| Em janeiro deste ano, a Grendene adotou uma estratégia
diferente para difundir os lançamentos de sua linha de sandálias
Melissa. Em vez de despejar todo o orçamento de marketing em
campanhas de mídia tradicional, a empresa recrutou quatro meninas
“comuns” – isto é, quatro consumidoras em potencial
da Melissa – e as transformou em garotas-propaganda. É
claro que a seleção não foi feita ao léu.
Mariana Lima, Ana Paula Matta, Carolina Alvez e Shana Roeder foram escolhidas
por um motivo simples: todas elas são donas de “fotologs”
– ou blogs com imagens que, a cada dia, recebem a visita
de dezenas de milhares de garotas como elas. Primeiro, elas fizeram
a cobertura da São Paulo Fashion Week pela marca. Assistiram
aos desfiles, produziram vídeos e fotos e os publicaram no site
da Melissa, diretamente do lounge da empresa no evento. Em
março, as meninas foram modelos de uma seqüência de
peças publicitárias da marca na revista Capricho,
direcionada ao público “teen”. Cada uma delas escolheu
o figurino e ajudou a compor o próprio anúncio em que
estrelaria. Depois das quatro peças de página dupla, aparece
uma quinta peça. São duas páginas em branco, com
uma cartela de adesivos anexada para que a consumidora crie o seu próprio
anúncio e o envie para o site da Melissa. As quatro
“fotologgers” escolherão os dez melhores trabalhos,
que serão expostos numa galeria virtual. Criada pela agência
Borghierh/Lowe, a campanha se chama “Create Yourself” –
em português, “Crie Você Mesmo”.
A Grendene é uma das várias empresas que estão
se adequando a uma tendência cada vez mais forte: a de envolver
o próprio consumidor nas estratégias de marketing e vendas
de cada produto. O consumidor da era cibernética simplesmente
deixou de ser um “agente passivo”. Na internet, ele cria
suas redes de amigos, publica e pesquisa vídeos no YouTube, cria
blogs. Fora da rede, quer dar palpites sobre o design
dos produtos que usa. O consumidor cria o seu próprio conteúdo,
gosta de interferir nos processos de decisão das empresas e de
indicar produtos para os seus amigos. Atentas e, ao mesmo tempo, preocupadas,
as empresas querem transformar esse superconsumidor em aliado –
ou, ao menos, evitar que ele se transforme num poderoso inimigo. “Esse
processo não tem volta. O consumidor sempre buscou, sempre quis
ter um maior poder. A diferença é que, hoje, há
ferramentas que permitem isso”, avalia Lucas Mello, diretor de
estratégias e sócio da LiveAD, agência que trabalha
com o conceito de creative media – que prega a utilização
de canais de mídia alternativos para a divulgação
de marcas.

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| Comerciais da Melissa: o consumidor, agora,
ajuda a empresa a vender |
Aos poucos, as empresas começam a desenvolver meios para utilizar
o novo poder de difusão do consumidor em favor de suas próprias
marcas. Na essência, as estratégias adotadas não
fazem mais do que combinar o velho boca-a-boca com o alcance ilimitado
da internet – uma espécie de marketing de rede virtual.
Em todas elas, o principal desafio é conquistar o envolvimento
desse novo consumidor. Nesta reportagem especial, AMANHÃ apresenta
quatro estratégias para dar conta da missão. Uma é
a de envolver o comprador no próprio processo de desenvolvimento
de design do produto. A segunda é a de recrutá-lo
para criar conteúdo interessante e, assim, atrair a audiência
de outros potenciais clientes. Outra é utilizar os consumidores
como se fossem mídias para difundir a marca. Finalmente, a estratégia
consagrada por empresas como Natura, Herbalife e outras: a de transformar
o próprio comprador em vendedor. Acompanhe:

Tradicionalmente, as estratégias de marketing e desenvolvimento
de um produto seguiam uma lógica prospectiva. As empresas faziam
uma pesquisa de mercado, tentavam mapear os desejos e necessidades do
consumidor e, a partir daí, trabalhavam para atendê-lo
por completo. Hoje, no entanto, essa prática está sendo
substituída por outra: a de permitir que o consumidor simplesmente
faça o produto do jeito que bem entende. Ele não apenas
responde se gostou ou não gostou de um produto ou serviço
– em vez disso, é convidado a dizer exatamente o que quer
e como quer.
