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      Edição 239 - Janeiro/Fevereiro de 2008
 

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Como os profissionais de Relações com Investidores devem agir
nos momentos de crise – e ainda tirar proveito das turbulências
para aprimorar os mecanismos de diálogo com o mercado

Adriana Braz e Martha Corazza

Com as bolsas de todo o mundo sob alta pressão por conta da crise do financiamento imobiliário norte-americano, 2008 começou adicionando uma considerável dose de nervosismo aos investidores brasileiros. Na visão dos especialistas, trata-se de um saudável, embora sofrido, rito de passagem da infância para a vida adulta. Na verdade, os agentes estratégicos do mercado – companhias abertas, executivos, conselheiros, analistas, operadores e investidores – ainda trabalham para estimular a formação de poupança por meio do mercado de capitais. E enfrentam, dia a dia, a necessidade de criar, descobrir e aperfeiçoar ferramentas e práticas já adotadas em nações com uma sólida cultura acionária.

Nesse processo de transição, um período de instabilidade ou queda generalizada nas bolsas não contamina apenas as projeções feitas “no mundo real”. Pelo contrário, afeta corações e mentes – dos investidores e dos executivos das empresas. Para as jovens equipes de Relações com Investidores (RI), boa parte delas recém-estruturadas durante o boom de IPOs (ofertas públicas iniciais, na sigla em inglês), as turbulências representam também uma importante chance de aprendizado: como encontrar a melhor forma de gerir o relacionamento com o mercado, de maneira a minimizar a perda de valor das companhias e, passada a crise, acelerar a sua recuperação?

Os especialistas em RI são unânimes em afirmar que não há fórmulas mágicas para “acalmar investidores” – e nem é isso que se espera de uma boa gestão de relacionamento em companhias abertas. Cabe às empresas, isto sim, assegurar a divulgação correta de seus fundamentos, com suficiente consistência para reduzir os efeitos nocivos de rumores, boatos e outros fatores capazes de desequilibrar as “emoções” do mercado. Porém esse não é um procedimento a ser adotado às pressas, em momentos de crises nos mercados, observa Paulo Esteves, consultor da Capital Partners. “O padrão de disclosure deve ser mantido inalterado nos bons e nos maus momentos, até mesmo porque agir de outra maneira poderia indicar algum tipo de oportunismo por parte da empresa”, afirma.

Em períodos de nervosismo, entretanto, é recomendável que a companhia dedique especial atenção e maior didatismo em seu relacionamento com o segmento de pessoas físicas. “Em caso de crise nos mercados, como a que temos vivido, é importante mostrar que a companhia tem uma gestão de risco bem estruturada, conta com ativos intangíveis significativos e está preparada para enfrentar eventuais momentos de adversidade”, explica Esteves. Com bons ativos intangíveis, o papel tende a cair menos e a se recuperar mais rapidamente depois da turbulência. A marca e a imagem corporativa consolidadas fazem parte desse gênero de ativos capazes de favorecer essa travessia.

 

Receituário para qualquer tempo

Algumas práticas que o RI deveria adotar – nos períodos de crises ou na bonança

Assegurar a correta divulgação dos fundamentos da empresa e debater esses indicadores com analistas e investidores

Aprimorar os mecanismos de transparência com o mercado

Dar atenção especial ao segmento de investidores pessoa física

Definir com a diretoria e o Conselho de Administração a forma pela qual a empresa vai se posicionar em qualquer situação, de crise ou não

Ouvir as dúvidas dos investidores, trazê-las para discussão na empresa e providenciar respostas adequadas

Aperfeiçoar os mecanismos de disseminação de informações

Utilizar as ferramentas da internet para eliminar as incertezas geradas por boatos ou rumores do mercado

Utilizar estudos de percepção como ferramenta de gestão de RI

Identificar os medos e angústias dos investidores e focar na cultura de investimento de longo prazo

Participar das reuniões da Apimec para intensificar o debate com os analistas e o contato com a imprensa

 

