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      Edição 229 - Março de 2007
 

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Liberalismo político e econômico

Dizem que você é um liberal e alguns se arriscam a dizer que você é um liberal extremista. Você se vê assim?
Ser liberal não tem o mesmo significado no Brasil, nos Estados Unidos e na França. Se eu fosse brasileiro, acho que eu não seria um. No caso dos Estados Unidos, o liberalismo é mais orientado pelo livre mercado, mas na França é diferente. Lá, a tradição do liberalismo é mais política do que econômica. Toda a história do liberalismo francês foi calcada na luta pelos direitos humanos, das liberdades pessoais, da democracia. Minha maior atividade na França é lutar pelos direitos humanos e, atualmente, pelos direitos humanos na China. Então, sou um liberal na versão francesa. Economia livre, para mim, é apenas um mecanismo. Agora, extremista, eu não sou, isso não tem sentido. A maior fraqueza do liberalismo na França e na Europa é o de não ser extremo. Somos muito orgulhosos e centristas. Na política francesa, por exemplo, eu sou conhecido como um centrista.

O liberalismo, na América Latina, é uma ideologia de pessoas brancas, principalmente?
Sim, porque essa é a história do Brasil e da maior parte da América Latina. No século 19, a palavra liberalismo era usada pela aristocracia latino-americana como uma idéia para justificar e manter seus privilégios – como acontecia no Sul dos Estados Unidos, na época da guerra civil. Devemos lembrar que também em nome do liberalismo as pessoas eram contrárias à libertação dos escravos. Tudo isso foi um tipo de manipulação do conceito francês. É isso que eu quero dizer quando falo que, se eu fosse brasileiro, provavelmente não seria liberal. Reafirmo, liberalismo na França e na Europa oriental representa luta pelos direitos humanos. É por isso que somos a favor da democracia e do mercado livre - mas somente se este mercado contribuir para a liberdade das pessoas.

E como o mercado livre pode favorecer as pessoas?
Se você observar a história da economia vai ver que o mercado livre é uma distração da aristocracia tradicional e que, se o mercado não é livre, a economia permanece estagnada. Dessa forma, as pessoas que estão no topo permanecem lá e as que estão embaixo, não sobem. O mercado livre é uma força muito revolucionária na economia porque permite que todos possam fazer parte: é um sistema de oportunidades iguais para as pessoas. Quando não há mercado livre, você não tem oportunidade. Na falta de progresso de economia nesse mercado, você pode, individualmente, manter somente as conexões políticas. No comunismo, você está com o partido ou não – como na China atualmente. Se você está com o partido, tudo bem; caso contrário, não tem progresso. No estatismo, acontece o mesmo. É um sistema de oportunidades baseado em conexões políticas. Assim, o sistema do mercado livre é relativamente democrático, e isto tem sido demonstrado pela experiência. Com o livre mercado, o crescimento econômico, você tem mais qualidade, mais oportunidades. Ou seja, é um sistema mais democrático. Por isso, liberais são a favor do mercado livre, e não por razões políticas. Não sou um defensor dos negócios, eu não sou um homem de negócios. Eu sou a favor das oportunidades iguais e apóio o mercado livre em nome dessas oportunidades.

E quem deve ser responsável pelas áreas de educação e saúde?
Depende. Acredito que a educação e saúde básica devem, geralmente, ser providas pelo Estado, porque não são atividades lucráveis. Por isso, a comunidade empresarial não tem interesse. Mas o mais importante é que as pessoas tenham opção de escolha, que eu possa comparar, não importando se é público ou privado. O problema é que as opções de escolha inexistem nas operações estatistas.

Os brasileiros têm escolha?
No Brasil, só se você tiver dinheiro. Se você não tem, a escolha não existe, especialmente com relação à educação. O sistema educacional no Brasil é para poucas pessoas e este é o maior problema do país há muitos anos. Entre os brasileiros, todo o debate sobre liberalismo é ideológico e teórico: ou você é a favor do mercado ou é a favor do Estado. E este tipo de debate é pouco interessante. O debate tem que ser: damos às pessoas o direito de escolha?

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