| É difícil encontrar um
ramo de negócios em que Joel Malucelli não atue
ou, ao menos, não pense em atuar. A bordo de um trator
que resolveu alugar em 1966, aos 19 anos, o ex-feirante e apanhador
de bolinhas no Clube Curitibano começou a desbravar negócios
que deram forma a um conglomerado de 38 empresas. Além
do Paraná Banco, o grupo J. Malucelli controla operações
nas áreas de construção pesada, seguros,
previdência, mercado de capitais, hotelaria, comunicação,
varejo, reflorestamento, saneamento, concessões rodoviárias,
geração de energia, incorporação imobiliária
– e já se lança no ramo de comercialização
de créditos de carbono. ”Sou aquele centroavante
aproveitador”, diz Joel, ao definir, em tom de blague, como
se posiciona no time de masters do J. Malucelli Futebol S.A.,
primeiro clube-empresa do Brasil adaptado à Lei Pelé.
A definição se aplica, claro, ao modo como ele se
move quando troca as chuteiras pelo terno. “Fui pegando
oportunidades ao longo destes 42 anos de trabalho”, explica
Joel, quando convidado a explicar o frenesi com que se atira a
novos negócios. Aos 62 anos, escolheu o sucessor –
o primogênito Alexandre –, mas não sabe quando
entregará a cadeira. “Ainda me sinto muito jovem,
muito bem”, garante. A entrevista a seguir não deixa
dúvidas.
O senhor, que começou a ganhar dinheiro vendendo
chuchu em feira, aprendeu alguma coisa que os MBAs não
ensinam?
Malucelli – Em primeiro lugar, eu não tive como estudar.
Mas acho que, neste início, eu aprendi uma coisa importante:
a forma responsável de tocar os negócios, isso de
sempre dar o passo do tamanho da perna, sem querer visualizar
coisas impossíveis. E, também, de diversificar os
negócios para correr menos riscos. Quando eu fui emancipado
pelos meus pais para fundar minha primeira empresa, a J. Malucelli
Construtora de Obras, eu tinha um trator alugado. Se eu ficasse
somente neste ramo, poderia ser hoje um dos maiores empreiteiros
do Brasil. Mas eu seria só empreiteiro. E este é
um negócio de altíssimo risco porque envolve o serviço
público. Para não ficar exposto ao risco de botar
todos os ovos numa mesma cesta, assim que comecei a ganhar algum
dinheiro como empreiteiro eu abri um segundo negócio, e
depois um terceiro...
Já são mais de 30 empresas. É possível
diversificar tanto os negócios sem perder a eficiência?
Acho que sim, quando se tem determinação e sorte,
como foi o meu caso. Eu sempre quis ter um banco, sempre quis
ter uma seguradora. Mas era algo quase impossível de conseguir.
Quando o Banco Central flexibilizou as regras e substituiu o sistema
de carta-patente por exigências de capital e de idoneidade,
eu fui atrás disso. São oportunidades como essa
que eu fui pegando nestes 42 anos de trabalho. E 42 anos é
um tempo muito longo, dá para você aproveitar muitas
oportunidades, especialmente num país como o Brasil, cheio
de possibilidades.
Sua visão desafia a crença muito difundida
de que o empreendedor deve concentrar seu foco em uma atividade,
sob pena de se perder entre muitos negócios e não
se tornar suficientemente bom em nenhum deles. Sua cartilha, pelo
jeito, é outra...
É outra porque eu vivi um tempo diferente. O cenário
mudou muito de lá para cá. Em primeiro lugar, porque
as oportunidades de hoje são muito mais complexas, mais
difíceis, do que quando eu comecei. Em segundo lugar, porque
você não tinha o curso de Administração,
que era mais ou menos substituído pelo de Ciências
Econômicas, o curso que eu fiz. Então, a forma de
você conduzir os negócios, de você calcular,
de você fazer um plano de gestão, era mais na intuição,
na ponta do lápis. Hoje, quando alguém calcula uma
TIR, taxa interna de retorno, tem à disposição
uma matemática precisa. Antigamente, não existia
isso. Para que se tenha uma idéia, na época em que
comecei não existia nem mesmo um projeto final de engenharia
numa construção de estrada. Começava-se a
construir uma estrada meio pelo olho, direcionando a estrada pelos
eixos, traçando a estrada pela intuição.
Hoje, não. Portanto, eu diria a você que as oportunidades
na época eram muito maiores do que as de agora..
Os empresários de sua geração confiavam
mais em insights do que em planejamento?
Justamente. Porque a minha geração passou por inflação
de 84% ao ano, passou por moratória... O país já
viveu falta de dólares, pacotes econômicos ao ritmo
de um por ano... Era um momento diferente, de muita instabilidade.
Tanto você poderia ganhar e crescer como poderia ir dormir
e no dia seguinte acordar quebrado. Quebrar em uma noite! Foi
nessa instabilidade que eu vivi e foi nela que eu aprendi a tomar
cuidados, a diversificar, a procurar outros ramos, a ver qual
era a oportunidade do momento. Logo que comecei a lucrar com a
construtora, decidi que minha segunda empresa seria uma corretora
de câmbio e valores porque eu queria aplicar o dinheiro
numa instituição minha. Minha terceira empresa foi
uma reflorestadora, porque o imposto de renda na época
poderia ser substituído por certificados de reflorestamento.
E assim fui avançando, numa cadeia de negócios que
fazia sentido. Hoje, com a estabilidade da economia, tudo mudou.
