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      Edição 235 - Setembro de 2007
 

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Com baixa disponibilidade de áreas em todo o mundo, a produção agrícola dependerá, sempre mais, do uso intensivos de fertilizantes – cujos preços vêm subindo junto com as cotações dos grãos


Imagine a Terra, em 25 anos, com mais de 8 bilhões de habitantes – cerca de 90% deles vivendo nas zonas urbanas e uma população de terceira idade em crescimento. Essa previsão da Organização das Nações Unidas (ONU) está um pouco distante, é verdade. Mas o aumento da população urbana em várias nações emergentes e a melhoria da renda especialmente nos países asiáticos estão entre os fatores que vêm influenciando os preços dos alimentos. De janeiro a julho de 2007, o valor das commodities agrícolas subiu 20%, em média. O mundo demanda sempre mais alimentos. E nunca os estoques mundiais estiveram tão baixos. Outro agravante são os programas de substituição dos combustíveis fósseis por biocombustíveis, especialmente o etanol – que consome parcela das reservas dos grãos, ajudando a inflar os preços dos produtos agrícolas. Para frear a queda nos estoques mundiais de alimentos só há um caminho: produzir mais. O problema é a pouca disponibilidade de terras para aumentar o plantio. A solução para ampliar a produção de alimentos no mundo – acreditam especialistas, economistas e agrônomos – passa pelo uso mais intensivo de fertilizantes.

Na China, a área disponível para o cultivo de alimentos poderá ser ampliada em apenas 3%, em relação à utilizada atualmente. Essa pequena margem é absolutamente insuficiente para garantir o fornecimento de alimentos à população crescente. “Os chineses consideram tão importantes os fertilizantes que colocaram uma barreira tarifária para impedir que o produto seja exportado”, comenta Torvaldo Marzolla Filho, diretor de relações públicas da Roullier Brasil, indústria de fertilizantes com fábrica na área portuária de Rio Grande (RS). De acordo com o executivo, a saída para o aumento da produção de alimentos está no Brasil. E não se trata de uma opinião isolada. O setor agropecuário acredita que o território brasileiro tem potencial para se transformar em um verdadeiro “celeiro do mundo”. Entretanto, o aumento da produtividade das lavouras nacionais ainda é dependente da importação dos principais insumos fertilizantes.

De acordo com a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), o Brasil importa, atualmente, cerca de 65% da matéria-prima utilizada na produção dos fertilizantes. Misturados em diferentes concentrações, de acordo com o solo de cada região, nitrogênio, potássio e fósforo são os principais ingredientes da fórmula de sucesso da lavoura brasileira. A soja, principal cultura comercial do país, demanda fósforo para o início do crescimento da planta. A cana-de-açúcar – que voltou a ganhar força com a explosão dos investimentos em etanol – também exige alto índice de fertilização. “Os solos brasileiros, principalmente de cerrado, precisam de muita correção”, reforça Asdrubal Jacobina, gerente da área de custos de produção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

A demanda por fertilizantes no Brasil cresceu 66% no primeiro semestre de 2007, na comparação com o mesmo período do ano passado

 

Demanda em alta

De janeiro a junho, o consumo de fertilizantes no Brasil aumentou 66% em relação a 2006. Os preços atraentes das commodities agrícolas no mercado internacional – que dispararam depois de o governo norte-americano anunciar, no final de 2006, que iria misturar etanol nos combustíveis – estão motivando os agricultores a investir mais nas lavouras para a próxima safra. “Nos Estados Unidos, houve uma redução de 23% da lavoura de soja, que cedeu espaço para o cultivo do milho direcionado para a produção de etanol. E o Brasil vislumbra a possibilidade de abocanhar uma parte maior desse mercado”, reforça Walmir Segatto, superintendente comercial de agronegócio do Santander Banespa. Na última safra, a produção brasileira de soja e milho, as duas principais culturas, cresceu 12% – e há expectativa de aumento de área na safra que começa a ser plantada em outubro.

“Hoje, a indústria brasileira de fertilizantes não tem auto-suficiência de matéria-prima. E qualquer aumento na demanda é sustentado pelas importações”, observa Eduardo Daher, presidente da Anda. A previsão é que o Brasil importe, até o final do ano, o equivalente a 24 milhões de toneladas de fertilizantes – um incremento de quase 20% em relação ao ano passado. O volume de entregas só não será maior porque, segundo a Conab, as misturadoras brasileiras não dispõem de capacidade instalada para elevar a produção e nem de estrutura logística para fazer as entregas. As dificuldades logísticas e a dependência da matéria-prima importada estão entre os fatores que colaboram para elevar ainda mais os preços dos fertilizantes. É que mesmo com o dólar baixo, as altas cotações internacionais dos principais insumos não favorecem as importações.

Mas os preços não têm freado o consumo. “Vivemos um paradoxo. Mesmo com os preços nas alturas, a demanda por fertilizantes é crescente”, destaca Jacobina. O potássio, por exemplo, chegou a subir 40% no primeiro semestre de 2007. O fertilizante do milho, que no ano passado custava em média R$ 680 a tonelada para o produtor rural, este ano chegou a R$ 850. A explosão nos preços dos adubos já preocupa o governo federal, que pediu às misturadoras que contenham os reajustes. Na outra ponta, as empresas afirmam que não podem fazer nada, uma vez que seguem o mercado internacional.

Para diminuir a dependência da importação, algumas misturadoras instaladas no Brasil projetam investir para ampliar a produção no país. A Yara, multinacional que adquiriu a antiga Adubos Trevo, vê no Brasil uma oportunidade para ampliar a oferta mundial de fertilizantes. “Como até o ano passado os preços estavam muito baixos, não havia planos de investimento. Agora, com um cenário melhor, estamos repensando os investimentos no país”, confessa Lair Hansen, presidente da Yara. No Brasil, a empresa possui o quarto market share do setor, atrás de Bunge, Fertipar e Mosaic.

O projeto internacional da Yara é expandir os negócios em três frentes: implantar fábricas em lugares que tenham gás natural barato e disponível (veja quadro sobre determinantes para a produção de fertilizantes), fazer aquisições em mercados consolidados – como Europa e Estados Unidos – e investir naquelas regiões com grande potencial de expansão, como é o caso do Brasil. De acordo com Hansen, a empresa já está avaliando um projeto, em parceria com a Petrobras, para começar a produzir nitrogênio no Brasil. “O problema é que você quebra se não consegue fazer um produto competitivo. Por isso, o investimento precisa ser muito bem avaliado”, explica Hansen. Segundo o executivo, o maior potencial do Brasil está justamente na exploração da rocha fosfática. “Metade dos fertilizantes consumidos no país são direcionados para a soja, que precisa de muito fósforo, assim como todo o solo brasileiro”, observa Hansen. Um potencial que, mais bem explorado, pode favorecer o agronegócio brasileiro – ainda mais que as estimativas apontam para a continuidade do ciclo de alta nas commodities agrícolas e, por conseqüência, de maior demanda por fertilizantes.  

Com reportagem de Fernanda Arechavaleta


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