Um exemplo é a Tramontina. Desde 2005, a empresa forma, a cada
ano, um comitê de consumidores para a sua linha de facas Century,
voltada para o público de chefs e gourmets.
“Esse grupo tem uma relação diferente com os produtos
que usa na cozinha”, explica Gilberto Giustina, diretor de planejamento
da agência DCS, que cuida do marketing da Tramontina. “São
pessoas apaixonadas por comida e, portanto, mais exigentes.” O
grupo, com oito pessoas, acompanha a empresa ao longo de um ano. Eles
recebem os produtos para usar e dão feedback sobre a
performance da linha. Além disso, a agência avalia como
a Tramontina está se saindo na sua estratégia de comunicação.
Num mês, o grupo discute o site, e no outro, os anúncios,
o ponto-de-venda e assim por diante. “Eles são verdadeiros
consultores para o produto e para a comunicação da empresa”,
destaca Giustina. Aparentemente, os consumidores apreciam a oportunidade
de palpitar. Vários participantes se ofereceram para continuar
colaborando quando a Tramontina decidiu renovar o comitê, no final
de 2005. “Eles se sentem valorizados e ainda sabem que, dessa
forma, terão um produto mais adequado. É a legítima
relação ganha-ganha”, conclui Giustina. Segundo
ele, o método também ajuda a trazer diferenciação
aos produtos. “A gente precisa buscar a diferença. E as
formas convencionais de pesquisa já não tiram do consumidor
essa diferença”, sustenta.
Em alguns casos, as empresas colocam a formatação de
um produto totalmente na mão do consumidor. Foi o que aconteceu
com a operadora Claro quando promoveu o festival “Claro q é
Rock”, em 2005. Uma equipe de pesquisadores da Live AD, agência
promotora do evento, foi a bares e festas no Rio de Janeiro e em São
Paulo para garimpar jovens ligados ao mundo do rock. Falaram com cerca
de 10 mil e, destes, foram escolhidos 450. Esse grupo ficou responsável
por definir quase todas as características do festival: escolheu
as bandas, os locais e até o valor dos ingressos. “A interatividade
é muito fácil, até porque o brasileiro adora participar.
Ele liga, ele tem opinião, ele gosta de ser ouvido. Diferentemente,
por exemplo, do europeu, ou até do americano, que faz isso em
extensão muito menor”, compara Luiz Carlos Sá, coordenador
do MBA em Marketing da Fundação Getúlio Vargas.
Pagar para ajudar – Não que as pesquisas
de mercado estejam fadadas a desparecer. Ouvir o que o consumidor tem
a dizer sempre será importante para que as empresas consigam
detectar oportunidades de crescimento ou corrigir os rumos das suas
campanhas de marketing. A questão é que, agora, as companhias
também podem desenvolver uma parte de seus produtos por meio
de uma estratégia simples, eficaz e até simpática
de diálogo com o cliente. “É o que se chama de costumer-in.
É incorporar o ponto de vista do cliente desde o início”,
explica Ricardo Pomeranz, sócio-presidente da Rapp Collins Brasil,
consultoria especializada em marketing de relacionamento. “Em
alguns casos, o consumidor até paga para fazer isso”, acrescenta
ele. Um exemplo é o sistema operacional Windows, da Microsoft.
No mundo inteiro, há uma “elite” de 600 consumidores
– conhecidos como “beta-testadores” – que pagam
uma determinada taxa pelo privilégio de experimentar as novas
versões do software antes mesmo que elas sejam lançadas
no mercado. Considerando-se que o padrão Windows continua sendo
hegemonia nos computadores de todo o planeta, é de se imaginar
que, nesse caso, a estratégia vem funcionando muito bem.
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