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      Edição 229 - Março de 2007
 

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O presidente da Fiesc diz que o mundo está cheio de oportunidades para empresas que deixarem de pensar localmente – e de contar com o governo

 
Eugênio Esber

Aos 64 anos, o engenheiro mecânico Alcantaro Corrêa se sente cada vez mais à vontade para dizer o que pensa. Nascido em Pomerode, cidade próxima de Blumenau, o presidente da Eletro Aço Altona cultiva um estilo direto, sem filtros. Em seu gabinete na presidência da Fiesc, onde despacha com um mapa-múndi à retaguarda, Alcantaro recebeu AMANHÃ para uma conversa que durou quase duas horas e não tangenciou polêmicas. Além dos petardos de praxe contra a voracidade do fisco e a insuficiência do PAC para acelerar o crescimento, Alcantaro não economizou cartuchos na direção de empresários que considera desatentos às oportunidades globais ou, em certos casos, até mesmo acomodados. “Há quem prefira ficar na praia em vez de circular”, fustigou. Professor do curso de Economia da Furb, de Blumenau, Alcantaro Corrêa rema contra a maré de opiniões favoráveis a uma intervenção mais forte do governo no mercado de câmbio (“Não há milagre a fazer para deter a queda do dólar”) e diz que a solução, mesmo, é esquadrinhar o planeta para vender mais e encontrar fornecedores de menor custo. “Não há outro caminho”, sustenta.

Qual deve ser a atitude dos industriais diante da dificuldade cada vez maior para produzir de forma competitiva?
A indústria deve lutar por seus direitos. Recentemente, por exemplo, derrubamos a tentativa do governo de Santa Catarina de elevar o ICMS. A sociedade toda se mobilizou para isso, porque já não há mais como suportar a carga tributária. De todo modo, a mobilização poderia ser maior. Mas muitos empresários foram machucados ao longo do tempo por tantos planos e mudanças na economia e ficam com medo de ser atingidos de uma forma indireta, pela fiscalização, pelo que seja... Então eu percebo que, quando tomo alguma atitude, alguns vêm me cumprimentar: “Isso mesmo, alguém tem de berrar, alguém tem de combater”.

Os empresários temem retaliações?
Muitos temem porque nós temos vivido situações bastante.. Há uma coisa chamada fiscalização, que pode ser no âmbito de um Estado, ou no plano federal. Alguma coisa dirigida para incomodar, e a pessoa se assusta. Infelizmente, isso existe. Mas veja: embora essa luta toda seja muito importante no plano interno, eu acho que também temos de atuar no sentido de levar os empresários para fora do país, por intermédio de missões. A indústria precisa deixar de pensar localmente e começar a ver o mundo em busca de oportunidades – porque elas existem. Muitas vezes, nós ficamos aqui no Brasil chorando, discutindo as dificuldades que temos, imaginando que alguém venha fazer um milagre para melhorar essa situação do dólar... E acabamos não saindo à luta. Tenho dito, sempre: saia do Estado, vá rodar pelo mundo que você vai ver muitas coisas.

O empresário, ao olhar o cenário global, tende a ver mais riscos do que oportunidades?
Eu sempre digo que um negócio depende de gestão. Observe, por exemplo, a situação de empresários de um mesmo setor. Um vai mal, enquanto o outro – que usou as mesmas máquinas, as mesmas matérias-primas e está sujeito ao mesmo câmbio – vai bem. Qual é a diferença? A diferença é gestão. E digo mais: esse empresário, que está mal, provavelmente se complicou porque entrou num esquema em que ele não precisava vender. Ele foi comprado, ao longo de muitos anos, e de uma hora para outra a coisa caiu e ele não sabe vender. Na outra ponta, a do sucesso, está o empresário que vende, que busca os clientes que ele quer, que coloca o seu produto no mercado, que não fica preso a um comprador forte no mundo. São posturas diferentes.

A baixa cotação do dólar desnudou a dificuldade do empresário brasileiro de vender e construir sua marca lá fora?
Sim. Mas a solução é sair, e por quê? Porque o Brasil tem uma demanda pequena – e que está reprimida. Somos um país que não tem poupança, não pode crescer, não pode investir... Então, para indústrias que têm um parque moderno e atualizado tecnologicamente, a oportunidade é o mundo. Não tem outra.

