| Michal Gartenkraut é um polonês
que fala francês e inglês – mas se tornou fluente,
mesmo, nos códigos que movimentam a economia e os negócios
no Brasil. Conhece bem o território acadêmico –
até 2005, era o reitor do Instituto Tecnológico
da Aeronáutica, onde aliás adquiriu seu diploma
de engenheiro mecânico, em 1977. Teve muitas passagens pelo
governo brasileiro, como secretário-geral do Ministério
do Planejamento, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea) e assessor especial do Ministério da Fazenda
encarregado das negociações com o FMI, no período
1988-1990, entre vários outros cargos. Também produz
estudos e atua no aconselhamento de empresas – é
consultor sênior da Rosenberg & Associados, do ex-ministro
Luís Paulo Rosenberg, e membro do conselho de Administração
da Eletrobrás, entre outras empresas. E desde o ano passado
ocupa a presidência executiva da Fundação
Nacional da Qualidade, instituição que outorga o
mais cobiçado título da excelência empresarial
no Brasil – o Prêmio Nacional da Qualidade. E é
com estas múltiplas credenciais que Michal, 60 anos, explicou
a AMANHÁ as razões pelas quais se anima ao contemplar
a trajetória das empresas brasileiras nos últimos
17 anos – e se preocupa quando olha para o futuro.
Quanto as empresas brasileiras ainda precisam avançar,
em matéria de gestão, para competitir globalmente?
Nós avançamos muito nos últimos 17 anos,
a partir da abertura do mercado brasileiro, em 1991. Acontece
que, num mundo competitivo, avançar muito pode não
ser suficiente. É preciso ver o quanto avançaram
nossos competidores. Por isso eu tenho a impressão, melhor,
a convicção, de que esta é uma corrida sem
fim. Ela responde a uma dinâmica competitiva em que todos
os competidores e todos os agentes envolvidos estão correndo.
E esta análise comparativa assusta, porque tem gente correndo
rápido, mais do que a gente. Eu me refiro, claro, aos asiáticos,
mas não só a eles. Há exemplos na própria
Europa, casos da Irlanda e da Finlândia, e até na
África. Quanto a nós... apesar do inegável
avanço, somos lentos. É uma característica
brasileira – até por nossa diversidade, pelo sistema
político que temos, as coisas andam mais devagar. Quando
se trata de mudar legislação, cultura, realmente
não é fácil.
Mas a vulnerabilidade de hoje é menor que aquela
do início dos anos 90, não?
Olhando só para o Brasil, nas duas épocas, a análise
é otimista. Avançamos muito. Em 1991, não
tínhamos nenhuma empresa apta a competir na selva mundial.
O que conquistamos, de lá para cá, não é
desprezível. Poucos países na América Latina
evoluíram como o Brasil. Basta ver o que temos –
Gerdau, Embraer e vários outros exemplos de excelência
internacional. Se a gente tivesse adotado antes medidas como a
abertura da economia... A verdade é que, antes de 1991,
as pessoas e as empresas nem sabiam como comparar seu custo com
o custo internacional. Elas não tinham referências.
A economia brasileira era tão protegida que elas se sentiam
as donas do mercado. Estavam prestes a morrer. Aliás, nesse
processo muitos morreram mesmo – as empresas que não
agüentaram a competição. A rigor, eram poucos
os que haviam percebido que a coisa iria mudar. Outros trataram
de correr quando viram que a abertura era para valer e que deviam
ter apostado nesse cenário bem antes. Aqueles que conseguiram
se dar bem são os que hoje fazem parte da lista das empresas
brasileiras competitivas. E o interessante é que o prêmio
nacional de qualidade nasceu nessa mesma época da abertura
da economia, embora pouca gente relacione uma coisa com a outra.
Havia o programa gaúcho de qualidade e produtividade, o
precursor do movimento nacional.
E qual é a regra para seguir competitivo diante
dos novos desafios trazidos por competidores velozes?
