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      Edição 235 - Setembro de 2007
 

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Michal Gartenkraut
Presidente executivo da Fundação Nacional da Qualidade (FNQ)

O líder da entidade que concede o Oscar da gestão no Brasil diz que o número de empresas que seguem os conceitos de excelência no país ainda é muito pequeno, e avisa: o mercado vai se abrir ainda mais à competição

 
Eugênio Esber

Michal Gartenkraut é um polonês que fala francês e inglês – mas se tornou fluente, mesmo, nos códigos que movimentam a economia e os negócios no Brasil. Conhece bem o território acadêmico – até 2005, era o reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, onde aliás adquiriu seu diploma de engenheiro mecânico, em 1977. Teve muitas passagens pelo governo brasileiro, como secretário-geral do Ministério do Planejamento, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e assessor especial do Ministério da Fazenda encarregado das negociações com o FMI, no período 1988-1990, entre vários outros cargos. Também produz estudos e atua no aconselhamento de empresas – é consultor sênior da Rosenberg & Associados, do ex-ministro Luís Paulo Rosenberg, e membro do conselho de Administração da Eletrobrás, entre outras empresas. E desde o ano passado ocupa a presidência executiva da Fundação Nacional da Qualidade, instituição que outorga o mais cobiçado título da excelência empresarial no Brasil – o Prêmio Nacional da Qualidade. E é com estas múltiplas credenciais que Michal, 60 anos, explicou a AMANHÁ as razões pelas quais se anima ao contemplar a trajetória das empresas brasileiras nos últimos 17 anos – e se preocupa quando olha para o futuro.

Quanto as empresas brasileiras ainda precisam avançar, em matéria de gestão, para competitir globalmente?
Nós avançamos muito nos últimos 17 anos, a partir da abertura do mercado brasileiro, em 1991. Acontece que, num mundo competitivo, avançar muito pode não ser suficiente. É preciso ver o quanto avançaram nossos competidores. Por isso eu tenho a impressão, melhor, a convicção, de que esta é uma corrida sem fim. Ela responde a uma dinâmica competitiva em que todos os competidores e todos os agentes envolvidos estão correndo. E esta análise comparativa assusta, porque tem gente correndo rápido, mais do que a gente. Eu me refiro, claro, aos asiáticos, mas não só a eles. Há exemplos na própria Europa, casos da Irlanda e da Finlândia, e até na África. Quanto a nós... apesar do inegável avanço, somos lentos. É uma característica brasileira – até por nossa diversidade, pelo sistema político que temos, as coisas andam mais devagar. Quando se trata de mudar legislação, cultura, realmente não é fácil.

Mas a vulnerabilidade de hoje é menor que aquela do início dos anos 90, não?
Olhando só para o Brasil, nas duas épocas, a análise é otimista. Avançamos muito. Em 1991, não tínhamos nenhuma empresa apta a competir na selva mundial. O que conquistamos, de lá para cá, não é desprezível. Poucos países na América Latina evoluíram como o Brasil. Basta ver o que temos – Gerdau, Embraer e vários outros exemplos de excelência internacional. Se a gente tivesse adotado antes medidas como a abertura da economia... A verdade é que, antes de 1991, as pessoas e as empresas nem sabiam como comparar seu custo com o custo internacional. Elas não tinham referências. A economia brasileira era tão protegida que elas se sentiam as donas do mercado. Estavam prestes a morrer. Aliás, nesse processo muitos morreram mesmo – as empresas que não agüentaram a competição. A rigor, eram poucos os que haviam percebido que a coisa iria mudar. Outros trataram de correr quando viram que a abertura era para valer e que deviam ter apostado nesse cenário bem antes. Aqueles que conseguiram se dar bem são os que hoje fazem parte da lista das empresas brasileiras competitivas. E o interessante é que o prêmio nacional de qualidade nasceu nessa mesma época da abertura da economia, embora pouca gente relacione uma coisa com a outra. Havia o programa gaúcho de qualidade e produtividade, o precursor do movimento nacional.

