compreender
o lado deles, mas tento mostrar uma forma mais tranqüila
de conduzir as coisas.
Como é, na prática, esta forma “mais
tranqüila” de liderar numa companhia focada em resultados?
É conseguir que as pessoas te admirem. E procurar trazer
as pessoas com você, mas sempre pelo convencimento. Mesmo
nos momentos de divergência, por mais que eu tenha razão,
prefiro dizer: “Vamos pensar mais um pouco, vamos ver direitinho,
eu acho que estou certo, mas também não sou o dono
da razão...” Isso faz com que o interlocutor, percebendo
que está errado, aceite mais facilmente o meu ponto de
vista porque, afinal de contas, eu flexibilizei, não fui
teimoso. Eu faço 38 reuniões por mês, e todas
são muito agradáveis. Todos falam, eu dou minha
opinião... Não há nada de autoritarismo.
Agora, eu sei ser duro quando preciso ser – mas é
muito raro eu precisar ser duro em qualquer decisão...
“O apagão é iminente,
mas enquanto não faltar luz nas casas dos juízes
e das pessoas que lidam com meio ambiente eles não
vão se conscientizar”
|
Como ex-feirante que construiu um grupo empresarial
sem uma prévia formação acadêmica,
que avaliação o senhor faz do desempenho de Lula
na Presidência da República?
Eu conheci Lula pessoalmente. Estive com ele três vezes.
Não votei nele, mas acho que ele se sustenta, em primeiro
lugar, pela honestidade. E, em segundo lugar, por ter cumprido
os contratos. A partir do momento em que assumiu a presidência
e cumpriu os contratos, adquiriu uma credibilidade muito forte.
Agora, o fato de ele ter chegado a ser presidente da República...
Acho que é algo que provavelmente não se repita
mais no Brasil. Não sei se vai ter espaço para pessoas
com pouca escolaridade conseguirem o que ele conseguiu. Mas nisso
não há demérito nenhum. Na verdade, ele está
dando conta do recado, teve sorte de viver um bom momento da economia
mundial. Hoje, eu sou realmente um admirador muito profundo dele
e isso prova que não é a escolaridade que faz a
liderança.
Um dos mais de 30 negócios do seu grupo é
o de energia. Como o senhor vê o risco de um apagão
no Brasil?
Eu acho que o Brasil precisa de duas coisas: educação
e infra-estrutura. Educação, todo mundo sabe que
o Brasil precisa. Agora, infra-estrutura... Nós estamos
muito amarrados com a questão do Judiciário e do
meio ambiente. Nós estamos muito rígidos nesse aspecto.
Rígidos e morosos. Acho que falta compreensão ao
Judiciário. Porque o apagão é uma situação
iminente, está aí, e acho que enquanto não
faltar luz nas residências dos juízes e das pessoas
que lidam com o meio ambiente eles não vão se conscientizar
a respeito de para onde nós estamos indo. Eu falo isso
em função de que vejo decisões irresponsáveis
que impedem construções de hidrelétricas
por coisas que são menos importantes.
Tem havido exagero no dimensionamento do risco ambiental?
Exatamente. Há um exagero. Eu acho que o Judiciário
e o pessoal do meio ambiente não se conscientizaram ainda
da necessidade de energia que o Brasil tem. A população
aumenta, o crescimento econômico está aí e
nós vamos ter de olhar o meio ambiente com um pouco mais
de racionalidade. Acho que existem muitos exageros. Vários
projetos hidrelétricos estão parados em função
de radicalismo, tanto de setores ligados ao meio ambiente quanto
do Judiciário.
Dê um exemplo, por favor.
Há usinas que já poderiam estar gerando energia,
mas tudo pára na interpretação do Judiciário
de que, antes, é preciso estudar toda a bacia do rio. Eu
acho isso uma besteira, porque, no Brasil, a prática sempre
foi construir a usina e estudar a bacia simultaneamente. E nisso
lá se vão três ou quatro anos de estudo. E,
depois, mais três ou quatro anos de atraso na construção
da usina. É por causa de tudo isso que corremos, sim, um
risco de apagão. Se nós tivéssemos um acordo
entre Judiciário e o setor de meio ambiente, que flexibilizasse
as exigências por três ou quatro anos, então
se poderia tranqüilizar os brasileiros de que não
faltaria energia a médio prazo. Mas o radicalismo nas decisões
tem atrasado muito o país. E o Brasil vai pagar muito caro
por isso.
Ainda é possível contar com as parcerias
público-privadas para financiar as obras de infra-estrutura
no Brasil, ou o impasse vai prosseguir?
