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      Edição 239 - Janeiro/Fevereiro de 2008
 

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Mas o senhor é aquele centroavante de área, oportunista, ou um destes atacantes de movimentação, que fica abrindo espaço para os outros?
Não, sou aquele centroavante aproveitador. Porque todo mundo passa a bola para mim.

É porque ninguém quer ficar mal com o comandante?
É verdade...

É possível conhecer o caráter de um profissional em uma simples pelada?
É possível, sim. E é incrível como o futebol transforma as pessoas e como elas se revelam no futebol. Olha, você falou uma verdade. O que eu fiz e faço sempre é observar. Às vezes, você começa a desconfiar de uma pessoa pelo caráter que ela demonstra ter em campo. Nesses casos, começo a ficar com o olho mais aberto para esse tipo de pessoa que dá um pontapé, que se mostra pedante com os mais humildes ou que não tem espírito de equipe... Esse tipo de atitude eu considero muito na vida profissional também.

O estilo de comando mudará muito com a chegada de seu filho à presidência?
A gente, a principio, estranha um pouco, porque você queria que seu filho fosse como você, mas não existem duas pessoas iguais. Eu tenho uma forma de me conduzir com muita cautela, com muita alegria e com muito otimismo. Quando chegam as piores notícias, eu procuro olhar o lado bom. Isso eu estou tentando passar para os meus filhos, e estou conseguindo. É que as pessoas destas gerações mais novas têm um conceito mais rude, mais duro, menos humano. Mais focado em resultados, passando por cima de quem for. Eu tento compreender o lado deles, mas tento mostrar uma forma mais tranqüila de conduzir as coisas.

Como é, na prática, esta forma “mais tranqüila” de liderar numa companhia focada em resultados?
É conseguir que as pessoas te admirem. E procurar trazer as pessoas com você, mas sempre pelo convencimento. Mesmo nos momentos de divergência, por mais que eu tenha razão, prefiro dizer: “Vamos pensar mais um pouco, vamos ver direitinho, eu acho que estou certo, mas também não sou o dono da razão...” Isso faz com que o interlocutor, percebendo que está errado, aceite mais facilmente o meu ponto de vista porque, afinal de contas, eu flexibilizei, não fui teimoso. Eu faço 38 reuniões por mês, e todas são muito agradáveis. Todos falam, eu dou minha opinião... Não há nada de autoritarismo. Agora, eu sei ser duro quando preciso ser – mas é muito raro eu precisar ser duro em qualquer decisão...


“O apagão é iminente, mas enquanto não faltar luz nas casas dos juízes e das pessoas que lidam com meio ambiente eles não vão se conscientizar”

Como ex-feirante que construiu um grupo empresarial sem uma prévia formação acadêmica, que avaliação o senhor faz do desempenho de Lula na Presidência da República?
Eu conheci Lula pessoalmente. Estive com ele três vezes. Não votei nele, mas acho que ele se sustenta, em primeiro lugar, pela honestidade. E, em segundo lugar, por ter cumprido os contratos. A partir do momento em que assumiu a presidência e cumpriu os contratos, adquiriu uma credibilidade muito forte. Agora, o fato de ele ter chegado a ser presidente da República... Acho que é algo que provavelmente não se repita mais no Brasil. Não sei se vai ter espaço para pessoas com pouca escolaridade conseguirem o que ele conseguiu. Mas nisso não há demérito nenhum. Na verdade, ele está dando conta do recado, teve sorte de viver um bom momento da economia mundial. Hoje, eu sou realmente um admirador muito profundo dele e isso prova que não é a escolaridade que faz a liderança.

Um dos mais de 30 negócios do seu grupo é o de energia. Como o senhor vê o risco de um apagão no Brasil?
Eu acho que o Brasil precisa de duas coisas: educação e infra-estrutura. Educação, todo mundo sabe que o Brasil precisa. Agora, infra-estrutura... Nós estamos muito amarrados com a questão do Judiciário e do meio ambiente. Nós estamos muito rígidos nesse aspecto. Rígidos e morosos. Acho que falta compreensão ao Judiciário. Porque o apagão é uma situação iminente, está aí, e acho que enquanto não faltar luz nas residências dos juízes e das pessoas que lidam com o meio ambiente eles não vão se conscientizar a respeito de para onde nós estamos indo. Eu falo isso em função de que vejo decisões irresponsáveis que impedem construções de hidrelétricas por coisas que são menos importantes.

Tem havido exagero no dimensionamento do risco ambiental?
Exatamente. Há um exagero. Eu acho que o Judiciário e o pessoal do meio ambiente não se conscientizaram ainda da necessidade de energia que o Brasil tem. A população aumenta, o crescimento econômico está aí e nós vamos ter de olhar o meio ambiente com um pouco mais de racionalidade. Acho que existem muitos exageros. Vários projetos hidrelétricos estão parados em função de radicalismo, tanto de setores ligados ao meio ambiente quanto do Judiciário.

