|
No dia 30 de outubro, a Fifa vai anunciar se o
Brasil terá condições de sediar o maior evento
futebolístico do mundo em 2014. Mesmo sem a confirmação
oficial, já começou a corrida para sediar algumas
das partidas da Copa. Na disputa pelos holofotes, alguns clubes
brasileiros deram o pontapé inicial para remodelar ou construir
novos e modernos estádios de futebol. Propostas de empreendimentos
grandiosos, quase sempre ornamentados com promessas de apoio do
poder público ou polpudos investimentos privados, surgem
do Acre ao Rio Grande do Sul – até mesmo em cidades
sem tradição de grandes clubes de futebol, como
Brasília ou Campo Grande (MS). Mas os especialistas em
gestão de esporte e analistas de futebol não compartilham
do entusiasmo dos torcedores, dirigentes, políticos e governantes.
Com base no histórico de falta de profissionalismo e de
má gestão na maioria dos clubes, os especialistas
temem que esses novos projetos possam se transformar em elefantes
brancos, sem viabilidade econômico-financeira – e
o prejuízo, claro, acabar no colo dos contribuintes.

Na Região Sul, que abriga seis dos 20 clubes
da primeira divisão do futebol brasileiro, existem cinco
propostas de remodelação ou construção
de novos empreendimentos. No Paraná, o mais moderno estádio
do país, a Kyocera Arena (conhecido como Arena da Baixada),
do Clube Atlético Paranaense, foi o primeiro a se candidatar
a sediar a Copa. Mas o rival Coritiba pretende construir, em parceria
com investidores privados, uma “arena multieventos totalmente
coberta, que será a mais moderna do Brasil”, segundo
o presidente do clube, Giovani Gionédis. Em Santa Catarina,
o Figueirense também projeta reformular o estádio
Orlando Scarpelli para atender às exigências da Fifa
e, assim, poder sediar os jogos da Copa. No Rio Grande do Sul,
o candidato oficial é o estádio Beira-Rio, do Internacional,
que passará por reformas. Mas o arqui-rival, Grêmio,
não quer ficar para trás e está prestes a
tirar da gaveta o projeto de uma moderna arena que seria construída
ao custo de R$ 500 milhões, em parceria com investidores
internacionais.
“Esse boom de novos estádios
e arenas não condiz com a realidade social e econômica
do país e pode gerar verdadeiros elefantes brancos que
vão pesar sobre os cofres públicos e onerar o contribuinte”,
critica Oliver Seitz, pesquisador do Grupo de Indústria
do Futebol da Universidade de Liverpool (Inglaterra). Para Seitz,
que é paranaense, os clubes e o poder público brasileiro
se espelham nos mundiais da Alemanha e do Japão/Coréia,
que não poderiam ser tomados como parâmetros para
a organização de uma Copa no Brasil.
O jornalista Juca Kfouri, que atua há mais de 30 anos na
crônica esportiva, também reprova a euforia em torno
de megaempreendimentos. “É óbvio que precisamos
de estádios melhores, mas o Brasil deveria organizar a
Copa de acordo com o tamanho de suas pernas. Pensar em construir
12 novos estádios e bancá-los com dinheiro público
é um absurdo”, dispara Kfouri.
De fato, para sair do papel, vários desses empreendimentos
em gestação dependem de recursos públicos
ou até mesmo da gestão direta por parte dos governos
estaduais ou municipais. É o caso da reforma do Maracanã,
da ampliação da capacidade para 77 mil pessoas do
estádio Mané Garrincha, em Brasília, e da
construção da nova arena Recife/Olinda com 45 mil
lugares. Os três locais são cogitados pela Fifa para
sediar os jogos da Copa.
 |
Kyocera
Arena
Atlético Paranaense (Curitiba)
Projeto: ampliação da capacidade
do estádio de 25 mil para 41 mil lugares e aumento dos
espaços para comércio e serviços
Investimento: R$ 30 milhões
Prazo de conclusão: indefinidoo |
Falta
gestão
Amir Somoggi, consultor e professor de Marketing
e Gestão no Esporte, também não considera
adequada a estrutura planejada para 2014. Mas admite que o evento
pode ser uma oportunidade para os clubes solucionarem, mesmo que
parcialmente, tanto os problemas financeiros quanto as distorções
na gestão. “Só que os dirigentes precisam
rever todos os seus pressupostos sobre gestão, administração
do patrimônio e marketing”, alfineta Somoggi.
A má gestão é um dos problemas
mais antigos, e sérios, dos grandes clubes de futebol brasileiros.
Juntas, as 80 principais organizações devem cerca
de R$ 900 milhões. Foi para tentar salvá-las da
bancarrota que o governo federal criou a Timemania. Com os recursos
da nova loteria, os clubes poderão saldar as dívidas
com o fisco e com o FGTS. E retomar os investimentos.
Levantamento feito pela Casual Auditores, empresa
de Somoggi, revelou que a realidade financeira dos clubes não
dá margem nem sequer para pensar, muito menos para executar
megaempreendimentos. No conjunto, as 21 equipes mais ricas do
país tiveram um déficit de R$ 229,3 milhões
em 2006. Se forem excluídas as receitas de negociação
de atletas, o déficit salta para R$ 415,4 milhões.
A negociação de jogadores responde por 23% do total
das receitas desses 21 clubes, atrás apenas das cotas de
transmissão dos jogos, que somam 29%. A arrecadação
com o ingresso de torcedores nos estádios representa apenas
8% do faturamento do grupo. “Portanto, as mudanças
devem começar pela forma como as arenas devem dar retorno
ao clube”, diz o consultor.
Somoggi sugere que os clubes aproveitem as oportunidades
trazidas pela Copa para encontrar maneiras de desvincular a receita
do desempenho dos times em campo. “É preciso explorar
novas formas de obter recursos com os estádios como, por
exemplo, os carnês com ingressos antecipados e os name
rigths”, prega. Prática comum na Europa, o name
rigth é um acordo pelo qual um patrocinador paga ao
clube determinada quantia para batizar o estádio com a
marca da empresa ou de um produto. O estádio da cidade
de Munique, uma das sedes da Copa da Alemanha de 2006, leva o
nome da companhia de seguros Allianz. No Brasil, o único
caso é o da arena do Atlético Paranaense, batizada
com o nome da fabricante de produtos eletrônicos, celulares
e componentes industriais Kyocera.
|