A regra é perceber que, depois de entrar no jogo, você
terá de estar muito atento o tempo todo. Como os outros
estão correndo, não tem parada, sabe? Você
pode estar achando que não tem mais nada para fazer, e
acaba descobrindo que o jogo está só começando.
O segredo, hoje, é ter uma dinâmica acelerada. Quem
não conseguir manter o ritmo de inovações,
de mudanças necessárias para manter a competitividade,
vai sofrer.
Brasil ainda mantém um grau de proteção
à indústria local mais elevado que o de outros países.
Na sua opinião, um novo movimento de abertura do mercado
brasileiro seria desejável ou apenas caracterizaria uma
atitude ingênua, como apregoam os críticos da redução
das alíquotas de importação?
O padrão do comércio internacional mudou e quase
não há alternativa. É impensável imaginar
um país com certo tamanho, e com uma indústria razoável,
como o Brasil, fechando-se. Muitos pregam que o país reduza
imediatamente suas tarifas de importação e de forma
unilateral para se beneficiar logo dos ganhos de competitividade
que teríamos. Eu ainda acho que é melhor conciliar
a abertura de nosso mercado com a abertura dos mercados agrícolas
lá fora. Já que vamos abrir, e a tendência
é mesmo de redução das tarifas industriais,
então que se negocie este processo para abrir uma vantagem
do outro lado. Mas isso, claro, desde que as negociações
evoluam melhor, não demorem tanto – porque nós
precisamos, mesmo, desta abertura do mercado. Ela vai bombar ganhos
de eficiência para dentro da economia brasileira.
Muitos setores da indústria cobram algum tipo
de proteção, apontando benefícios que outros
países dispensam, internamente, a certos segmentos...
É, eu tendo a concluir que o jogo do comércio mundial
é pesado e requer alguma proteção. Mas defendo
a tese de que o tipo de proteção necessária
hoje mudou. É diferente daquela do passado. Em outras épocas,
você fechava a economia para consolidar o setor industrial
do país e atrair investidores. O que se dizia para eles
era algo como: Olha, quem vier produzir aqui vai ter vantagens;
praticamente não vai ter competidor externo... Esse era
o segredo. Hoje é diferente. O Brasil tem um setor
produtivo sofisticado e que sabe competir, conhece o seu negócio,
tem gestão e desenvoltura para disputar mercado no mundo.
A proteção que o país precisa não
é do mercado doméstico, e sim de medidas como a
melhoria da infra-estrutura. Aí nós temos muita
coisa para fazer. São fatores que prejudicam a competitividade
das empresas mas que não estão sob controle delas
– atuam da porteira para fora. Resolver estes problemas
é a lição de casa que temos para fazer. E
há uma parte, muito fácil, que é baixar as
tarifas de importação. Isso é simples, é
um decreto. Agora, o que não se pode imaginar é
fechar a economia brasileira à importação
de bens de consumo, de bens intermediários e principalmente
de bens de capital. Desse jeito, você não compete
no mundo.
“O padrão mudou. Não
dá para imaginar um país com certo tamanho,
e com uma indústria razoável, como o Brasil,
fechando-se. Desse jeito, você não compete no
mundo”
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Que setores da indústria brasileira se manteriam
competitivos, globalmente, mesmo sob o impacto de uma redução
de tarifas de importação?
Ao contrário de países pequenos, temos muitos setores
competitivos e poderíamos, portanto, partir com tranqüilidade
para uma redução de alíquotas. Nossas indústrias
baseadas em alimentos, madeira, grãos, couro e recursos
naturais, em geral, são fortes. Havendo boa gestão,
ninguém derruba a gente nestas áreas. Agora, quando
se analisam setores intensivos em tecnologia e que não
têm a ver com recursos naturais, como a indústria
aeronáutica, automobilística, eletroeletrônica,
aí a situação se complica. Porque o Brasil
não fez a sua grande lição de casa, que é
a educação. O nosso investimento em pesquisa e desenvolvimento
não é tão expressivo. É, mais, um
investimento focado em ciência.
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