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O Brasil e a China
O que o Brasil tem a aprender com a China?
Nada. Em primeiro lugar, lá não há uma democracia.
É um regime bastante autoritário. Não há
liberdade individual, tudo é proibido. Religião,
liberdade de expressão, mídia: tudo sob o controle
do partido comunista. Em segundo lugar, não existe empreendedorismo
verdadeiro em território chinês. Os empresários
são estrangeiros investindo na China e usando, apenas,
mão-de-obra barata – tudo provido pelo partido comunista.
Em terceiro lugar, o que a China produz para o mundo não
é inovador. Os fabricantes desenham algum produto na Coréia
ou no Japão, depois os produzem na China e de lá
são exportados. Na prática, o que é “feito
na China” só é empacotado lá. Não
há inovação. O modelo chinês é
lucrável somente para uma pequena elite. Os que pertencem
ao “podium” são 200 milhões, mas os
outros um bilhão de chineses são mantidos fora do
sistema econômico.
O Brasil está bem atrás da China em termos
de crescimento econômico...
Sim, o Brasil está atrás, mas porque vive num sistema
democrático. E em toda a democracia o crescimento é
mais lento, pois o processo de decisão é mais lento.
Algumas pessoas vão dizer: então a saída
é termos um totalitarismo para caminharmos mais rápido.
Mas não se pode levar em consideração apenas
fatores econômicos. A democracia é muito importante.
Talvez você perca 1% ou 2% de crescimento ao ano, mas você
tem outras coisas que os chineses, por exemplo, não têm.
Outra razão para o crescimento lento do Brasil é
que uma imensa parte da população não está
integrada na sociedade porque não tem educação.
Os investimentos na educação básica são
muito baixos. O Brasil deveria apostar no microcrédito.
Toda vez que menciono a falta de microcrédito no país,
eu ouço: “Mas nós temos”. Vocês
têm, mas como uma forma de corrupção e populismo,
não como um processo econômico. O sistema de microcrédito
deveria ser gerenciado pela iniciativa privada. É muito
importante que os empresários no Brasil entendam que o
país está no caminho certo por causa da continuidade
econômica.
O que emperra as mudanças na política
brasileira?
O problema do Brasil é não ter partidos políticos
nacionais e sim organizações regionais, agremiações
locais. Assim o processo político é muito lento
e existe muita corrupção – porque você
tem que comprar os votos dos membros do parlamento. Esse é
o Brasil. Acho que as coisas vão mudar e haverá
mais partidos nacionais no futuro por causa da migração
para outros Estados. Cada vez mais pessoas vão do Nordeste
para São Paulo. Então, o comportamento político
delas deverá mudar. Por causa da educação,
das oportunidades e porque elas pertencem a um país global
que é o Brasil. Conseqüentemente, eles vão
agir como cidadãos brasileiros e menos como cidadãos
do Maranhão, por exemplo. Eu digo “do Maranhão”
por causa do José Sarney. Hoje, se você é
um cidadão do Maranhão, você vota no Sarney
porque ele foi bom para os seus pais e existe uma tradição
familiar de apoio a ele. Acredito que com o crescimento da economia,
mudanças demográficas e migração interna,
pouco a pouco você verá uma redução
deste poder local e de partidos locais. No entanto, será
lento o processo de substituição dos partidos locais
por outros mais nacionais. Neste momento, no Brasil, a pobreza
tem a ver com suas origens locais. E muitos Estados no Brasil
foram organizados para que os pobres se mantivessem pobres. Desta
maneira, você precisa de política nacional para destruir
a estrutura feudal no Nordeste do Brasil. Lembre-se que nos Estados
Unidos o povo queria manter a escravatura em nome da liberdade
do Estado. Aqui não é escravatura, mas é
uma espécie de sistema feudal. Então eles dizem
para o governo central: vocês não devem interferir
nos nossos problemas. Esse problema só pode ser destruído
pela nacionalização do corpo político.
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