| O homem que presidiu a Fiesp, de 1998
a 2004 e, também, o Conselho de Política Econômica
da CNI anda impaciente. Aos jornalistas que foram ouvi-lo no encontro
com a imprensa, promovido pela Associação Brasileira
de Papel e Celulose (Bracelpa), entidade na qual atua como presidente
do conselho deliberativo, Horácio Lafer Piva expressou
sua preocupação com a velocidade com que o país
avança. “Eu quero expressar meu otimismo cuidadoso.
Tenho uma visão positiva, mas acho que corremos com muito
peso nas costas – e por isso corremos menos que os outros”,
fulminou Piva, com uma advertência sobre o ritmo cadenciado
das reformas. “O Brasil vai pagar por muito tempo o preço
do que não fez.” Membro do conselho de administração
de empresas como Klabin e Redecard, e presidente do conselho consultivo
da Semco, Piva não defende avanços apenas em questões
que dependem de governo. Ao final da entrevista exclusiva que
concedeu à repórter Simone Fernandes, de AMANHÃ,
ele respondeu afirmativamente a uma pergunta sobre a importância
da atuação das entidades empresariais, mas deixou
um ponto para reflexão. “Eu tenho um pouco de dúvida
sobre se precisamos dessa multiplicidade de representações
empresariais.”
Qual a sua opinião sobre o atual ritmo de crescimento
do Brasil?
Não estamos descolados do resto do mundo. Boa parte desse
nosso sucesso recente tem se dado exatamente porque o mundo, de
uma maneira geral, cresceu, de forma que é quase uma conseqüência.
Na minha opinião, e é uma opinião crítica,
nós não soubemos aproveitar esse crescimento da
forma como deveríamos. Em primeiro lugar, porque ele poderia
ser um pouco maior, desde que nós nos livrássemos
de boa parte dos gargalos que a economia brasileira carrega. E
em segundo lugar, porque eu acho que o Brasil já sabe há
muito tempo o que é que tem de fazer. Quer dizer, o Brasil
há muito tempo tem diagnósticos muito claros, mas
por uma certa complacência da sociedade brasileira, por
uma certa falta de atitude, ela não tem exigido do governo.
Nós hoje somos muito mais prisioneiros do governo do que
temos um Estado à nossa disposição, como
deveria ser.
Como deve se comportar a economia mundial?
Estamos passando por um momento muito interessante. O mundo vem
de uma bolha de excessos imensos. O que aconteceu nesses últimos
anos, basicamente, foi uma alavancagem excessiva. Nós vimos
americanos comprando casas não para morar, mas para, na
verdade, revender. Isso acabou em algum momento tendo um problema.
O mercado se assustou muito porque não sabia se isso era
uma crise de liquidez ou de solvência. Acabou se percebendo
que era uma crise de liquidez, razão pela qual os bancos
centrais têm feito injeções de recursos. Até
porque eles, de alguma forma, são cúmplices dessa
situação, porque eles é que deveriam ter
verificado qual era o tamanho do risco dos subprimes.
Agora, nós tivemos ao mesmo tempo a comprovação
de uma coisa muito interessante, que é o fato de que os
pólos de crescimento da economia aumentaram. Você
não depende mais da economia americana apenas. Existe uma
série de outros atores e isso ajudou a mitigar os problemas
que uma crise dessa natureza poderia causar. Por isso eu acho
que nós não estamos diante de um colapso, mas de
um ajuste.
Como assim?
Nós vamos ter mudanças, vamos ter o joio separado
do trigo. O mundo de alguma maneira vai continuar próspero,
o consumo vai continuar crescendo e o Brasil está estruturalmente
em ordem. Eu acho que as empresas brasileiras estão sustentando
o crescimento. O Brasil tem conseguido gerar crédito para
famílias que têm um potencial de consumo muito grande.
E mesmo o cenário externo do Brasil continua em ordem.
É verdade que vamos ter este ano de diminuição
de saldo de balança – porque esse câmbio torna
difícil exportar e muito fácil importar. Mas nós
vamos ter uma compensação com fluxos financeiros,
porque continuará a haver aporte de recursos para investimentos
aqui dentro do Brasil. Além de tudo, todos estão
falando que 2008 é um ano de investment grade.
