Mais
serviços
A construção de arenas com capacidade
superior a 70 mil pessoas em cidades onde não há
público pagante suficiente é uma das mais graves
distorções dos novos projetos, concordam os analistas.
Tome-se o caso do Grêmio e do Internacional, que projetam
modernos estádios com capacidades de até 60 mil
torcedores. No entanto, nenhum dos dois ultrapassa a média
de 20 mil pagantes durante o Campeonato Brasileiro 2007 –
isso que os dois clubes têm as maiores presenças
de público na Região Sul. “Os novos estádios
e arenas terão ocupação durante 30 dias por
ano, no máximo. E no resto do tempo?”, questiona
Somoggi.
Num discurso quase uníssono, os dirigentes
garantem que os novos projetos virão acompanhados de estruturas
comerciais, de serviços e eventos que vão garantir
a viabilidade dos empreendimentos. Enquanto o Internacional já
idealizou a construção de um hotel e de um centro
de eventos no entorno do Beira-Rio, o Grêmio estuda quatro
diferentes propostas de investidores para sua arena multisserviços.
O clube deve escolher, até o final de outubro, o projeto
que considera mais viável.
De acordo com Robert Alvarez, especialista em
marketing esportivo, a estratégia de atrelar a oferta de
serviços e opções de lazer aos estádios
está correta. “É preciso reposicionar o produto
futebol e levar para os estádios um tipo de público
com mais dinheiro para gastar e, com isso, obter as receitas para
bancar os investimentos.” Segundo ele, além de não
garantir a ocupação do estádio, o público
com menor poder aquisitivo não remunera os clubes devidamente.
Nas contas de Alvarez, com o público médio registrado
nos últimos anos e o tíquete médio cobrado
pelos clubes, o investimento em um estádio com 50 mil lugares
demoraria cerca de 20 anos para se pagar. Por outro lado, com
a atração de pessoas com poder aquisitivo elevado
– hoje voltadas para outras atividades de lazer –,
os clubes poderiam ter um retorno maior com a venda de publicidade
e patrocínios, inclusive para aquelas empresas que hoje
não têm suas marcas ou produtos ligados ao esporte.
Com visão antagônica, o pesquisador
Seitz acredita que em países como o Brasil não há
tanta gente de alto poder aquisitivo interessada em freqüentar
e gastar mais dinheiro nos estádios de futebol. “Em
geral, as pessoas de maior renda preferem outras formas de lazer.
E isso é cultural, não vai mudar tão facilmente”,
afirma Seitz. Segundo o pesquisador, por questões históricas,
o brasileiro desenvolveu a paixão pelo futebol, gosta de
assistir aos jogos e comentá-los, mas não vê
nisso uma atividade na qual devesse gastar mais dinheiro.
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Beira-Rio
Internacional (Porto Alegre)
Projeto: cobertura do estádio, ampliação
da capacidade para 60 mil lugares e construção
de complexo com hotel de luxo, centro de eventos, shopping center
e museu do clube
Investimento: de R$ 55 milhões a R$
60 milhões
Prazo de conclusão: até 2009,
no centenário do clube, para as obras no estádio
e até a Copa de 2014 para o restante do complexo de serviços |
Modelo
europeu
O caso da Kyocera Arena é emblemático.
Mesmo com uma infra-estrutura de comércio e serviços,
o estádio registra média inferior a 10 mil pagantes
no campeonato brasileiro deste ano. Mas o baixo comparecimento
não freou os planos do Atlético Paranaense, que
pretende ampliar a capacidade da arena dos atuais 25 mil para
41 mil lugares. “Com uma estrutura maior será possível
atrair novos patrocinadores. Também pretendemos utilizar
mais o local para outros eventos, como shows, por exemplo”,
diz Mauro Holzmann, diretor de marketing do clube. Segundo ele,
o Brasil ainda precisa desenvolver uma cultura de entretenimento
ligada aos centros esportivos.
O modelo de estádios que agregam centros
de comércio e serviços já é adotado
com sucesso por clubes europeus. O Manchester United, da Inglaterra,
por exemplo, arrecadou 102 milhões de euros em 2005 entre
ingressos, carnês antecipados e venda de produtos no estádio.
