Risco não é aleatório –
Mesmo cientes da existência dos riscos e avessos a perdas, a maioria
dos gestores brasileiros ainda não dão a devida atenção
às modernas ferramentas de gerenciamento nessa área. A
advertência é de Lucia Hauptman, da consultoria Booz-Allen
& Hamilton. No ano passado, ela visitou 15 das maiores empresas
do país e teve uma surpresa desagradável. “A gestão
de risco ainda é muito incipiente”, garante. Lucia não
é voz solitária entre os especialistas do mercado. “Há
empresas que aplicam algumas políticas de gerenciamento de risco
apenas para buscar certificações de qualidade”,
alerta Peter Mello, consultor associado ao Project Management Institute
(PMI), dos Estados Unidos. Além disso, a falta de uma visão
holística e de uma linguagem para a área dificultam o
desenvolvimento de uma ferramenta tecnológica única. “É
tudo feito na mão, em Word, Excel. Não há uma abordagem
automatizada integrada para a gestão de risco”, afirma
Alberto Bastos, do comitê brasileiro da ISO 31000 (leia quadro
nas próximas páginas).
Com um investimento de R$ 53 milhões, em novembro
do ano passado, o Grupo Industrial Trombini, do Paraná, inaugurou
uma das mais modernas fábricas de embalagens de papel ondulado
da América Latina. A planta fica exatamente no mesmo local da
outra que, em julho de 2005, foi consumida por um incêndio. Foram
perdidas 5 mil bobinas de papelão e a máquina de ondulação,
o principal equipamento da fábrica. Recuperada e recém-reinaugurada,
a Trombini faturou cerca de R$ 540 milhões em 2006. “Sempre
nos preocupamos com prevenção de incêndios, mas
infelizmente um dia eles acontecem”, constata Renato Trombini,
presidente da companhia.
David Apgar não concorda com a idéia de
que eventualmente o risco pode se consumar em um fato negativo. No livro
Risk Intelligence, o especialista norte-americano garante que
a maioria dos riscos não é aleatória. Em outras
palavras, os acidentes não acontecem simplesmente. Com um aprendizado
prévio sobre os fenômenos, é possível fazer
previsão e prevenção de eventos. Há abordagens
ainda mais radicais. “Evitar riscos é seguir as normas.
Com a obediência à norma, está implícito
que o risco foi consumido”, assegura Carlos Eduardo Moreira Maffei,
professor de Engenharia de Estruturas e Fundações da Politécnica
da USP (Poli/USP).
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| Incêndio na Trombini: recuperada, a empresa
fatura R$ 540 milhões |
Ferramentas modernas – Como a
extinção de todos os riscos é uma quimera, os especialistas
da área optaram por conjugar o verbo “mitigar” (atenuar)
em todos os tempos: passado, presente e futuro. “O risco não
é eliminado, é administrado”, apregoa Baraldi. Forçadas
por leis mais modernas, pela cobrança dos investidores e pelas
demandas do mercado, as grandes companhias de capital aberto se dedicam
agora à evolução do gerenciamento de riscos em
todos os segmentos empresariais. “O investidor quer saber o grau
de exposição ao risco das companhias globais e vai exigir
o mesmo das locais”, acredita Lamb, professor da UFRGS.
Ao longo dos últimos quinze anos, houve um avanço
significativo nas ferramentas de gestão de risco. Em 1992, foi
publicado o estudo Controles Internos – Um Modelo Integrado
pelo Comitê das Organizações Patrocinadoras (Coso).
Até hoje, o documento serve de referência mundial e é
aplicado em programas de gestão de risco e governança
corporativa. E, embora o Enterprise Risk Management (ERM) já
seja conhecido no universo acadêmico da administração
de empresas desde o final da década de 1990, o conceito ainda
pode ser considerado uma “tendência” no Brasil. “Nós
chamamos a área de ‘universo da gestão de risco’
porque cada ‘planeta’ tem uma terminologia, estrutura e
conceitos próprios”, explica De Cicco, da consultoria QSP.
A proposta do ERM é fazer essa integração: tratar
os eventos de forma articulada e criar um cenário de risco global
para cada empresa. Por enquanto, são raros os casos práticos.
