Voltar para página inicial
      Edição 236 - Outubro de 2007
 

    Matéria de Capa
    Especial
    Entrevista
Capa da edição



 
Quer receber notícias exclusivas da revista Amanhã?

(digite seu email)

 
Imprima esta matéria Dê sua opinião Indique este texto

A chance de hospedar jogos da copa leva os clubes a
projetar estádios luxuosos. A questão é saber se
esses megaprojetos fazem sentido como negócio


Tércio Saccol

No dia 30 de outubro, a Fifa vai anunciar se o Brasil terá condições de sediar o maior evento futebolístico do mundo em 2014. Mesmo sem a confirmação oficial, já começou a corrida para sediar algumas das partidas da Copa. Na disputa pelos holofotes, alguns clubes brasileiros deram o pontapé inicial para remodelar ou construir novos e modernos estádios de futebol. Propostas de empreendimentos grandiosos, quase sempre ornamentados com promessas de apoio do poder público ou polpudos investimentos privados, surgem do Acre ao Rio Grande do Sul – até mesmo em cidades sem tradição de grandes clubes de futebol, como Brasília ou Campo Grande (MS). Mas os especialistas em gestão de esporte e analistas de futebol não compartilham do entusiasmo dos torcedores, dirigentes, políticos e governantes. Com base no histórico de falta de profissionalismo e de má gestão na maioria dos clubes, os especialistas temem que esses novos projetos possam se transformar em elefantes brancos, sem viabilidade econômico-financeira – e o prejuízo, claro, acabar no colo dos contribuintes.

Na Região Sul, que abriga seis dos 20 clubes da primeira divisão do futebol brasileiro, existem cinco propostas de remodelação ou construção de novos empreendimentos. No Paraná, o mais moderno estádio do país, a Kyocera Arena (conhecido como Arena da Baixada), do Clube Atlético Paranaense, foi o primeiro a se candidatar a sediar a Copa. Mas o rival Coritiba pretende construir, em parceria com investidores privados, uma “arena multieventos totalmente coberta, que será a mais moderna do Brasil”, segundo o presidente do clube, Giovani Gionédis. Em Santa Catarina, o Figueirense também projeta reformular o estádio Orlando Scarpelli para atender às exigências da Fifa e, assim, poder sediar os jogos da Copa. No Rio Grande do Sul, o candidato oficial é o estádio Beira-Rio, do Internacional, que passará por reformas. Mas o arqui-rival, Grêmio, não quer ficar para trás e está prestes a tirar da gaveta o projeto de uma moderna arena que seria construída ao custo de R$ 500 milhões, em parceria com investidores internacionais.

“Esse boom de novos estádios e arenas não condiz com a realidade social e econômica do país e pode gerar verdadeiros elefantes brancos que vão pesar sobre os cofres públicos e onerar o contribuinte”, critica Oliver Seitz, pesquisador do Grupo de Indústria do Futebol da Universidade de Liverpool (Inglaterra). Para Seitz, que é paranaense, os clubes e o poder público brasileiro se espelham nos mundiais da Alemanha e do Japão/Coréia, que não poderiam ser tomados como parâmetros para a organização de uma Copa no Brasil.


O jornalista Juca Kfouri, que atua há mais de 30 anos na crônica esportiva, também reprova a euforia em torno de megaempreendimentos. “É óbvio que precisamos de estádios melhores, mas o Brasil deveria organizar a Copa de acordo com o tamanho de suas pernas. Pensar em construir 12 novos estádios e bancá-los com dinheiro público é um absurdo”, dispara Kfouri.
De fato, para sair do papel, vários desses empreendimentos em gestação dependem de recursos públicos ou até mesmo da gestão direta por parte dos governos estaduais ou municipais. É o caso da reforma do Maracanã, da ampliação da capacidade para 77 mil pessoas do estádio Mané Garrincha, em Brasília, e da construção da nova arena Recife/Olinda com 45 mil lugares. Os três locais são cogitados pela Fifa para sediar os jogos da Copa.

Kyocera Arena
Atlético Paranaense (Curitiba)

Projeto: ampliação da capacidade do estádio de 25 mil para 41 mil lugares e aumento dos espaços para comércio e serviços
Investimento: R$ 30 milhões
Prazo de conclusão: indefinidoo

 

Falta gestão

Amir Somoggi, consultor e professor de Marketing e Gestão no Esporte, também não considera adequada a estrutura planejada para 2014. Mas admite que o evento pode ser uma oportunidade para os clubes solucionarem, mesmo que parcialmente, tanto os problemas financeiros quanto as distorções na gestão. “Só que os dirigentes precisam rever todos os seus pressupostos sobre gestão, administração do patrimônio e marketing”, alfineta Somoggi.

A má gestão é um dos problemas mais antigos, e sérios, dos grandes clubes de futebol brasileiros. Juntas, as 80 principais organizações devem cerca de R$ 900 milhões. Foi para tentar salvá-las da bancarrota que o governo federal criou a Timemania. Com os recursos da nova loteria, os clubes poderão saldar as dívidas com o fisco e com o FGTS. E retomar os investimentos.

Levantamento feito pela Casual Auditores, empresa de Somoggi, revelou que a realidade financeira dos clubes não dá margem nem sequer para pensar, muito menos para executar megaempreendimentos. No conjunto, as 21 equipes mais ricas do país tiveram um déficit de R$ 229,3 milhões em 2006. Se forem excluídas as receitas de negociação de atletas, o déficit salta para R$ 415,4 milhões. A negociação de jogadores responde por 23% do total das receitas desses 21 clubes, atrás apenas das cotas de transmissão dos jogos, que somam 29%. A arrecadação com o ingresso de torcedores nos estádios representa apenas 8% do faturamento do grupo. “Portanto, as mudanças devem começar pela forma como as arenas devem dar retorno ao clube”, diz o consultor.

Somoggi sugere que os clubes aproveitem as oportunidades trazidas pela Copa para encontrar maneiras de desvincular a receita do desempenho dos times em campo. “É preciso explorar novas formas de obter recursos com os estádios como, por exemplo, os carnês com ingressos antecipados e os name rigths”, prega. Prática comum na Europa, o name rigth é um acordo pelo qual um patrocinador paga ao clube determinada quantia para batizar o estádio com a marca da empresa ou de um produto. O estádio da cidade de Munique, uma das sedes da Copa da Alemanha de 2006, leva o nome da companhia de seguros Allianz. No Brasil, o único caso é o da arena do Atlético Paranaense, batizada com o nome da fabricante de produtos eletrônicos, celulares e componentes industriais Kyocera.

 


Copyright © Revista Amanhã - Conectt Marketing Interativo