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      Edição 238 - Dezembro de 2007
 

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Horácio Lafer Piva
Presidente do conselho deliberativo da Bracelpa

Diante de um quadro em que vê o governo acomodado e os
brasileiros complacentes e conformados, o ex-presidente da fiesp diz que já passou da hora de o brasil definir
“o que quer ser quando crescer”

 
Simone Fernandes

O homem que presidiu a Fiesp, de 1998 a 2004 e, também, o Conselho de Política Econômica da CNI anda impaciente. Aos jornalistas que foram ouvi-lo no encontro com a imprensa, promovido pela Associação Brasileira de Papel e Celulose (Bracelpa), entidade na qual atua como presidente do conselho deliberativo, Horácio Lafer Piva expressou sua preocupação com a velocidade com que o país avança. “Eu quero expressar meu otimismo cuidadoso. Tenho uma visão positiva, mas acho que corremos com muito peso nas costas – e por isso corremos menos que os outros”, fulminou Piva, com uma advertência sobre o ritmo cadenciado das reformas. “O Brasil vai pagar por muito tempo o preço do que não fez.” Membro do conselho de administração de empresas como Klabin e Redecard, e presidente do conselho consultivo da Semco, Piva não defende avanços apenas em questões que dependem de governo. Ao final da entrevista exclusiva que concedeu à repórter Simone Fernandes, de AMANHÃ, ele respondeu afirmativamente a uma pergunta sobre a importância da atuação das entidades empresariais, mas deixou um ponto para reflexão. “Eu tenho um pouco de dúvida sobre se precisamos dessa multiplicidade de representações empresariais.”

Qual a sua opinião sobre o atual ritmo de crescimento do Brasil?
Não estamos descolados do resto do mundo. Boa parte desse nosso sucesso recente tem se dado exatamente porque o mundo, de uma maneira geral, cresceu, de forma que é quase uma conseqüência. Na minha opinião, e é uma opinião crítica, nós não soubemos aproveitar esse crescimento da forma como deveríamos. Em primeiro lugar, porque ele poderia ser um pouco maior, desde que nós nos livrássemos de boa parte dos gargalos que a economia brasileira carrega. E em segundo lugar, porque eu acho que o Brasil já sabe há muito tempo o que é que tem de fazer. Quer dizer, o Brasil há muito tempo tem diagnósticos muito claros, mas por uma certa complacência da sociedade brasileira, por uma certa falta de atitude, ela não tem exigido do governo. Nós hoje somos muito mais prisioneiros do governo do que temos um Estado à nossa disposição, como deveria ser.

Como deve se comportar a economia mundial?
Estamos passando por um momento muito interessante. O mundo vem de uma bolha de excessos imensos. O que aconteceu nesses últimos anos, basicamente, foi uma alavancagem excessiva. Nós vimos americanos comprando casas não para morar, mas para, na verdade, revender. Isso acabou em algum momento tendo um problema. O mercado se assustou muito porque não sabia se isso era uma crise de liquidez ou de solvência. Acabou se percebendo que era uma crise de liquidez, razão pela qual os bancos centrais têm feito injeções de recursos. Até porque eles, de alguma forma, são cúmplices dessa situação, porque eles é que deveriam ter verificado qual era o tamanho do risco dos subprimes. Agora, nós tivemos ao mesmo tempo a comprovação de uma coisa muito interessante, que é o fato de que os pólos de crescimento da economia aumentaram. Você não depende mais da economia americana apenas. Existe uma série de outros atores e isso ajudou a mitigar os problemas que uma crise dessa natureza poderia causar. Por isso eu acho que nós não estamos diante de um colapso, mas de um ajuste.