Na Petrobras, por exemplo, há um grande esforço
de integração do gerenciamento de risco. Mas ainda é
impossível imaginar uma equipe de profissionais capazes de lidar
com questões tão díspares como as ameaças
ao preço internacional do petróleo e os perigos operacionais
em uma plataforma marítima. Portanto, embora haja um comitê
único com dez pessoas para tratar da gestão de risco,
na Petrobras esse controle é feito em duas grandes grandes vertentes:
riscos corporativos e SMS (Segurança, Meio Ambiente e Saúde).
Responsável pela administração
do risco corporativo da Petrobras, Jorge Nahas tem cinco gerentes em
sua equipe e muito trabalho. Diariamente, eles recolhem e interpretam
informações para acompanhar os riscos que causam maior
impacto no resultado financeiro da empresa: riscos do mercado de juros
e câmbio, riscos tributários, patrimoniais e a volatilidade
de preço da commodity. “Não há petróleo
em país calmo, só em país problemático”,
brinca para enfatizar a quantidade de variáveis com que sua equipe
lida todos os dias. “Nós somos uma espécie de ‘holding
do risco’ da companhia e existem ‘células’
nas diversas áreas que executam as ações planejadas”,
resume. Nahas afirma que o gerenciamento de risco é uma das 15
diretrizes corporativas da Petrobras e que essa cultura é sólida
e antiga na companhia. Ele admite, porém, que o vazamento de
petróleo na Baía da Guanabara (2000) e o acidente com
a plataforma P-36 (2001), que matou dez pessoas, foram um aprendizado
duro. “A lição fez a política de gestão
de riscos ficar mais intensa”, garante.
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| Aracruz: a gestão de risco da companhia
se baseia nos conceitos integradores do Enterprise Risk Management
(ERM) |
Depois do desastre na Baía da Guanabara, em
que vazaram quase 6 mil metros cúbicos de petróleo, a
companhia implantou o Programa Pégaso na área SMS de gerenciamento
de riscos. Até 2006, haviam sido investidos R$ 10,5 bilhões
em mais de 4 mil projetos para mitigar, reduzir ou eliminar riscos.
Um dos maiores investimentos foi na integridade da rede de dutos, sempre
muito vulnerável à corrosão e à instabilidade
dos terrenos. Além da inspeção e manutenção,
em caso de vazamento, há agora um sistema automático de
bloqueio das válvulas dos dutos. “Não depende mais
de uma pessoa detectar o acidente e fechar as válvulas”,
explica Luís César Stano, gerente de desempenho da área
SMS.
Em 2006, houve o vazamento de apenas 293 metros cúbicos
de petróleo. “O risco de um grande acidente é muito
menor Hoje, os pequenos vazamentos acontecem em função
da complexidade da operação”, explica Stano. Como
é impossível eliminar todas as causas operacionais de
vazamentos, foi criada uma estrutura para reagir rapidamente e reduzir
as conseqüências no caso de um grande acidente. A Petrobras
tem três navios que fazem a vigilância 24 horas por dia,
na costa de quatro Estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Sergipe
e Alagoas. Nos acidentes de trabalho, houve também uma queda
significativa de freqüência: o índice foi de 3,6 acidentados
por 1 milhão de homens-horas trabalhadas em 2000 para 0,76 no
ano passado.
A intensificação da política de
gerenciamento de risco na Petrobras, na área SMS, foi dirigida
pela seguinte lógica. Primeiro, os investimentos foram nos equipamentos
da infra-estrutura. Depois, o alvo foi a elaboração de
novas normas e, em seguida, o Programa de Desenvolvimento de Processos
buscou o comprometimento das pessoas. Atualmente, a gestão de
risco se concentra nos desvios – fugas do padrão de normalidade.
Há um forte argumento para que a atuação seja focada
em desvios. “Um dado internacional mostra o seguinte: para cada
pessoa que morre em um acidente de trabalho, há 30 acidentes
com pessoas machucadas, 300 acidentes sem pessoas machucadas, 3 mil
anomalias e 30 mil desvios”, enumera Stano.
Tanto na área de risco corporativo quanto na
de SMS, existe um objetivo final para todas as ações:
a melhoria e a preservação da imagem da companhia. “Já
somos a única empresa de petróleo de um país em
desenvolvimento com indicadores tão baixos de risco. E há
metas mais rigorosas para 2011”, antecipa Stano, da SMS. “Quando
a imagem está em risco, as conseqüências são
quaseinquantificáveis. A preocupação, nesse caso,
é pela sobrevivência da companhia”, completa Nahas,
da área de risco corporativo.
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