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      Edição 236 - Outubro de 2007
 

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Anthony Chan
Economista sênior do JP Morgan

O economista que veio ao Brasil a convite de AMANHÃ para três conferências na região sul vê o ciclo de prosperidade da economia mundial se esgotando e diz que o Brasil está menos dependente dos EUA e mais influenciado pela economia chinesa

 
Eugênio Esber

Aos empresários que foram ouvi-lo em Curitiba, Joinville e Porto Alegre, durante os eventos de premiação das 500 maiores empresas do Sul do país listadas no ranking de AMANHÃ e PricewatherhouseCoopers, o economista Anthony Chan trouxe uma palestra que, já em seu título, diz muito sobre o que vem por aí:“Navigating through the US and global liquidity crisis” (“Navegando em meio à crise de liquidez norte-americana e global”). A mensagem é esta mesma – a economia mundial não está singrando águas tranqüilas e novas emoções estão reservadas para 2008, como mostram os gráficos que Anthony exibiu entre piadas sobre Bush e Clinton. Antes de perambular pelas ruas de Curitiba para comprar um souvenir, o economista sênior do JP Morgan, que já integrou os quadros técnicos do Federal Reserve e deu consultoria para o comitê econômico da Associação dos Banqueiros Norte-Americanos, conversou com AMANHÃ sobre alguns pontos da carta náutica que ele apresenta aos navegadores. Como, por exemplo, a indicação de que o Brasil vem se descolando da economia norte-americana e global e fortalecendo seus pontos de contato com a economia chinesa.

O que separa o Brasil do investment grade?
O país ainda terá de superar alguns problemas estruturais. Há gargalos de infra-estrutura que limitam o crescimento econômico e desafiam o governo brasileiro. Mas se você olhar o Brasil nos últimos anos verá que o país tem crescido mais rápido que os Estados Unidos, por exemplo. E continua a fazer grande progresso em todas as frentes. Portanto eu acredito que a questão não é se o Brasil conseguirá o investment grade ou não, mas sim quando. Se o país continuar avançando na direção certa, isso virá naturalmente.

Como você vê o Brasil em meio às incertezas atuais da economia mundial?
O Brasil está muito mais forte. É o que mostram as estatísticas econômicas. Vejo o Brasil em uma posição muito especial porque tem os produtos de exportação que os países em crescimento estão demandando – principalmente a China. O Brasil tem tido a capacidade de capitalizar com sucesso o crescimento chinês.

É uma situação de dependência?
É claro que se, no futuro, a economia chinesa não se expandir com o mesmo ímpeto, a história não será tão favorável para o Brasil. Os números mostram que as ligações da economia brasileira com a economia chinesa estão ficando mais fortes do que eram há dez anos. Em sentido oposto, as ligações do Brasil com os Estados Unidos e com o mundo de um modo geral estão ficando mais fracas do que eram dez anos atrás. Se você olhar o comportamento das economias, verá que a do Brasil, em parte por causa das reformas internas, está se tornando menos dependente dos Estados Unidos e menos dependente, também, da economia mundial. Isso torna o Brasil um pouco menos vulnerável aos acontecimentos globais, o que é bastante positivo. Mas não podemos nos enganar pensando que, se algo sair errado no mundo, não afetará o Brasil. Pode ser que, hoje, não afete com o mesmo impacto de dez ou 20 anos atrás, mas algum dano causará, sim.

Em resumo, o Brasil não está imune.
Se nós acreditarmos verdadeiramente num ambiente de economia globalizada, precisamos ter em conta que ninguém está completamente imune aos eventos globais. Isso vale para o Brasil, vale para os Estados Unidos, para qualquer país. Neste momento, os Estados Unidos estão enfrentando dificuldades. E o que acontece no mercado imobiliário norte-americano está impactando bancos em lugares tão distantes quanto Europa e Ásia. À medida que evolua a crise de inadimplência no mercado de hipotecas voltadas a pessoas de baixa renda, nos Estados Unidos, pode se instalar uma crise de liquidez que afeta, de algum modo, países do mundo todo.

Em que medida, então, o Brasil pode se considerar mais protegido?
O que mudou, positivamente, para o Brasil, é que o país está se beneficiando desproporcionalmente do contínuo fortalecimento da economia chinesa e, também, da melhoria dos fundamentos internos da economia brasileira. Não posso dizer que o Brasil está imune – porque, na verdade, não está. O que estou querendo demonstrar é que o país está se tornando, de alguma maneira, mais independente destes problemas, mas não totalmente. Se a crise de liquidez que temos hoje se tornar uma crise econômica, isto é, contaminar o lado real da economia, haverá efeitos por aqui também. Por enquanto, eu penso que, para os Estados Unidos, o que existe são dois terços de crise de liquidez e um terço de crise econômica. Se essa situação piorar, acho que haverá um risco de contágio no mundo. E até no Brasil.

“Pode haver recessão, sim, mas a chance de que isso aconteça é de 30% a 35%. Ainda assim, é um risco nada desprezível.
A Europa seria uma das primeiras regiões atingidas numa desaceleração dos EUA”

Há perspectiva de recessão?
Pode haver recessão, sim, mas a probabilidade de que isso aconteça não passa de 35%. Ainda assim é um risco nada desprezível, convenhamos. Mas eu não acredito que a economia chinesa vá entrar em colapso. E, quanto aos Estados Unidos, penso que, mesmo andando mais devagar, não haverá desastre. Portanto o cenário nos Estados Unidos e na economia global não indica, para mim, uma recessão – e sim, possivelmente, um pouso com alguma trepidação.

O que torna a ligação do Brasil com a China especialmente forte?
A enorme demanda chinesa por commodities que o Brasil produz, especialmente produtos agrícolas. A China se tornou um cliente muito importante. Enquanto estiver progredindo, ótimo para o Brasil. Se tiver problemas, haverá reflexos aqui. Mas é urgente que o país melhore sua infra-estrutura para se beneficiar dessas oportunidades. Outro ponto importante é que o real está ficando mais forte, e isso cria uma oportunidade para que as empresas brasileiras invistam mais em aumento de produção e produtividade, seja dentro ou fora do Brasil. Até para contrabalançar o efeito negativo da valorização do real nas exportações. Já é visível que o fortalecimento do real começa a causar dificuldades para os exportadores.

 

 

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