E qual é a regra para seguir competitivo diante dos novos desafios trazidos por competidores velozes?
A regra é perceber que, depois de entrar no jogo, você terá de estar muito atento o tempo todo. Como os outros estão correndo, não tem parada, sabe? Você pode estar achando que não tem mais nada para fazer, e acaba descobrindo que o jogo está só começando. O segredo, hoje, é ter uma dinâmica acelerada. Quem não conseguir manter o ritmo de inovações, de mudanças necessárias para manter a competitividade, vai sofrer.

Brasil ainda mantém um grau de proteção à indústria local mais elevado que o de outros países. Na sua opinião, um novo movimento de abertura do mercado brasileiro seria desejável ou apenas caracterizaria uma atitude ingênua, como apregoam os críticos da redução das alíquotas de importação?
O padrão do comércio internacional mudou e quase não há alternativa. É impensável imaginar um país com certo tamanho, e com uma indústria razoável, como o Brasil, fechando-se. Muitos pregam que o país reduza imediatamente suas tarifas de importação e de forma unilateral para se beneficiar logo dos ganhos de competitividade que teríamos. Eu ainda acho que é melhor conciliar a abertura de nosso mercado com a abertura dos mercados agrícolas lá fora. Já que vamos abrir, e a tendência é mesmo de redução das tarifas industriais, então que se negocie este processo para abrir uma vantagem do outro lado. Mas isso, claro, desde que as negociações evoluam melhor, não demorem tanto – porque nós precisamos, mesmo, desta abertura do mercado. Ela vai bombar ganhos de eficiência para dentro da economia brasileira.

Muitos setores da indústria cobram algum tipo de proteção, apontando benefícios que outros países dispensam, internamente, a certos segmentos...
É, eu tendo a concluir que o jogo do comércio mundial é pesado e requer alguma proteção. Mas defendo a tese de que o tipo de proteção necessária hoje mudou. É diferente daquela do passado. Em outras épocas, você fechava a economia para consolidar o setor industrial do país e atrair investidores. O que se dizia para eles era algo como: Olha, quem vier produzir aqui vai ter vantagens; praticamente não vai ter competidor externo... Esse era o segredo. Hoje é diferente. O Brasil tem um setor produtivo sofisticado e que sabe competir, conhece o seu negócio, tem gestão e desenvoltura para disputar mercado no mundo. A proteção que o país precisa não é do mercado doméstico, e sim de medidas como a melhoria da infra-estrutura. Aí nós temos muita coisa para fazer. São fatores que prejudicam a competitividade das empresas mas que não estão sob controle delas – atuam da porteira para fora. Resolver estes problemas é a lição de casa que temos para fazer. E há uma parte, muito fácil, que é baixar as tarifas de importação. Isso é simples, é um decreto. Agora, o que não se pode imaginar é fechar a economia brasileira à importação de bens de consumo, de bens intermediários e principalmente de bens de capital. Desse jeito, você não compete no mundo.

“O padrão mudou. Não dá para imaginar um país com certo tamanho, e com uma indústria razoável, como o Brasil, fechando-se. Desse jeito, você não compete no mundo”

Que setores da indústria brasileira se manteriam competitivos, globalmente, mesmo sob o impacto de uma redução de tarifas de importação?
Ao contrário de países pequenos, temos muitos setores competitivos e poderíamos, portanto, partir com tranqüilidade para uma redução de alíquotas. Nossas indústrias baseadas em alimentos, madeira, grãos, couro e recursos naturais, em geral, são fortes. Havendo boa gestão, ninguém derruba a gente nestas áreas. Agora, quando se analisam setores intensivos em tecnologia e que não têm a ver com recursos naturais, como a indústria aeronáutica, automobilística, eletroeletrônica, aí a situação se complica. Porque o Brasil não fez a sua grande lição de casa, que é a educação. O nosso investimento em pesquisa e desenvolvimento não é tão expressivo. É, mais, um investimento focado em ciência.

 

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