Outro exemplo é o do espanhol Real Madrid. Apesar de amargar
um período difícil dentro de campo, desde 2003,
o Real Madrid lidera o ranking da Delloite entre os clubes com
maior faturamento do mundo: 292,2 milhões de euros, em
2006.
No caso brasileiro, o desafio é encontrar
formas de viabilizar os novos projetos, já que muitos dos
clubes estão endividados e dependem de investidores dispostos
a bancar os investimentos. Sem falar que o histórico recente
das parcerias com grupos privados não é muito animador.
Tanto a parceria feita pelo Grêmio, em 2001, com a ISL –
na época, a maior empresa de marketing esportivo do mundo
– quanto a do Corinthians com a MSI (feita em 2004) resultaram
em graves dificuldades financeiras para os dois clubes. O acordo
Corinthians–MSI terminou nas páginas policiais, depois
que grampos telefônicos autorizados pela Justiça
Federal revelaram o envolvimento do presidente do clube, Alberto
Dualibi, e executivos da MSI em ações fraudulentas
de desvio de dinheiro. Resultado: o clube acumula dívidas
de R$ 74 milhões – que talvez cheguem aos R$ 100
milhões – e os dirigentes ainda terão de enfrentar
a Justiça.
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Orlando
Scarpelli
Figueirense (Florianópolis)
Projeto: reforma e ampliação
do estádio para 40 mil lugares, além de áreas
para a instalação de lojas, escritórios,
cinemas
e um centro de convenções
Investimento: de R$ 180 milhões a R$
200 milhões
Prazo de conclusão: 2010 |
Parcerias
sólidas
“Na teoria, ISL, Parmalat, MSI e Hicks Muse
vieram para gerir os clubes. Na prática, funcionaram apenas
como bons intermediadores na compra e venda de jogadores”,
afirma Somoggi, da Casual Auditores. Ele ressalta que os próprios
clubes devem se estruturar e buscar empresas dispostas a investir
nos projetos por meio de parcerias sólidas e com gestão
eficiente. No caso gaúcho, as opções dos
dois principais clubes são diferentes. Enquanto o Internacional
pretende usar recursos próprios na reforma do Beira-Rio
– que vai custar cerca de R$ 60 milhões –,
o Grêmio busca um investidor para bancar pelo menos uma
parte dos R$ 500 milhões necessários para colocar
de pé a nova arena.
Um caso exemplar de boa gestão de empreendimento
esportivo é aplicado na arena do Grêmio Barueri,
na Grande São Paulo. O clube local, cujo time atua no futebol
profissional há apenas seis anos, é administrado
por uma ONG, que trabalha em parceria com a prefeitura. Além
do estádio, a gigantesca estrutura do clube é formada
por nove campos para a prática do futebol e 14 ginásios
para esportes de quadra, atendendo a várias modalidades
esportivas. No início, o município mantinha o clube
com recursos públicos, mas atualmente as cotas de TV, patrocínios,
vendas de ingressos e comércio de produtos licenciados
garantem a sustentação de toda a infra-estrutura
e o financiamento do time principal de futebol.
Hoje, a prefeitura só injeta recursos para
sustentar o trabalho social feito pela ONG com mais de 10 mil
crianças. Além disso, há forte estímulo
à doação de recursos por parte da comunidade.
Desse modo, o Barueri, que sequer tinha time profissional, já
briga pelo acesso à série A do campeonato brasileiro.
Mais: a equipe possui a sexta melhor média de público
da série B – resultado da boa inserção
do clube na comunidade. Um exemplo de que uma gestão eficiente
faz a diferença para clubes, grandes ou pequenos. E pode
trazer bons resultados dentro e fora do campo.
Arena
do Grêmio
(Porto Alegre)
Projeto: construção de um novo
estádio com capacidade para 50 mil lugares e estrutura
de comércio e serviços no entorno. O clube ainda
estuda a melhor entre quatro propostas apresentadas por investidores
Investimento: cerca de R$ 500 milhões Prazo
de conclusão: 2010 |
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