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Política na América Latina
O senhor considera correta a estratégia de fechar
acordos bilaterais ou todos os latino-americanos deveriam se unir?
Não acho que todos deveriam se juntar, pois até
que todos entrem num consenso pode-se levar séculos. Há
uma grande diversidade na América Latina. Os problemas
não são os mesmos em todos os países. A Argentina,
por exemplo, tem uma grande pedra no sapato que é a dívida.
Mesmo quando o país boicotou 75% dela, ainda restaram 25%
que precisam ser pagos – e 25% de uma dívida crescente...
Os argentinos sofrem uma grande crise financeira e de legitimidade,
porque ninguém mais está pronto para investir lá.
Por isso, fazer um acordo com o governo argentino é impossível.
Já o Chile é um dos países mais avançados
na América Latina. Por essas e outras, não vejo
problema em cada país negociar diretamente em vez de negociar
em bloco.
Mas, recentemente, Lula criticou a negociação
direta do Uruguai com os Estados Unidos...
Esse posicionamento faz parte da diplomacia imperialista do Brasil.
A crítica a Tabaré Vasquez é totalmente absurda.
O grande problema da América Latina não é
o Uruguai e sim a crise argentina e a a crise na região
andina: Venezuela, Equador, Peru e Bolívia. Nesses quatro
países, basicamente, há um problema étnico.
Na Bolívia, por exemplo, quando Evo Morales foi eleito,
as pessoas disseram que um candidato de esquerda ganhou as eleições.
Não é um esquerdista, é uma vingança
do povo indígena. Nós sempre tendemos a interpretar
as eleições políticas com critérios
da Europa Oriental. Mas devemos olhar para esses países
com um critério relacionado à sua história.
A história da Bolívia e do Peru é uma história
de uma maioria de indígenas, de pessoas exploradas pelos
brancos por muitos séculos. Eles entendem que podem usar
a democracia para tentar se vingar, ou, pelo menos, ter oportunidades
iguais. Originalmente, a guerra civil na Colômbia foi uma
revolta dos negros contra os brancos no poder. Portanto, em toda
a América Latina você tem esse tipo de divisão
étnica que é frequentemente menosprezada.
Como os governos podem fazer para lidar com essa situação?
Para começar, é necessário colocar o assunto
em pauta. Na Bolívia, por exemplo, os presidentes sempre
negam a existência de problema racial. No entanto, se você
olhar nas ruas, percebe quem é pobre e quem é rico.
O problema precisa ser analisado por sociólogos, que tendem
a entender qual é o problema. Será que estas pessoas
têm acesso às mesmas facilidades educacionais? O
país deveria fazer um programa de oportunidades iguais?
Tudo isso deveria ser levado em consideração. Até
hoje nenhum governo boliviano ou peruano pensou em uma ação
afirmativa que pudesse ser aplicada nestes países.
E no Brasil?
No Brasil também existem problemas raciais, mas geralmente
não são analisados como raciais. Oficialmente todos
são iguais. Espero que chegue o dia em que o Brasil envie
um embaixador negro para Paris. Acredito que não exista
nenhum embaixador negro no país. Muitas vezes, maquia-se
o racismo dizendo que os negros são discriminados não
pela cor, mas porque não têm educação.
Se essa é a questão, é preciso criar um sistema
de educação específica para os negros - talvez
uma ação afirmativa no Brasil. Os Estados Unidos
têm esse conceito de diversidade. A composição
da sociedade brasileira é diversa, mas quando se olha para
a universidade, para os altos cargos públicos, não
há diversidade. Como a diversidade pode ser incluída
no sistema? Não num sistema de cotas. Vamos pensar no problema
e achar uma solução.
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