Quais são as grandes oportunidades que o mundo oferece à indústria brasileira?
O mundo está crescendo. E precisa, antes de mais nada, de energia. Nem falemos da Índia, que ainda está adormecida, mas da China. Eles têm de inaugurar, todo mês, uma usina de 300 megawatts durante os próximos anos para chegar a 2050 em uma situação de equilíbrio de energia. E ainda tem a Índia, tem toda a Ásia maior, e não estamos falando nem da Rússia, que está lá, quieta, e tem um tremendo potencial de crescimento porque acumula um superávit anual enorme, acima dos US$ 100 bilhões ao ano, e este dinheiro está sendo acumulado em algum lugar – negócios envolvendo gás natural, por exemplo. A infra-estrutura é um grande foco de oportunidades. O mundo todo precisa de estradas, aeroportos... Há países que precisam ser inteiramente recuperados, como o Iraque, onde se promovem feiras especiais para atrair investidores de todo o planeta. O mundo precisa de cobre, ninguém pensa nisso. Cobre e níquel – o que abre imensa perspectiva para o setor de mineração. A área de alimentação vem a reboque – cada vez mais os povos precisarão de comida.  E de muitas outras coisas que nem sempre são
percebidas.

“O Brasil tem uma demanda pequena, e que está reprimida. Somos um país que não tem poupança, que não pode crescer. A oportunidade é o mundo. Não tem outra”

Por exemplo...
O mundo precisa de moradias. A começar pelo Brasil, que tem um déficit de 10 milhões de moradias. Eu estive na Coréia do Sul, em 1993, e lá foi dito que o governo tinha focado um programa de construção de 8 milhões de habitaçõess para atender a essa necessidade do país. Ano passado, eu estive lá e acreditei que eles chegaram a esta marca de 8 milhões, porque por onde eu andava eram conglomerados de edifícios, cheios de apartamentos. Ano passado, eu também estive no Kuwait, nos Emirados Árabes e no Catar. Ninguém imagina o que está sendo construído lá. Só no aeroporto do Catar estão sendo investidos US$ 10 bilhões. Gente, isso é dinheiro, é oportunidade para o mundo inteiro ir lá fazer negócios. Eles nos diziam: “Entrem na internet e lá vocês poderão ver o que podem fornecer: roupa de cama, toalha, papel higiênico, vidro, tijolos, telha, ar-condicionado”. Está na internet. Nós podemos ir lá e competir. Mas isso não é conhecido aqui. O Brasil pouco informa sobre aquela região. Para equipar todas essas moradias que foram construídas em cidades como Dubai, são necessários móveis, toalhas de mesa, de rosto, de banho. Mas o nosso pessoal da área têxtil, que reclama da situação aqui, não está presente lá. A China e a Índia, apenas, é que estão atendendo àquela demanda. Por isso que eu digo: enquanto o Brasil permanece encolhido e quieto, o mundo está aberto, cheio de oportunidades. Em uma de nossas missões, um revendedor de granito e mármore de Florianópolis vendeu 25 mil metros quadrados de piso de granito para a Biblioteca Nacional do Kuwait. Veja só. Foi sem maior expectativa e, quando deu por si, estava com várias pessoas em uma mesa, fechando negócios. Voltou sorrindo de orelha a orelha.

O que inibe tanto o empresário brasileiro?
O grande problema é esse primeiro contato, a eliminação do medo, a dificuldade de comunicação. Por exemplo, a gente vai à China e lá não falam nem inglês. Então é complicado: se não tiver um intérprete ou o endereço na mão, o sujeito não volta para o hotel e fica na rua porque ninguém entende nada. Nós estamos resolvendo isso com as missões. É um sistema em que as pessoas vão de forma segura, com intérpretes e tendo toda a logística previamente resolvida. Ao fim dessas missões, a gente ouve o pessoal dizer: “Olha, eu estarei voltando para este lugar aqui”. Elas já criaram coragem, já sabem se virar. Perceberam que a barreira da língua é algo que pode ser superado sem maiores problemas. Há intérpretes aos montes.

Como o senhor orienta a sua empresa para tirar proveito desse cenário global?
Desde cedo, eu instituí – e isso já virou rotina – que a todo momento nós precisamos ter pessoas andando pelo mundo. Nesse instante, por exemplo, um de nossos engenheiros está em Tóquio, fazendo uma pesquisa sobre o que os japoneses importam do nosso setor – que é de metalurgia, produtos de aço. Ele já está lá há uma semana e vai ficar mais duas semanas num ambiente que nós identificamos para essa finalidade. Ele recebe uma sala com conexão de internet e telefone e dali se movimenta dentro do arquivo dessa instituição, que é uma espécie de CNI do Japão, e dali para fora. Quando encontra alguma dificuldade, ele tem o apoio da instituição. Ele paga somente o gasto de telefone e de internet – o resto é livre. É um prédio de mais de 20 andares. Três deles com salas à disposição de quem quer prospectar negócios – tanto vender para o Japão quanto comprar deles. Conheci esse ambiente quando estive lá e, ao voltar para Santa Catarina, disse: “Fulano, vamos providenciar”. Foi com essa postura que aumentamos bastante a participação das exportações na nossa receita. Mês passado, essa participação chegou a 35%. O dólar está baixo? E daí? Você já viu alguma empresa exportadora perdendo dinheiro? Nenhuma. Porque, se fosse assim, elas não exportariam.

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