| Por pouco, o novo fenômeno da Fórmula
1, Lewis Hamilton, não perdeu os pontos que acumulou durante
a brilhante campanha deste ano. Sua escuderia, a McLaren, foi condenada
pelo Conselho Mundial da Federação Internacional de Automobilismo
(FIA) a pagar uma multa de US$ 100 milhões por espionagem à
rival Ferrari e perdeu todos os pontos conquistados no Campeonato de
Construtores de 2007. Em julho, 780 páginas de informações
técnicas da Ferrari foram encontradas na casa de Mike Coughlan,
na época o projetista-chefe da McLaren. Elas foram repassadas
por Nigel Stepney, ex-mecânico-chefe da escuderia italiana, demitido
ainda em junho sob acusação de sabotagem. Os pilotos da
McLaren não foram punidos porque não se descobriram indícios
de uso de propriedade intelectual da Ferrari nos seus carros. Em depoimento
no início de outubro, Stepney disse que também recebia
informações de Coughlan. Pelo que havia sido apurado até
então, não se sabia se algum dos dois funcionários
havia sido subornado para repassar os projetos ou se apenas trocavam
informações que deveriam ser confidenciais.
O rumoroso caso envolvendo a McLaren e a Ferrari ganhou uma repercussão
singular, mas a espionagem nas empresas é muito mais comum do
que parece. Só que a maioria dos casos não chega à
polícia, nem às páginas dos jornais. E, quando
chega, descobre-se uma característica comum a grande parte dos
casos: a participação de funcionários da empresa
espionada. Para quem está interessado em bisbilhotar o concorrente
é mais vantajoso buscar a ajuda de alguém que já
conhece o funcionamento e as rotinas da organização. “Para
entrar no sistema de uma empresa, por exemplo, sai muito mais caro contratar
um hacker. Mais fácil é comprar as senhas de
um funcionário”, ilustra o detetive Edilmar Lima, fundador
da Central Única Federal dos Detetives do Brasil, em Brasília,
que trabalha com contra-espionagem.
Para Walter Félix Cardoso Júnior, doutor em Aplicações,
Planejamento e Estudos Militares pela Escola do Exército e professor
da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), a primeira atitude
que a empresa deve tomar para se proteger da espionagem é tornar
mais crítico o processo de seleção. Checar, por
exemplo, se o que a pessoa disse na entrevista é verdadeiro.
“Quanto mais rigoroso o processo, maior conhecimento a empresa
terá sobre quem está contratando”, diz. No entanto,
são raríssimas as empresas ou organizações
brasileiras que adotam procedimentos rigorosos na hora de contratar
um funcionário. Somente as Forças Armadas, em alguns casos,
além da Presidência da República e a área
de inteligência do governo. No setor privado, os especialistas
citam apenas a Embraer. “Depois de botar alguém pouco conhecido
para dentro da empresa, o risco de ter uma surpresa é muito alto”,
afirma Cardoso.
Quando providências mais rígidas não foram adotadas
no início do processo, é preciso agir logo que surgem
os primeiros indícios de vazamento de informações.
Nesses casos, algumas empresas recorrem aos serviços de contra-espionagem
– geralmente feitos por detetives. Uma das primeiras ações
é fazer um check-up dos funcionários. Verificar,
por exemplo, onde já trabalharam, se vieram de algum concorrente
ou se mantêm relacionamento com pessoas suspeitas. Caso seja necessário
investigar melhor algum deles, o procedimento mais comum é a
infiltração de um falso funcionário na empresa.
Essa fase pode demorar alguns meses, até que o infiltrado consiga
se aproximar das pessoas e obter as evidências a respeito do suspeito.
Porém a maior parte dos casos de espionagem não é
descoberta porque as empresas não têm idéia de que
estão sendo espionadas. Para o detetive Wilson Teixeira, de Belo
Horizonte (MG), as companhias não deveriam contratar um serviço
de contra-espionagem apenas quando estão desconfiadas. “As
empresas não se previnem. Somente se dão conta quando
aparecem os prejuízos. E aí, quase sempre, é tarde
demais”, ressalta.
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O
que é preciso proteger |
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Cada
empresa deve analisar profundamente quais são as informações
estratégicas que ela precisa proteger e estabelecer nveis
de segurança.