Dê um exemplo, por favor.
Há usinas que já poderiam estar gerando energia, mas tudo pára na interpretação do Judiciário de que, antes, é preciso estudar toda a bacia do rio. Eu acho isso uma besteira, porque, no Brasil, a prática sempre foi construir a usina e estudar a bacia simultaneamente. E nisso lá se vão três ou quatro anos de estudo. E, depois, mais três ou quatro anos de atraso na construção da usina. É por causa de tudo isso que corremos, sim, um risco de apagão. Se nós tivéssemos um acordo entre Judiciário e o setor de meio ambiente, que flexibilizasse as exigências por três ou quatro anos, então se poderia tranqüilizar os brasileiros de que não faltaria energia a médio prazo. Mas o radicalismo nas decisões tem atrasado muito o país. E o Brasil vai pagar muito caro por isso.

Ainda é possível contar com as parcerias público-privadas para financiar as obras de infra-estrutura no Brasil, ou o impasse vai prosseguir?
As PPPs são uma idéia maravilhosa. É a solução para o Brasil. Mas estão restritas a regulamentações muito complicadas, porque existem as PPPs federais, as estaduais, as municipais... e cada uma delas enfrenta hoje o seu problema regulatório. O governo tem boa vontade em executar obras de infra-estrutura e colocar em prática projetos de PPPs, mas com o Judiciário criando problemas, e concedendo liminares absurdas, mesmo sabendo que elas serão cassadas, o país retarda muito o seu desenvolvimento.

O compromisso de melhorar a infra-estrutura até 2014, em razão da Copa do Mundo, não instala no Brasil um senso de urgência e de pragmatismo na superação dessas dificuldades?
Por todos esses problemas que eu mencionei, acho que o governo, por mais boa vontade que tenha, será incompetente para realizar todas as obras e investimentos de que o país necessita. O Judiciário já vai ser um gargalo. Olha a transposição do Rio São Francisco: há quanto tempo o governo está tentando fazer essa obra? Desde o primeiro ano, do primeiro mandato, está se tentando fazer com que os contratos sejam assinados. E lá se vão quantos anos? Cinco anos. Com as obras de infra-estrutura necessárias para a Copa do Mundo, vai ser a mesma coisa. Por outro lado, o que depende dos Estados ou dos clubes de futebol também não deve avançar por falta de recursos financeiros. Eu, sinceramente, não vejo como o Brasil poderá organizar esta Copa do Mundo descentemente. Eu acho que nós vamos realizar uma Copa do Mundo Tupiniquim, tudo mais ou menos resolvido – algumas coisas prontas, outras não. Passaremos algum constrangimento, sem dúvida. Vai ser a Copa do Mundo Tupiniquim.

A crise das hipotecas para a baixa renda nos Estados Unidos tem lições a oferecer ao Brasil num momento em que o crédito deslancha no país – inclusive para as camadas de menos recursos?
Há lições, sim. Lá, o problema foi na área imobiliária. Aqui, vai ser na concessão de crédito para consumo. A partir do momento em que certos bancos começaram a financiar, aqui no Brasil, automóveis com 72 e até 84 meses de prazo, fico preocupado. Essa conta não fecha. Acho que as instituições financeiras têm de tomar muito cuidado. Estão querendo ir com muita sede ao pote, porque não estávamos acostumados com juros baixos num país sem inflação. Tudo bem, isso faz bem ao crédito, mas desde que seja moderado, seja bem instituído. Não se pode querer fazer crédito consignado, com oito anos de prazo para pagar. Essas coisas mais tarde vão dar dor de cabeça.

E os financiamentos imobiliários a 25, 30 anos, também integram esse risco?
No setor imobiliário, esse crédito mais longo se justifica, porque todas as pessoas têm de morar em algum lugar. E o crédito, nesse caso, dá a ela a chance de substituir o aluguel pela prestação da casa própria. O juro baixo e a inflação nos patamares atuais tornaram possível aos brasileiros esse tipo de operação que, antes, era inviável. Os juros eram tão altos que criavam uma situação em que a pessoa pagava durante muitos anos e seu saldo devedor era sempre maior do que quando ela havia comprado a casa.

A euforia do mercado de capitais no Brasil terá continuidade nos próximos anos?
Bom, vivemos uma bolha, sim, mas que não é brasileira. Era uma euforia internacional, um excesso de liquidez. Os fundos de pensões e os administradores de assetts não têm onde colocar o dinheiro. Com os juros baixos na Europa e nos EUA, os países emergentes se tornaram muito atrativos nas possibilidades de ganhos de capital que oferecem. Tudo isso levou a uma enxurrada de dólares aqui, no México, na Índia, na China... Mas eu acho que isso já foi. Irresponsabilidades, exageros, isso não vai acontecer. Eles não vão colocar o dinheiro da forma como colocaram. Veja que não houve no Brasil IPOs de projetos de empresas. Não quero menosprezar, mas imobiliárias! Quem diria que se conseguiria fazer IPO de uma imobiliária? Podemos ficar certos de que o dinheiro não virá com tanta facilidade como veio. Ou, no mínimo, a procura por projetos se dará por um preço mais baixo. Agora, mesmo numa fase de menos liquidez, ainda assim vai faltar projeto no Brasil, principalmente a partir do momento em que o país passar a ser investment grade e atrair recursos dos fundos de pensão. 

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