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Com as bolsas de todo o mundo sob alta pressão por conta da
crise do financiamento imobiliário norte-americano, 2008 começou
adicionando uma considerável dose de nervosismo aos investidores
brasileiros. Na visão dos especialistas, trata-se de um saudável,
embora sofrido, rito de passagem da infância para a vida adulta.
Na verdade, os agentes estratégicos do mercado – companhias
abertas, executivos, conselheiros, analistas, operadores e investidores
– ainda trabalham para estimular a formação de poupança
por meio do mercado de capitais. E enfrentam, dia a dia, a necessidade
de criar, descobrir e aperfeiçoar ferramentas e práticas
já adotadas em nações com uma sólida cultura
acionária.
Nesse processo de transição, um período de instabilidade
ou queda generalizada nas bolsas não contamina apenas as projeções
feitas “no mundo real”. Pelo contrário, afeta corações
e mentes – dos investidores e dos executivos das empresas. Para
as jovens equipes de Relações com Investidores (RI), boa
parte delas recém-estruturadas durante o boom de IPOs (ofertas
públicas iniciais, na sigla em inglês), as turbulências
representam também uma importante chance de aprendizado: como
encontrar a melhor forma de gerir o relacionamento com o mercado, de
maneira a minimizar a perda de valor das companhias e, passada a crise,
acelerar a sua recuperação?
Os especialistas em RI são unânimes em afirmar que não
há fórmulas mágicas para “acalmar investidores”
– e nem é isso que se espera de uma boa gestão de
relacionamento em companhias abertas. Cabe às empresas, isto
sim, assegurar a divulgação correta de seus fundamentos,
com suficiente consistência para reduzir os efeitos nocivos de
rumores, boatos e outros fatores capazes de desequilibrar as “emoções”
do mercado. Porém esse não é um procedimento a
ser adotado às pressas, em momentos de crises nos mercados, observa
Paulo Esteves, consultor da Capital Partners. “O padrão
de disclosure deve ser mantido inalterado nos bons e nos maus
momentos, até mesmo porque agir de outra maneira poderia indicar
algum tipo de oportunismo por parte da empresa”, afirma.
Em períodos de nervosismo, entretanto, é recomendável
que a companhia dedique especial atenção e maior didatismo
em seu relacionamento com o segmento de pessoas físicas. “Em
caso de crise nos mercados, como a que temos vivido, é importante
mostrar que a companhia tem uma gestão de risco bem estruturada,
conta com ativos intangíveis significativos e está preparada
para enfrentar eventuais momentos de adversidade”, explica Esteves.
Com bons ativos intangíveis, o papel tende a cair menos e a se
recuperar mais rapidamente depois da turbulência. A marca e a
imagem corporativa consolidadas fazem parte desse gênero de ativos
capazes de favorecer essa travessia.
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Receituário
para qualquer tempo |
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Algumas práticas
que o RI deveria adotar – nos períodos de crises ou
na bonança
• Assegurar a correta divulgação
dos fundamentos da empresa e debater esses indicadores com analistas
e investidores
• Aprimorar os mecanismos de
transparência com o mercado
• Dar atenção
especial ao segmento de investidores pessoa física
• Definir com a diretoria e
o Conselho de Administração a forma pela qual a empresa
vai se posicionar em qualquer situação, de crise ou
não
• Ouvir as dúvidas dos
investidores, trazê-las para discussão na empresa e
providenciar respostas adequadas
• Aperfeiçoar os mecanismos
de disseminação de informações
• Utilizar as ferramentas da
internet para eliminar as incertezas geradas por boatos ou rumores
do mercado
• Utilizar estudos de percepção
como ferramenta de gestão de RI
• Identificar os medos e angústias
dos investidores e focar na cultura de investimento de longo prazo
• Participar das reuniões
da Apimec para intensificar o debate com os analistas e o contato
com a imprensa
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Tirar o pulso do mercado
De acordo com o consultor da Capital Partners, as crises funcionam
também como uma prova de fogo para a área de RI da empresa
e para a sua política de comunicação. “Se
ela estiver bem alinhada, ou seja, se não tiver prometido no
IPO aquilo que não poderia entregar, será mais bem vista
pelo mercado, porque nesses momentos o investidor está muito
mais sensível a uma eventual ‘não-entrega’
de promessas”, analisa Esteves. Ele levanta a hipótese,
inclusive, de que algumas empresas de construção civil
tenham prometido demais em seus recentes IPOs. “Em processos de
crise, isso fica mais agudo e o mercado certamente irá acelerar
a depuração”, projeta.
