| Aos empresários que foram ouvi-lo
em Curitiba, Joinville e Porto Alegre, durante os eventos de premiação
das 500 maiores empresas do Sul do país listadas no ranking
de AMANHÃ e PricewatherhouseCoopers, o economista Anthony
Chan trouxe uma palestra que, já em seu título,
diz muito sobre o que vem por aí:“Navigating through
the US and global liquidity crisis” (“Navegando em
meio à crise de liquidez norte-americana e global”).
A mensagem é esta mesma – a economia mundial não
está singrando águas tranqüilas e novas emoções
estão reservadas para 2008, como mostram os gráficos
que Anthony exibiu entre piadas sobre Bush e Clinton. Antes de
perambular pelas ruas de Curitiba para comprar um souvenir, o
economista sênior do JP Morgan, que já integrou os
quadros técnicos do Federal Reserve e deu consultoria para
o comitê econômico da Associação dos
Banqueiros Norte-Americanos, conversou com AMANHÃ sobre
alguns pontos da carta náutica que ele apresenta aos navegadores.
Como, por exemplo, a indicação de que o Brasil vem
se descolando da economia norte-americana e global e fortalecendo
seus pontos de contato com a economia chinesa.
O que separa o Brasil do investment grade?
O país ainda terá de superar alguns problemas estruturais.
Há gargalos de infra-estrutura que limitam o crescimento
econômico e desafiam o governo brasileiro. Mas se você
olhar o Brasil nos últimos anos verá que o país
tem crescido mais rápido que os Estados Unidos, por exemplo.
E continua a fazer grande progresso em todas as frentes. Portanto
eu acredito que a questão não é se o Brasil
conseguirá o investment grade ou não, mas
sim quando. Se o país continuar avançando na direção
certa, isso virá naturalmente.
Como você vê o Brasil em meio às
incertezas atuais da economia mundial?
O Brasil está muito mais forte. É o que mostram
as estatísticas econômicas. Vejo o Brasil em
uma posição muito especial porque tem os produtos
de exportação que os países em crescimento
estão demandando – principalmente a China. O
Brasil tem tido a capacidade de capitalizar com sucesso o crescimento
chinês.
É uma situação de dependência?
É claro que se, no futuro, a economia chinesa não
se expandir com o mesmo ímpeto, a história não
será tão favorável para o Brasil. Os números
mostram que as ligações da economia brasileira com
a economia chinesa estão ficando mais fortes do que eram
há dez anos. Em sentido oposto, as ligações
do Brasil com os Estados Unidos e com o mundo de um modo geral
estão ficando mais fracas do que eram dez anos atrás.
Se você olhar o comportamento das economias, verá
que a do Brasil, em parte por causa das reformas internas, está
se tornando menos dependente dos Estados Unidos e menos dependente,
também, da economia mundial. Isso torna o Brasil um pouco
menos vulnerável aos acontecimentos globais, o que é
bastante positivo. Mas não podemos nos enganar pensando
que, se algo sair errado no mundo, não afetará o
Brasil. Pode ser que, hoje, não afete com o mesmo impacto
de dez ou 20 anos atrás, mas algum dano causará,
sim.
Em resumo, o Brasil não está imune.
Se nós acreditarmos verdadeiramente num ambiente de economia
globalizada, precisamos ter em conta que ninguém está
completamente imune aos eventos globais. Isso vale para o Brasil,
vale para os Estados Unidos, para qualquer país. Neste
momento, os Estados Unidos estão enfrentando dificuldades.
E o que acontece no mercado imobiliário norte-americano
está impactando bancos em lugares tão distantes
quanto Europa e Ásia. À medida que evolua a crise
de inadimplência no mercado de hipotecas voltadas a pessoas
de baixa renda, nos Estados Unidos, pode se instalar uma crise
de liquidez que afeta, de algum modo, países do mundo todo.
Em que medida, então, o Brasil pode se considerar
mais protegido?
O que mudou, positivamente, para o Brasil, é que o país
está se beneficiando desproporcionalmente do contínuo
fortalecimento da economia chinesa e, também, da melhoria
dos fundamentos internos da economia brasileira. Não posso
dizer que o Brasil está imune – porque, na verdade,
não está. O que estou querendo demonstrar é
que o país está se tornando, de alguma maneira,
mais independente destes problemas, mas não totalmente.
Se a crise de liquidez que temos hoje se tornar uma crise econômica,
isto é, contaminar o lado real da economia, haverá
efeitos por aqui também. Por enquanto, eu penso que, para
os Estados Unidos, o que existe são dois terços
de crise de liquidez e um terço de crise econômica.
Se essa situação piorar, acho que haverá
um risco de contágio no mundo. E até no Brasil.
“Pode haver recessão,
sim, mas a chance de que isso aconteça é de
30% a 35%. Ainda assim, é um risco nada desprezível.
A Europa seria uma das primeiras regiões atingidas
numa desaceleração dos EUA”
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Há perspectiva de recessão?
Pode haver recessão, sim, mas a probabilidade de que isso
aconteça não passa de 35%. Ainda assim é
um risco nada desprezível, convenhamos. Mas eu não
acredito que a economia chinesa vá entrar em colapso. E,
quanto aos Estados Unidos, penso que, mesmo andando mais devagar,
não haverá desastre. Portanto o cenário nos
Estados Unidos e na economia global não indica, para mim,
uma recessão – e sim, possivelmente, um pouso com
alguma trepidação.
O que torna a ligação do Brasil com a
China especialmente forte?
A enorme demanda chinesa por commodities que o Brasil
produz, especialmente produtos agrícolas. A China se tornou
um cliente muito importante. Enquanto estiver progredindo, ótimo
para o Brasil. Se tiver problemas, haverá reflexos aqui.
Mas é urgente que o país melhore sua infra-estrutura
para se beneficiar dessas oportunidades. Outro ponto importante
é que o real está ficando mais forte, e isso cria
uma oportunidade para que as empresas brasileiras invistam mais
em aumento de produção e produtividade, seja dentro
ou fora do Brasil. Até para contrabalançar o efeito
negativo da valorização do real nas exportações.
Já é visível que o fortalecimento do real
começa a causar dificuldades para os exportadores.
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