Então, eu acho que nós temos boas oportunidades
pela frente. Volto, porém, a dizer: poderiam ser mais bem
aproveitadas.
Por quanto tempo o Brasil pode sustentar um crescimento
em torno de 5%?
O Brasil cresce ainda por dois ou três anos e então
vai acabar tendo um freio de arrumação, se alguma
coisa não for feita. Se o país não avançar
na reforma tributária e não cuidar da infra-estrutura
– e aqui eu coloco esse importantíssimo tema da energia
–, vamos começar a ter problemas. Eu acho que 2010
é um ano crucial para esse assunto da energia. Significa
que vai faltar energia? Não, não haverá um
apagão, mas nós deveremos ter um reflexo no custo
da energia, o que vai tirar muita competitividade do produto brasileiro.
Então, o Brasil tem condições de ter crescimento
sustentado desde que faça muito daquilo que precisa fazer
e não sei se o país está disposto e preparado
para isso. A iniciativa privada se mostra muito aflita para investir,
mas estamos vendo o governo muito acomodado. O Brasil está,
sim, melhorando – veja-se a incorporação de
camadas mais pobres ao mercado de consumo. Só que isso
é pouco para o Brasil. Não podemos nos contentar.
Este é um país fadado a progressos muito maiores.
Qual sua opinião sobre a proposta de reforma
tributária em tramitação?
Eu sempre lutei muito pela reforma tributária. Ela é
fundamental. No Brasil, vivemos uma absoluta babel tributária,
enfim, uma distorção completa do pacto federativo,
uma barafunda com impostos de péssima qualidade que apenas
nos puxam para trás. Eu acho que vem aí uma reforma
que vai exigir, em primeiro lugar, um tanto de desprendimento
dos agentes econômicos. Como sempre se diz, o diabo mora
nos detalhes. E todos – governo, comércio, indústria,
serviços – tendem a perder um pouquinho num primeiro
momento. Isso é inevitável. Mas todos ganham bem
mais, a longo prazo, com a reforma.
“Nós nos conformamos
muito com o possível e ficamos sendo ultrapassados
por todos aqueles que fazem o impossível.
Como a China”
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O que há de bom na reforma?
Eu não acho ruim essa idéia do IVA estadual. Eu
ainda estou tentando entender como vai funcionar o ISS –
se vai se manter como agora o governo está dizendo. Eu
acho que a idéia do IVV, do imposto sobre o varejo, é
complicada, porque de alguma forma cria um risco alto de sonegação.
Ela vai acabar recaindo sobre o grande comércio, porque
os pequenos vão estar todos no Super Simples e eu acho
que isso não vai compensar a perda de ISS. Então,
não sei muito bem se o governo está a fim de bancar
essa diferença. No fundo, eu acho que vamos estar melhor,
pois de alguma forma se diminui o custo para as empresas e para
a sociedade. Mas ainda não é uma reforma tributária
totalmente esclarecida. E é uma reforma tributária
mais tímida do que se poderia fazer.
Para o governo, é a reforma possível.
Pois é, mas eu estou um pouco cansado dessa história
do possível. Eu sei que o ótimo é inimigo
do bom, mas volto àquela questão da complacência
da sociedade brasileira. Nós todos nos conformamos muito
com o possível e com isso nós ficamos sendo ultrapassados
por todos aqueles que fazem o impossível. A China era o
gigante adormecido, impossível em algum momento de acordar.
E acordou... Eu acho que o governo tem boas cabeças, tem
gente se esforçando, mas eu acho que falta capacidade de
montar um plano que seja inteligível para a sociedade brasileira,
uma definição clara do que é que o Brasil
quer ser quando crescer. Quer ser importador, exportador? Quer
ter ênfase no comércio, na indústria, nos
serviços? O que o Brasil quer ser exatamente? E quanto
é que o governo está colocando de energia numa definição
que tenha essa dimensão maior?
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