| Quem vê Jorge Machado pela primeira
vez sequer desconfia que está diante
de um dos mais poderosos empresários de futebol do Brasil.
Com os cabelos desgrenhados, a camiseta para fora das calças
e os ponteiros de um Tag Heuer cromado no pulso, Machado não
se parece em nada com um homem que realiza negócios milionários
no mercado da bola – a não ser, talvez, pela semelhança
com
o craque argentino Maradona. “Se eu uso óculos escuros,
me pedem até autógrafo”, diverte-se. Machado
bem que tentou se firmar como jogador de futebol. Mas foi fora
dos gramados, montando equipes e vendendo atletas, que este gaúcho
de Erechim construiu sua verdadeira fama. Hoje, aos 45 anos, Machado
é “dono” de 600 jogadores brasileiros e estrangeiros.
Em pelo menos duas ocasiões, seus craques foram negociados
com a Europa por mais de US$ 30 milhões – o que lhe
assegurou um lugar na lista dos 50 maiores empresários
de futebol do mundo. Nesta entrevista a AMANHÃ, Machado
conta como é o desafio de administrar a vida de um profissional
tão badalado quanto o jogador de futebol. E afirma: não
há Lei Pelé capaz de conter a vocação
brasileira para formar grandes craques.
O torcedor vê o empresário de futebol como
um vilão: um sujeito não muito ético, que
acelera a debandada dos grandes jogadores brasileiros para a Europa.
Como é possível prosperar carregando esse tipo de
imagem?
A verdade é que o torcedor não conhece bem a atividade
do empresário. O que o torcedor vê é só
o que está em evidência: é o empresário
que vende o grande jogador, o Rivaldo, o Rafael Sóbis...
e lucra em cima disso. Ninguém vê o outro lado. Hoje
pela manhã, enquanto caminhava na esteira da minha casa,
eu vi uma reportagem muito interessante na ESPN Brasil. Mostrava
que, estatisticamente, 99% dos jogadores brasileiros ganham menos
de um salário mínimo. Só 1% ganham mais de
R$ 4 mil. E olha que eu estou falando dos que têm clube
para jogar. Hoje, quase 15% dos jogadores brasileiros estão
desempregados. Mas eu, sozinho, sustento mais de 600 atletas no
país inteiro. Preciso disso, faz parte da minha atividade.
Mas isso ninguém vê. O nome do empresário
só aparece quando surge um grande negócio.
Você “sustenta” os jogadores?
Sim, e alguns deles são garotos de 12 anos. No Mogi Mirim,
de São Paulo, tenho 70 moleques. No Internacional, de Porto
Alegre, eu tenho parceria com 18 jogadores. Também tem
gente no São Paulo, no Flamengo, no Grêmio e em vários
outros clubes. Em alguns casos, sustento o garoto e todo o resto
da família. Faz parte da atividade. É preciso apostar
naqueles que podem vir a ser grandes jogadores. Mesmo assim, não
é um negócio simples. A maioria deles nunca estoura.
Quer dizer que a atividade não é tão
rentável assim?
Não, não quero dizer isso. A profissão é
muito boa, muito rentável. Quando você consegue achar
um jogador como o Rivaldo ou como o Pato (Alexandre Pato,
revelação do Internacional cujos direitos pertencem
ao empresário Gilmar Veloz), é quase como ganhar
na Loteria Esportiva. Mas, para isso, você tem de pegar
mais de 600 atletas, como eu, para conseguir tirar dois ou três
bons negócios por ano.
Você acha que existe má vontade contra
o empresário de futebol?
A mídia e os torcedores encaram o empresário pelo
lado ruim. Colocam que é aproveitador, que não tem
ética, etc. Mas pega a CPI do Futebol: 18 dirigentes foram
indiciados e nenhum deles era empresário. E todo mundo
achava que eram os empresários os vilões da história.
Mas você paga impostos, encargos trabalhistas
e essas taxas que qualquer empresa paga?
Claro. Minha atividade também é feita de forma “tradicional”.
Eu pago imposto de renda, tenho empresa constituída, arrecado
e trago divisas para dentro do país, como em qualquer outro
ramo. Mas é evidente que também tem muita gente
mal intencionada nesse negócio. Tem aqueles que garimpam
um garoto de 10 ou 11 anos, prometem mundos e fundos e, chega
na hora, deixam o atleta e toda a família na mão.
Felizmente, os próprios clubes e alguns dirigentes têm
trabalhado para evitar esse tipo de problema, até porque
eles sabem o quanto isso prejudica o jogador.
“Muito jogador de futebol não
sabe cuidar do dinheiro. Ele ganha uma fortuna e o que ele
faz? Vai lá e compra um posto de gasolina. Só
que não conhece nem a cor da gasolina...”
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Como se entra nessa atividade? O que é preciso
para se tornar um empresário de futebol?
O que é preciso eu não sei. Acho que é importante
ter contatos, facilidade de relacionamento. Eu, pelo menos, sempre
tive.
No seu caso, como foi?
Eu comecei por acaso, há 13 ou 14 anos. Eu havia largado
o futebol [Jorge Machado foi jogador profissional até
os anos 90] e inaugurado uma lojinha no interior de São
Paulo. Uma noite, eu estava numa churrascaria sem ter o que fazer
e, de repente, na mesa do lado, vi o Pinga, um ex-zagueiro que
havia sofrido uma lesão muito grave. Eu o conhecia, tinha
jogado com ele na categoria infantil do Internacional. Ele me
pediu: “Olha, eu joguei em muitos times aqui do interior
de São Paulo, será que você não consegue
um timinho para eu jogar?”. Então eu liguei para
o presidente do Ituano, clube em que eu também havia jogado.
Ele gostou da idéia de ter o Pinga e aí eu passei
os contatos. Três dias depois, eu recebi um telefonema do
presidente do Ituano pedindo o número da minha conta bancária,
que ele queria me mandar uma comissão. Foi aí que
me deu o estalo. Comecei a procurar jogadores, refazer alguns
contatos. E eu conhecia o Branco, o Dunga, o Raí... Todos
eles me ajudaram muito a entrar nessa atividade.
Quanto você ganhou no seu primeiro negócio?
Um dos meus primeiros negócios foi com o Ypiranga, de Erechim.
Na época, eu conhecia o Antônio Luís Dalprak,
que era presidente do clube. Eu levei para ele um ponta-esquerda
chamado Alexandre e ganhei R$ 50 de comissão.
Desde então, qual foi o melhor negócio
que você já realizou?
Foram dois. Um deles, a venda do Rivaldo, que então jogava
no La Coruña, da Espanha, para o Barcelona. Saiu por US$
32 milhões, na época. A outra grande venda foi a
do Fábio Rockembach (ex-atleta do Internacional),
que também atingiu os
US$ 32 milhões. É lógico que só uma
partezinha desses valores ficou comigo. Geralmente, uma negociação
desse tamanho tem seis, sete pessoas envolvidas. Mas fiz a minha
carreira. Já não consigo mais imaginar o que teria
acontecido comigo se eu não virasse empresário.
Acho que acabaria como porteiro de bordel. (risos).
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