As PPPs são uma idéia maravilhosa. É a solução
para o Brasil. Mas estão restritas a regulamentações
muito complicadas, porque existem as PPPs federais, as estaduais,
as municipais... e cada uma delas enfrenta hoje o seu problema
regulatório. O governo tem boa vontade em executar obras
de infra-estrutura e colocar em prática projetos de PPPs,
mas com o Judiciário criando problemas, e concedendo liminares
absurdas, mesmo sabendo que elas serão cassadas, o país
retarda muito o seu desenvolvimento.
O compromisso de melhorar a infra-estrutura até
2014, em razão da Copa do Mundo, não instala no
Brasil um senso de urgência e de pragmatismo na superação
dessas dificuldades?
Por todos esses problemas que eu mencionei, acho que o governo,
por mais boa vontade que tenha, será incompetente para
realizar todas as obras e investimentos de que o país necessita.
O Judiciário já vai ser um gargalo. Olha a transposição
do Rio São Francisco: há quanto tempo o governo
está tentando fazer essa obra? Desde o primeiro ano, do
primeiro mandato, está se tentando fazer com que os contratos
sejam assinados. E lá se vão quantos anos? Cinco
anos. Com as obras de infra-estrutura necessárias para
a Copa do Mundo, vai ser a mesma coisa. Por outro lado, o que
depende dos Estados ou dos clubes de futebol também não
deve avançar por falta de recursos financeiros. Eu, sinceramente,
não vejo como o Brasil poderá organizar esta Copa
do Mundo descentemente. Eu acho que nós vamos realizar
uma Copa do Mundo Tupiniquim, tudo mais ou menos resolvido –
algumas coisas prontas, outras não. Passaremos algum constrangimento,
sem dúvida. Vai ser a Copa do Mundo Tupiniquim.
A crise das hipotecas para a baixa renda nos Estados
Unidos tem lições a oferecer ao Brasil num momento
em que o crédito deslancha no país – inclusive
para as camadas de menos recursos?
Há lições, sim. Lá, o problema foi
na área imobiliária. Aqui, vai ser na concessão
de crédito para consumo. A partir do momento em que certos
bancos começaram a financiar, aqui no Brasil, automóveis
com 72 e até 84 meses de prazo, fico preocupado. Essa conta
não fecha. Acho que as instituições financeiras
têm de tomar muito cuidado. Estão querendo ir com
muita sede ao pote, porque não estávamos acostumados
com juros baixos num país sem inflação. Tudo
bem, isso faz bem ao crédito, mas desde que seja moderado,
seja bem instituído. Não se pode querer fazer crédito
consignado, com oito anos de prazo para pagar. Essas coisas mais
tarde vão dar dor de cabeça.
E os financiamentos imobiliários a 25, 30 anos,
também integram esse risco?
No setor imobiliário, esse crédito mais longo se
justifica, porque todas as pessoas têm de morar em algum
lugar. E o crédito, nesse caso, dá a ela a chance
de substituir o aluguel pela prestação da casa própria.
O juro baixo e a inflação nos patamares atuais tornaram
possível aos brasileiros esse tipo de operação
que, antes, era inviável. Os juros eram tão altos
que criavam uma situação em que a pessoa pagava
durante muitos anos e seu saldo devedor era sempre maior do que
quando ela havia comprado a casa.
A euforia do mercado de capitais no Brasil terá
continuidade nos próximos anos?
Bom, vivemos uma bolha, sim, mas que não é brasileira.
Era uma euforia internacional, um excesso de liquidez. Os fundos
de pensões e os administradores de assetts não
têm onde colocar o dinheiro. Com os juros baixos na Europa
e nos EUA, os países emergentes se tornaram muito atrativos
nas possibilidades de ganhos de capital que oferecem. Tudo isso
levou a uma enxurrada de dólares aqui, no México,
na Índia, na China... Mas eu acho que isso já foi.
Irresponsabilidades, exageros, isso não vai acontecer.
Eles não vão colocar o dinheiro da forma como colocaram.
Veja que não houve no Brasil IPOs de projetos de empresas.
Não quero menosprezar, mas imobiliárias! Quem diria
que se conseguiria fazer IPO de uma imobiliária? Podemos
ficar certos de que o dinheiro não virá com tanta
facilidade como veio. Ou, no mínimo, a procura por projetos
se dará por um preço mais baixo. Agora, mesmo numa
fase de menos liquidez, ainda assim vai faltar projeto no Brasil,
principalmente a partir do momento em que o país passar
a ser investment grade e atrair recursos dos fundos de
pensão.
|