Mas alguns tipos de dados deveriam ser protegidos em qualquer empresa:
- Pesquisa e desenvolvimento – principalmente nos casos dos
laboratórios farmacêuticos, fabricantes de bebidas
e alimentos, setores que estão na lista dos mais espionados
- Estratégias de marketing
- Planilhas de custos
- Quem são os clientes e os contratos estabelecidos com
eles
- Informações pessoais de clientes e dos funcionários.
No caso das informações sobre os clientes, os escritórios
de advocacia estão entre os mais espionados. É que,
além de ouvir confissões das pessoas que cometeram
crimes, os advogados também participam de processos sigilosos
das empresas, como fusões e aquisições, operações
de abertura de capital ou participação em licitações
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Vazamento involuntário
Embora existam muitos casos de espionagem planejada por funcionários,
os especialistas ressaltam que a maior parte dos vazamentos de informação
nas empresas acontece de forma não-desejada. O funcionário
não tem a intenção de entregar para um estranho
as informações sigilosas, mas acaba falando sem perceber
ou cometendo inconfidências ao fazer comentários em público.
“Cerca de 85% das informações estratégicas
são vazadas involuntariamente. E principalmente por diretores,
presidentes e pessoal da área de pesquisa”, garante Antonio
Brasiliano, diretor executivo da Brasiliano & Associados Gestão
de Riscos Corporativos. Segundo ele, a espionagem de hoje é bem
diferente daquela da época da Guerra Fria. “O espião
não precisa mais entrar fisicamente na empresa para roubar a
chave do cofre. Ele usa outras técnicas”, revela o consultor,
que defendeu dissertação de mestrado justamente sobre
a fuga involuntária de informações. Ele cita as
técnicas de indução e de infiltração.
Na indução, o espião conversa com a pessoa até
extrair alguma informação dela, o que pode demorar algumas
semanas. Ele pode conhecê-la num happy hour ou no avião
e tentar manter o contato. Na técnica de infiltração,
ele cola em alguém para saber aonde a pessoa vai e o que faz,
além de ouvir as conversas dela.
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| Detetive Lima: é mais fácil e
barato comprar senhas de um funcionário do que contratar um
hacker |
Os especialistas são unânimes em apontar os aviões
e os aeroportos como o paraíso dos espiões. “É
só ficar na sala vip e observar o que acontece”, indica
Brasiliano. Os executivos falam sobre os negócios no celular
e respondem e-mails de trabalho em público, sem nenhuma
cerimônia. Eles também participam de reuniões e
depois falam pelo celular sobre o que foi negociado dentro dos táxis,
no elevador. “Colocar chave, crachá, firewall
é fácil. Difícil é convencer as pessoas
a mudar de comportamento. E o engraçado é que, quanto
mais proteção física a empresa instala, mais as
pessoas se sentem relaxadas e descuidam das próprias atitudes”,
avalia Brasiliano. O diretor de negócios da Plugar Informações
Estratégicas, Fábio Rios, conta que foi contratado há
alguns anos por uma grande empresa brasileira para um serviço
na área de portais corporativos. No avião, Rios se sentou
ao lado do diretor jurídico da empresa – que não
o conhecia e nem sabia que ele havia sido contratado para aquele trabalho.
Sem se importar com sua presença, o diretor começou a
ler os e-mails e respondeu até uma mensagem do presidente
da companhia. “Não falei nada e não fiquei olhando.
Mas e se eu fosse um concorrente?”, questiona.
Na multinacional ADP, que fornece soluções para folhas
de pagamento e recursos humanos, o esforço para conscientizar
os funcionários é constante. “Todo mundo diz que
a pessoa é o elo mais fraco. Nós trabalhamos para que
nossos profissionais sejam a melhor proteção. Queremos
que sejam firewalls humanos” diz Jarbas Cruz, gerente
de segurança da informação da ADP. Para isso, a
empresa tem um programa de conscientização permanente.
Quando é contratado, o funcionário recebe um treinamento.
Depois, há boletins mensais, campanhas a cada seis meses e um
seminário anual. “É uma tarefa interminável.
É educação de longo prazo”, afirma.
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