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No tabuleiro do xadrez siderúrgico existe, literalmente,
um rei. Ele se chama Lakshmi Mittal, 56 anos. O bilionário
indiano é o controlador do grupo siderúrgico que
desponta como o número um do mundo. Dono de uma fortuna
pessoal de US$ 23,5 bilhões, o empresário desembarcou
no Brasil, depois de arrematar a francesa Arcelor, em junho do
ano passado. A Arcelor-Mittal, como ficou conhecida após
a aquisição, tornou-se um gigante da siderurgia,
com faturamento de US$ 60 bilhões, 360 mil funcionários
e capacidade produtiva de 109,7 milhões de toneladas. Mesmo
assim, o grupo siderúrgico tem apenas 10% da produção
mundial de aço.
Quando visitou o Brasil, em agosto de 2006, Mittal
disse que o país será usado como uma plataforma
para o crescimento futuro do grupo. Mas certamente não
é por causa das belas paisagens que o indiano quer fincar
pé no Brasil. Em primeiro lugar, o país tem minério
de ferro abundante. Isso não só reduz o custo da
matéria-prima para as usinas do grupo como facilita uma
aliança estratégica com um fornecedor global como
a Companhia Vale do Rio Doce. A abundância de matéria-prima
e o baixo custo da mão-de-obra são fatores que aumentam
a competitividade brasileira na produção de aço
semi-acabado. No Brasil, uma tonelada sai por cerca de US$ 200,
enquanto na China sai por US$ 290. Esse custo chega a US$ 300
nos Estados Unidos, US$ 320 no Japão e US$ 330 na Alemanha.
Claro, o Brasil não é o mais competitivo do mundo,
já que na Índia e na Ucrânia esse valor é
de US$ 170, e na Rússia, de US$ 150. “Mas somos competitivos
o suficiente para justificar uma grande expansão futura
da Arcelor-Mittal no Brasil e, a partir daqui, na América
Latina”, afirma Carlos Serapião Júnior, diplomata
licenciado e consultor em comércio exterior radicado em
Moscou.
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No processo
de concentração mundial das siderúrgicas,
as empresas brasileiras certamente estão entre as consolidadoras
Marco Polo de Mello Lopes, vice-presidente executivo do Instituto
Brasileiro de Siderurgia |
O principal chamariz para a companhia indiana
é o futuro Pólo de Cação, um conjunto
de projetos envolvendo a Vale, o governo do Espírito Santo e
outras empresas. O empreendimento fica em Anchieta, a 70 quilômetros
de Vitória. No local já existem um Terminal Portuário
de águas profundas da Samarco Mineração e
um complexo de usinas de pelotas de minério de ferro em
expansão. Existe também um terminal de apoio off-shore
para exploração e produção de
petróleo. Com a restrição de áreas no
porto de Tubarão, agravada pelo pico de demanda por minério, o
Pólo de Cação vem na hora certa. “Não
é para menos que o local tem atraído pesos-pesados
como a Mittal, que planeja construir uma megassiderúrgica
na região”, avalia José Luís Canejo,
ex-executivo da Vale e atualmente consultor de empresas.
Planos para o Brasil –
No Espírito Santo, cogita-se uma parceria entre Mittal
e Vale – e para breve. O rumor é reforçado
pelo fato de, há pouco tempo, um ex-funcionário
da Vale ter assumido o comando da área de matérias-primas
do grupo indiano. “A aproximação entre as
duas companhias está aí para todo mundo ver”,
conta um funcionário da Acesita que prefere não
ser identificado. Além do mais, a Vale costuma participar
como minoritária em projetos de expansão de grandes
clientes. “A Vale pode muito bem entrar como minoritária
nesta nova planta da Mittal, para viabilizar o negócio”,
diz José Maria Novaes, da MetalMec, consultoria capixaba
na área de siderurgia.
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| Unidade da Arcelor-Mittal, na Europa:
grupo é candidato a adquirir mais usinas no mundo |
Para outros analistas, a aproximação
entre Vale e Mittal é apenas política de boa vizinhança.
“Há um interesse mútuo em manter relações
estáveis”, diz Luiz Alberto Binz, analista da Geração
Futuro. Procurada por AMANHÃ, a CVRD não quis se
pronunciar sobre o assunto. Mas com a Vale, ou sem ela, uma coisa
é certa: a expansão latino-americana da Mittal vai
começar pelo Brasil.
Ao arrebatar a Arcelor, a Mittal levou junto os
planos de crescimento do grupo europeu. A Companhia Siderúrgica
de Tubarão (CST), no Espírito Santo, é um
exemplo. A Arcelor já planejava concluir até junho
o projeto de expansão da CST, que vai aumentar em 50% a
produção atual de 5 milhões de toneladas
anuais. O investimento custou aos cofres europeus cerca de US$
1 bilhão. A Vega do Sul, unidade do grupo em São
Francisco do Sul (SC), também pode receber um aporte para
ampliar a produção. Ainda dentro das possibilidades
de expansão estão as usinas da Belgo Mineira, em
João Monlevade e Juiz de Fora (MG). É verdade que,
por enquanto, esses planos continuam no papel.
Uma quarta peça que poderia ser movida
pela Mittal no tabuleiro brasileiro seria uma nova ampliação
da CST. Para os analistas, um único movimento da Mittal
pode indicar qual será o futuro do grupo no país.
“Se decidir investir na Belgo, com certeza será um
sinal de que a Mittal quer fazer do Brasil uma base para seus
negócios”, crê Germano Mendes de Paula, da
Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
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