Tirar o pulso do mercado

De acordo com o consultor da Capital Partners, as crises funcionam também como uma prova de fogo para a área de RI da empresa e para a sua política de comunicação. “Se ela estiver bem alinhada, ou seja, se não tiver prometido no IPO aquilo que não poderia entregar, será mais bem vista pelo mercado, porque nesses momentos o investidor está muito mais sensível a uma eventual ‘não-entrega’ de promessas”, analisa Esteves. Ele levanta a hipótese, inclusive, de que algumas empresas de construção civil tenham prometido demais em seus recentes IPOs. “Em processos de crise, isso fica mais agudo e o mercado certamente irá acelerar a depuração”, projeta.

 

“A transparência funciona nos momentos positivos e negativos. E é preciso ser ainda mais transparente durante as crises, demonstrando que a empresa tem boas práticas de governança”

Heloísa Bedicks
Diretora executiva do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC)

É sabido que o mercado vive de ciclos e não se pode esperar que a economia avance sem enfrentar períodos difíceis, mas raramente os fundamentos de uma companhia mudam em função de crises nas bolsas. Lembrar aos investidores – nos bons e nos maus momentos – quais são esses fundamentos é uma das tarefas primordiais do RI. “Cabe a esses profissionais manter um debate constante com os outros membros da diretoria e do Conselho de Administração para definir como a empresa vai se posicionar, de maneira clara e objetiva, em qualquer situação”, afirma Ricardo Florence, diretor estatutário de RI do grupo Marfrig e vice-presidente executivo do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (IBRI).

Na visão de Florence, é essencial que a área de RI esteja pronta para ouvir quais são as dúvidas do mercado, trazê-las para discussão na empresa e providenciar respostas adequadas. “Essas oscilações nos mercados criam oportunidades para aperfeiçoar a disseminação de informações, o que pode significar até mesmo a eventual divulgação de um fato relevante. Mas é fundamental, sempre, assegurar que a mensagem da empresa seja explicitada de maneira objetiva e transparente, porque o investidor tende a exigir um desconto por aquilo que não conhece”, explica Florence.

No caso dos investidores pessoas físicas, as principais fontes de informação sobre a empresa são os sites de RI, além das informações divulgadas pela mídia. Daí a importância de o profissional de RI utilizar as ferramentas da internet para ter acesso a esses investidores, conhecer suas dúvidas e, sempre que necessário, procurar eliminar as incertezas geradas por boatos ou rumores do mercado. “Atualmente, o site é um excelente instrumento para qualquer companhia assegurar a comunicação com os investidores”, aponta Heloísa Bedicks, diretora executiva do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Seja pela internet ou por meio de outras ferramentas de comunicação, ir direto ao ponto é o único caminho para o sucesso da área de RI, avisa Florence, do IBRI.

 
   
Faria: oportunidade para rever as estratégias de comunicação e levar mais razão ao mercado  
   

Se o investidor individual brasileiro, pouco afeito à bolsa, costuma demonstrar nervosismo durante as crises, os investidores de maior porte não ficam atrás. E, justamente por conta de seu acompanhamento minucioso dos mercados, tendem a demandar maior volume de informações. Esteves, da Capital Partners, lembra que o comportamento do investidor em períodos de inquietação é uma ótima oportunidade de aprendizado para os profissionais de RI. “É aí que entram os estudos de percepção como ferramenta de gestão de RI, para sondar a imagem da companhia no mercado e apurar quais são os ‘drivers’, ou seja, os indicadores que motivam a atitude do investidor. Trata-se de descobrir quem está se desfazendo dos papéis e quais as motivações”, analisa. Para o consultor Valter Faria, da TotalRI, os momentos de crise devem ser aproveitados para “verificar o pulso” do mercado, conhecendo de perto as emoções que afetam o investidor e como ele está convertendo isso em preço. “Com uma estratégia adequada de comunicação, é possível posicionar a empresa e ao mesmo tempo praticar inteligência de mercado para avaliar o que está ocorrendo”, explica.

 

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