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Imagine a Terra, em 25 anos, com mais de 8 bilhões
de habitantes – cerca de 90% deles vivendo nas zonas urbanas
e uma população de terceira idade em crescimento.
Essa previsão da Organização das Nações
Unidas (ONU) está um pouco distante, é verdade.
Mas o aumento da população urbana em várias
nações emergentes e a melhoria da renda especialmente
nos países asiáticos estão entre os fatores
que vêm influenciando os preços dos alimentos. De
janeiro a julho de 2007, o valor das commodities agrícolas
subiu 20%, em média. O mundo demanda sempre mais alimentos.
E nunca os estoques mundiais estiveram tão baixos. Outro
agravante são os programas de substituição
dos combustíveis fósseis por biocombustíveis,
especialmente o etanol – que consome parcela das reservas
dos grãos, ajudando a inflar os preços dos produtos
agrícolas. Para frear a queda nos estoques mundiais de
alimentos só há um caminho: produzir mais. O problema
é a pouca disponibilidade de terras para aumentar o plantio.
A solução para ampliar a produção
de alimentos no mundo – acreditam especialistas, economistas
e agrônomos – passa pelo uso mais intensivo de fertilizantes.
Na China, a área disponível para
o cultivo de alimentos poderá ser ampliada em apenas 3%,
em relação à utilizada atualmente. Essa pequena
margem é absolutamente insuficiente para garantir o fornecimento
de alimentos à população crescente. “Os
chineses consideram tão importantes os fertilizantes que
colocaram uma barreira tarifária para impedir que o produto
seja exportado”, comenta Torvaldo Marzolla Filho, diretor
de relações públicas da Roullier Brasil,
indústria de fertilizantes com fábrica na área
portuária de Rio Grande (RS). De acordo com o executivo,
a saída para o aumento da produção de alimentos
está no Brasil. E não se trata de uma opinião
isolada. O setor agropecuário acredita que o território
brasileiro tem potencial para se transformar em um verdadeiro
“celeiro do mundo”. Entretanto, o aumento da produtividade
das lavouras nacionais ainda é dependente da importação
dos principais insumos fertilizantes.
De acordo com a Associação Nacional
para Difusão de Adubos (Anda), o Brasil importa, atualmente,
cerca de 65% da matéria-prima utilizada na produção
dos fertilizantes. Misturados em diferentes concentrações,
de acordo com o solo de cada região, nitrogênio,
potássio e fósforo são os principais ingredientes
da fórmula de sucesso da lavoura brasileira. A soja, principal
cultura comercial do país, demanda fósforo para
o início do crescimento da planta. A cana-de-açúcar
– que voltou a ganhar força com a explosão
dos investimentos em etanol – também exige alto índice
de fertilização. “Os solos brasileiros, principalmente
de cerrado, precisam de muita correção”, reforça
Asdrubal Jacobina, gerente da área de custos de produção
da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
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| A demanda por fertilizantes no Brasil
cresceu 66% no primeiro semestre de 2007, na comparação
com o mesmo período do ano passado |
Demanda
em alta
De janeiro a junho, o consumo de fertilizantes
no Brasil aumentou 66% em relação a 2006. Os preços
atraentes das commodities agrícolas no mercado internacional
– que dispararam depois de o governo norte-americano anunciar,
no final de 2006, que iria misturar etanol nos combustíveis
– estão motivando os agricultores a investir mais
nas lavouras para a próxima safra. “Nos Estados Unidos,
houve uma redução de 23% da lavoura de soja, que
cedeu espaço para o cultivo do milho direcionado para a
produção de etanol. E o Brasil vislumbra a possibilidade
de abocanhar uma parte maior desse mercado”, reforça
Walmir Segatto, superintendente comercial de agronegócio
do Santander Banespa. Na última safra, a produção
brasileira de soja e milho, as duas principais culturas, cresceu
12% – e há expectativa de aumento de área
na safra que começa a ser plantada em outubro.
“Hoje, a indústria brasileira de
fertilizantes não tem auto-suficiência de matéria-prima.
E qualquer aumento na demanda é sustentado pelas importações”,
observa Eduardo Daher, presidente da Anda. A previsão é
que o Brasil importe, até o final do ano, o equivalente
a 24 milhões de toneladas de fertilizantes – um incremento
de quase 20% em relação ao ano passado. O volume
de entregas só não será maior porque, segundo
a Conab, as misturadoras brasileiras não dispõem
de capacidade instalada para elevar a produção e
nem de estrutura logística para fazer as entregas. As dificuldades
logísticas e a dependência da matéria-prima
importada estão entre os fatores que colaboram para elevar
ainda mais os preços dos fertilizantes. É que mesmo
com o dólar baixo, as altas cotações internacionais
dos principais insumos não favorecem as importações.
Mas os preços não têm freado
o consumo. “Vivemos um paradoxo. Mesmo com os preços
nas alturas, a demanda por fertilizantes é crescente”,
destaca Jacobina. O potássio, por exemplo, chegou a subir
40% no primeiro semestre de 2007. O fertilizante do milho, que
no ano passado custava em média R$ 680 a tonelada para
o produtor rural, este ano chegou a R$ 850. A explosão
nos preços dos adubos já preocupa o governo federal,
que pediu às misturadoras que contenham os reajustes. Na
outra ponta, as empresas afirmam que não podem fazer nada,
uma vez que seguem o mercado internacional.
Para diminuir a dependência da importação,
algumas misturadoras instaladas no Brasil projetam investir para
ampliar a produção no país. A Yara, multinacional
que adquiriu a antiga Adubos Trevo, vê no Brasil uma oportunidade
para ampliar a oferta mundial de fertilizantes. “Como até
o ano passado os preços estavam muito baixos, não
havia planos de investimento. Agora, com um cenário melhor,
estamos repensando os investimentos no país”, confessa
Lair Hansen, presidente da Yara. No Brasil, a empresa possui o
quarto market share do setor, atrás de Bunge, Fertipar
e Mosaic.
O projeto internacional da Yara é expandir
os negócios em três frentes: implantar fábricas
em lugares que tenham gás natural barato e disponível
(veja quadro sobre determinantes para a produção
de fertilizantes), fazer aquisições em mercados
consolidados – como Europa e Estados Unidos – e investir
naquelas regiões com grande potencial de expansão,
como é o caso do Brasil. De acordo com Hansen, a empresa
já está avaliando um projeto, em parceria com a
Petrobras, para começar a produzir nitrogênio no
Brasil. “O problema é que você quebra se não
consegue fazer um produto competitivo. Por isso, o investimento
precisa ser muito bem avaliado”, explica Hansen. Segundo
o executivo, o maior potencial do Brasil está justamente
na exploração da rocha fosfática. “Metade
dos fertilizantes consumidos no país são direcionados
para a soja, que precisa de muito fósforo, assim como todo
o solo brasileiro”, observa Hansen. Um potencial que, mais
bem explorado, pode favorecer o agronegócio brasileiro
– ainda mais que as estimativas apontam para a continuidade
do ciclo de alta nas commodities agrícolas e, por conseqüência,
de maior demanda por fertilizantes.
Com reportagem de Fernanda Arechavaleta
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