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“A transparência
funciona nos momentos positivos e negativos. E é preciso ser
ainda mais transparente durante as crises, demonstrando que a empresa
tem boas práticas de governança”
Heloísa Bedicks
Diretora executiva do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa
(IBGC) |
É sabido que o mercado vive de ciclos e não se pode
esperar que a economia avance sem enfrentar períodos difíceis,
mas raramente os fundamentos de uma companhia mudam em função
de crises nas bolsas. Lembrar aos investidores – nos bons e nos
maus momentos – quais são esses fundamentos é uma
das tarefas primordiais do RI. “Cabe a esses profissionais manter
um debate constante com os outros membros da diretoria e do Conselho
de Administração para definir como a empresa vai se posicionar,
de maneira clara e objetiva, em qualquer situação”,
afirma Ricardo Florence, diretor estatutário de RI do grupo Marfrig
e vice-presidente executivo do Instituto Brasileiro de Relações
com Investidores (IBRI).
Na visão de Florence, é essencial que a área
de RI esteja pronta para ouvir quais são as dúvidas do
mercado, trazê-las para discussão na empresa e providenciar
respostas adequadas. “Essas oscilações nos mercados
criam oportunidades para aperfeiçoar a disseminação
de informações, o que pode significar até mesmo
a eventual divulgação de um fato relevante. Mas é
fundamental, sempre, assegurar que a mensagem da empresa seja explicitada
de maneira objetiva e transparente, porque o investidor tende a exigir
um desconto por aquilo que não conhece”, explica Florence.
No caso dos investidores pessoas físicas, as principais fontes
de informação sobre a empresa são os sites
de RI, além das informações divulgadas pela mídia.
Daí a importância de o profissional de RI utilizar as ferramentas
da internet para ter acesso a esses investidores, conhecer suas dúvidas
e, sempre que necessário, procurar eliminar as incertezas geradas
por boatos ou rumores do mercado. “Atualmente, o site
é um excelente instrumento para qualquer companhia assegurar
a comunicação com os investidores”, aponta Heloísa
Bedicks, diretora executiva do Instituto Brasileiro de Governança
Corporativa (IBGC). Seja pela internet ou por meio de outras ferramentas
de comunicação, ir direto ao ponto é o único
caminho para o sucesso da área de RI, avisa Florence, do IBRI.
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| Faria: oportunidade para rever as estratégias
de comunicação e levar mais razão ao mercado |
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Se o investidor individual brasileiro, pouco afeito à bolsa,
costuma demonstrar nervosismo durante as crises, os investidores de
maior porte não ficam atrás. E, justamente por conta de
seu acompanhamento minucioso dos mercados, tendem a demandar maior volume
de informações. Esteves, da Capital Partners, lembra que
o comportamento do investidor em períodos de inquietação
é uma ótima oportunidade de aprendizado para os profissionais
de RI. “É aí que entram os estudos de percepção
como ferramenta de gestão de RI, para sondar a imagem da companhia
no mercado e apurar quais são os ‘drivers’, ou seja,
os indicadores que motivam a atitude do investidor. Trata-se de descobrir
quem está se desfazendo dos papéis e quais as motivações”,
analisa. Para o consultor Valter Faria, da TotalRI, os momentos de crise
devem ser aproveitados para “verificar o pulso” do mercado,
conhecendo de perto as emoções que afetam o investidor
e como ele está convertendo isso em preço. “Com
uma estratégia adequada de comunicação, é
possível posicionar a empresa e ao mesmo tempo praticar inteligência
de mercado para avaliar o que está ocorrendo”, explica.
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