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      Edição 230 - Abril de 2007
 

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Um dos mais poderosos empresários do futebol brasileiro conta como é a rotina de quem vive da compra e venda de jogadores. E garante: na prática,
a Lei Pelé não é boa para ninguém

 
Andreas Müller

Quem vê Jorge Machado pela primeira vez sequer desconfia que está diante
de um dos mais poderosos empresários de futebol do Brasil. Com os cabelos desgrenhados, a camiseta para fora das calças e os ponteiros de um Tag Heuer cromado no pulso, Machado não se parece em nada com um homem que realiza negócios milionários no mercado da bola – a não ser, talvez, pela semelhança com
o craque argentino Maradona. “Se eu uso óculos escuros, me pedem até autógrafo”, diverte-se. Machado bem que tentou se firmar como jogador de futebol. Mas foi fora dos gramados, montando equipes e vendendo atletas, que este gaúcho de Erechim construiu sua verdadeira fama. Hoje, aos 45 anos, Machado é “dono” de 600 jogadores brasileiros e estrangeiros. Em pelo menos duas ocasiões, seus craques foram negociados com a Europa por mais de US$ 30 milhões – o que lhe assegurou um lugar na lista dos 50 maiores empresários de futebol do mundo. Nesta entrevista a AMANHÃ, Machado conta como é o desafio de administrar a vida de um profissional tão badalado quanto o jogador de futebol. E afirma: não há Lei Pelé capaz de conter a vocação brasileira para formar grandes craques.

O torcedor vê o empresário de futebol como um vilão: um sujeito não muito ético, que acelera a debandada dos grandes jogadores brasileiros para a Europa. Como é possível prosperar carregando esse tipo de imagem?
A verdade é que o torcedor não conhece bem a atividade do empresário. O que o torcedor vê é só o que está em evidência: é o empresário que vende o grande jogador, o Rivaldo, o Rafael Sóbis... e lucra em cima disso. Ninguém vê o outro lado. Hoje pela manhã, enquanto caminhava na esteira da minha casa, eu vi uma reportagem muito interessante na ESPN Brasil. Mostrava que, estatisticamente, 99% dos jogadores brasileiros ganham menos de um salário mínimo. Só 1% ganham mais de R$ 4 mil. E olha que eu estou falando dos que têm clube para jogar. Hoje, quase 15% dos jogadores brasileiros estão desempregados. Mas eu, sozinho, sustento mais de 600 atletas no país inteiro. Preciso disso, faz parte da minha atividade. Mas isso ninguém vê. O nome do empresário só aparece quando surge um grande negócio.

Você “sustenta” os jogadores?
Sim, e alguns deles são garotos de 12 anos. No Mogi Mirim, de São Paulo, tenho 70 moleques. No Internacional, de Porto Alegre, eu tenho parceria com 18 jogadores. Também tem gente no São Paulo, no Flamengo, no Grêmio e em vários outros clubes. Em alguns casos, sustento o garoto e todo o resto da família. Faz parte da atividade. É preciso apostar naqueles que podem vir a ser grandes jogadores. Mesmo assim, não é um negócio simples. A maioria deles nunca estoura.

Quer dizer que a atividade não é tão rentável assim?
Não, não quero dizer isso. A profissão é muito boa, muito rentável. Quando você consegue achar um jogador como o Rivaldo ou como o Pato (Alexandre Pato, revelação do Internacional cujos direitos pertencem ao empresário Gilmar Veloz), é quase como ganhar na Loteria Esportiva. Mas, para isso, você tem de pegar mais de 600 atletas, como eu, para conseguir tirar dois ou três bons negócios por ano.

Você acha que existe má vontade contra o empresário de futebol?
A mídia e os torcedores encaram o empresário pelo lado ruim. Colocam que é aproveitador, que não tem ética, etc. Mas pega a CPI do Futebol: 18 dirigentes foram indiciados e nenhum deles era empresário. E todo mundo achava que eram os empresários os vilões da história.

Mas você paga impostos, encargos trabalhistas e essas taxas que qualquer empresa paga?
Claro. Minha atividade também é feita de forma “tradicional”. Eu pago imposto de renda, tenho empresa constituída, arrecado e trago divisas para dentro do país, como em qualquer outro ramo. Mas é evidente que também tem muita gente mal intencionada nesse negócio. Tem aqueles que garimpam um garoto de 10 ou 11 anos, prometem mundos e fundos e, chega na hora, deixam o atleta e toda a família na mão. Felizmente, os próprios clubes e alguns dirigentes têm trabalhado para evitar esse tipo de problema, até porque eles sabem o quanto isso prejudica o jogador.

“Muito jogador de futebol não sabe cuidar do dinheiro. Ele ganha uma fortuna e o que ele faz? Vai lá e compra um posto de gasolina. Só que não conhece nem a cor da gasolina...”

Como se entra nessa atividade? O que é preciso para se tornar um empresário de futebol?
O que é preciso eu não sei. Acho que é importante ter contatos, facilidade de relacionamento. Eu, pelo menos, sempre tive.

No seu caso, como foi?
Eu comecei por acaso, há 13 ou 14 anos. Eu havia largado o futebol [Jorge Machado foi jogador profissional até os anos 90] e inaugurado uma lojinha no interior de São Paulo. Uma noite, eu estava numa churrascaria sem ter o que fazer e, de repente, na mesa do lado, vi o Pinga, um ex-zagueiro que havia sofrido uma lesão muito grave. Eu o conhecia, tinha jogado com ele na categoria infantil do Internacional. Ele me pediu: “Olha, eu joguei em muitos times aqui do interior de São Paulo, será que você não consegue um timinho para eu jogar?”. Então eu liguei para o presidente do Ituano, clube em que eu também havia jogado. Ele gostou da idéia de ter o Pinga e aí eu passei os contatos. Três dias depois, eu recebi um telefonema do presidente do Ituano pedindo o número da minha conta bancária, que ele queria me mandar uma comissão. Foi aí que me deu o estalo. Comecei a procurar jogadores, refazer alguns contatos. E eu conhecia o Branco, o Dunga, o Raí... Todos eles me ajudaram muito a entrar nessa atividade.

Quanto você ganhou no seu primeiro negócio?
Um dos meus primeiros negócios foi com o Ypiranga, de Erechim. Na época, eu conhecia o Antônio Luís Dalprak, que era presidente do clube. Eu levei para ele um ponta-esquerda chamado Alexandre e ganhei R$ 50 de comissão.

Desde então, qual foi o melhor negócio que você já realizou?
Foram dois. Um deles, a venda do Rivaldo, que então jogava no La Coruña, da Espanha, para o Barcelona. Saiu por US$ 32 milhões, na época. A outra grande venda foi a do Fábio Rockembach (ex-atleta do Internacional), que também atingiu os
US$ 32 milhões. É lógico que só uma partezinha desses valores ficou comigo. Geralmente, uma negociação desse tamanho tem seis, sete pessoas envolvidas. Mas fiz a minha carreira. Já não consigo mais imaginar o que teria acontecido comigo se eu não virasse empresário. Acho que acabaria como porteiro de bordel. (risos).

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