Como assim?
Nós vamos ter mudanças, vamos ter o joio separado do trigo. O mundo de alguma maneira vai continuar próspero, o consumo vai continuar crescendo e o Brasil está estruturalmente em ordem. Eu acho que as empresas brasileiras estão sustentando o crescimento. O Brasil tem conseguido gerar crédito para famílias que têm um potencial de consumo muito grande. E mesmo o cenário externo do Brasil continua em ordem. É verdade que vamos ter este ano de diminuição de saldo de balança – porque esse câmbio torna difícil exportar e muito fácil importar. Mas nós vamos ter uma compensação com fluxos financeiros, porque continuará a haver aporte de recursos para investimentos aqui dentro do Brasil. Além de tudo, todos estão falando que 2008 é um ano de investment grade. Então, eu acho que nós temos boas oportunidades pela frente. Volto, porém, a dizer: poderiam ser mais bem aproveitadas.

Por quanto tempo o Brasil pode sustentar um crescimento em torno de 5%?
O Brasil cresce ainda por dois ou três anos e então vai acabar tendo um freio de arrumação, se alguma coisa não for feita. Se o país não avançar na reforma tributária e não cuidar da infra-estrutura – e aqui eu coloco esse importantíssimo tema da energia –, vamos começar a ter problemas. Eu acho que 2010 é um ano crucial para esse assunto da energia. Significa que vai faltar energia? Não, não haverá um apagão, mas nós deveremos ter um reflexo no custo da energia, o que vai tirar muita competitividade do produto brasileiro. Então, o Brasil tem condições de ter crescimento sustentado desde que faça muito daquilo que precisa fazer e não sei se o país está disposto e preparado para isso. A iniciativa privada se mostra muito aflita para investir, mas estamos vendo o governo muito acomodado. O Brasil está, sim, melhorando – veja-se a incorporação de camadas mais pobres ao mercado de consumo. Só que isso é pouco para o Brasil. Não podemos nos contentar. Este é um país fadado a progressos muito maiores.

Qual sua opinião sobre a proposta de reforma tributária em tramitação?
Eu sempre lutei muito pela reforma tributária. Ela é fundamental. No Brasil, vivemos uma absoluta babel tributária, enfim, uma distorção completa do pacto federativo, uma barafunda com impostos de péssima qualidade que apenas nos puxam para trás. Eu acho que vem aí uma reforma que vai exigir, em primeiro lugar, um tanto de desprendimento dos agentes econômicos. Como sempre se diz, o diabo mora nos detalhes. E todos – governo, comércio, indústria, serviços – tendem a perder um pouquinho num primeiro momento. Isso é inevitável. Mas todos ganham bem mais, a longo prazo, com a reforma.

“Nós nos conformamos muito com o possível e ficamos sendo ultrapassados por todos aqueles que fazem o impossível.
Como a China”

O que há de bom na reforma?
Eu não acho ruim essa idéia do IVA estadual. Eu ainda estou tentando entender como vai funcionar o ISS – se vai se manter como agora o governo está dizendo. Eu acho que a idéia do IVV, do imposto sobre o varejo, é complicada, porque de alguma forma cria um risco alto de sonegação. Ela vai acabar recaindo sobre o grande comércio, porque os pequenos vão estar todos no Super Simples e eu acho que isso não vai compensar a perda de ISS. Então, não sei muito bem se o governo está a fim de bancar essa diferença. No fundo, eu acho que vamos estar melhor, pois de alguma forma se diminui o custo para as empresas e para a sociedade. Mas ainda não é uma reforma tributária totalmente esclarecida. E é uma reforma tributária mais tímida do que se poderia fazer.

Para o governo, é a reforma possível.
Pois é, mas eu estou um pouco cansado dessa história do possível. Eu sei que o ótimo é inimigo do bom, mas volto àquela questão da complacência da sociedade brasileira. Nós todos nos conformamos muito com o possível e com isso nós ficamos sendo ultrapassados por todos aqueles que fazem o impossível. A China era o gigante adormecido, impossível em algum momento de acordar. E acordou... Eu acho que o governo tem boas cabeças, tem gente se esforçando, mas eu acho que falta capacidade de montar um plano que seja inteligível para a sociedade brasileira, uma definição clara do que é que o Brasil quer ser quando crescer. Quer ser importador, exportador? Quer ter ênfase no comércio, na indústria, nos serviços? O que o Brasil quer ser exatamente? E quanto é que o governo está colocando de energia numa definição que tenha essa dimensão maior?

 

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