Quando os especialistas, os catedráticos, dizem isso que
você está falando, realmente têm razão
porque as coisas mudaram e hoje em dia têm de ser assim,
mais planejadas.
Nesse caso, o senhor chega aos 62 anos convicto de que
é preciso ser mais técnico e menos intuitivo nas
decisões?
Continuo intuitivo, predominantemente intuitivo – e também
aproveitador de oportunidades. No momento exato em que o consórcio
de automóveis se tornou um bom negócio, nós
entramos nesse ramo. No momento que a gente achou que a concessão
rodoviária era um bom negócio, nós entramos
em concessão rodoviária. No momento em que nós
achamos que concessão de água e esgoto era um bom
negócio, nós entramos nesse negócio. E hoje
estamos entrando seriamente na concessão de lixo, de aterros
sanitários e de energia, com a construção
de hidrelétricas. Isso, para mim, é intuição.
“As PPPs são uma idéia
maravilhosa, a solução para a infra-estrutura
no Brasil. Mas estão restritas a regulamentações
complicadas. (...) Não vejo como organizar esta Copa
no Brasil decentemente. Será a Copa do Mundo Tupiniquim”
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Há casos em que sua intuição deve
falar mais alto que as dúvidas apontadas pelos jovens em
um business plan?
Não. Eu uso a intuição e uso o business
plan. Eles fazem o business plan e eu dou a intuição
para eles. Nós temos no grupo, hoje, mais de 40 engenheiros,
administradores de empresa... Eu faço a intuição
e eles fazem as contas. Toda a análise econômico-financeira
e o cálculo da taxa de retorno é com eles, com esse
colegiado. Agora, as decisões intuitivas permanecem comigo.
No entanto, se o business plan demonstrar que minha suposição
não se sustenta, eu volto atrás. Imediatamente.
Como o senhor conduz o processo de sucessão?
Seus filhos estão se preparando para ser executivos ou
acionistas somente?
Tenho três filhos e três filhas. Como são frutos
de dois casamentos, é uma sucessão complicada. Eu
tento descomplicar ao máximo. Tenho filhos dos 8 aos 40
anos. Todos são sócios. E, com exceção
de dois menores, que só estudam, todos participam do Conselho
e têm funções importantes no grupo. Cada filho
atua em uma área específica. Eles fazem parte do
dia-a-dia das empresas e são quem carrega o piano. Eles
me ajudam a garimpar bons negócios, dão opiniões,
participam das decisões. Eu tive a sorte de ter filhos
competentes e que me dão toda a tranqüilidade. Posso
até pensar em aposentadoria...
Quem vai ser o seu sucessor?
Já fiz minha escolha. O sucessor vai ser o meu filho mais
velho, o Alexandre, que já está extremamente preparado
porque sempre foi o superintendente-geral da J. Malucelli Seguradora,
que hoje é a maior do Brasil em seguro-garantia. Aliás,
esse negócio já foi uma criação dele.
Ele começou a empresa do zero e ali se preparou, profissionalmente,
para assumir os outros negócios. Hoje, ele participa de
um conselho de novos investimentos que temos aqui. Esse conselho
é formado por três pessoas que fazem a primeira garimpagem,
tomam a primeira decisão sobre quais são os negócios
que a gente deve e quais são os que a gente não
deve tocar. Todas as ofertas de parcerias e os novos negócios
passam por eles. Mas, antes, tudo passa por mim. Se eu sinto que
há viabilidade, eu passo para esses três conselheiros
e eles destrincham o assunto, fazem os estudos econômicos,
vêem como vamos participar e com quanto...
E quanto tempo deve durar esse processo até a
passagem do bastão para seu filho?
Eu não tenho isso definido, ainda, porque eu me sinto com
muito vigor. Aos poucos, estou tentando me afastar, mas ainda
me sinto muito jovem. Teoricamente, eu iria até os 70 anos
trabalhando. Mas, trabalhando como estou, não sei se vou
chegar até esta idade.
É hora de aproveitar a vida?
É, mas eu sou muito feliz com o que faço. Eu me
sinto muito bem, tenho um padrão de vida muito legal, muito
simples, jogando futebol três vezes por semana com todos
os diretores. Então, é uma vida bem legal e eu,
com certeza, vou até os 65 sem passar para ele (Alexandre).
São pelo menos mais três anos em que eu vou deixá-lo
ainda mais preparado para assumir todo o grupo.
Como é este futebol semanal com a diretoria?
Nós temos aqui uma turma de primos, diretores do grupo,
etcétera, que joga futebol, todos juntos, desde 79. Todos
os anos, nós fazemos uma excursão para a Europa
e vamos jogar lá. Nós alugamos um ônibus e
ficamos rodando num congraçamento que dura 14 dias. Jogamos
entre sete e oito partidas, viajando de ônibus – só
esta velharada, gente com idade média de 56 anos. Ano retrasado,
fomos para a Inglaterra. Ano passado, fomos para a Itália
– para a Costa Malfitana. O futebol é o nosso congraçamento.
Já disputamos campeonatos aqui da liga de Morretes, que
é uma cidade perto de Curitiba... O nosso lazer é
o futebol.
E qual é a sua posição no campo?
Centroavante. Eu já fiz a conta, tem uma placa comemorativa
aqui... Eu já fiz mais de 7 mil gols. Se você contar
que eu jogo futebol há 57 anos, e que eu fiz pelo menos
quatro gols por semana, você vai ver que vai dar um número
muito próximo de 7 ou 8 mil.
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