| Silenciosamente, desde a sucessão de escândalos
financeiros que nocauteou gigantes como Enron e o ataque às torres
gêmeas em Nova York, a sociedade contemporânea deixou de
perceber o risco como uma possibilidade e passou a sentir o peso de
um sintoma. Paul Krugman, economista e colunista do jornal New York
Times, aliás, chegou a afirmar que os escândalos financeiros
causaram – e ainda causam – um impacto mais intenso do que
a explosão dos edifícios do World Trade Center.
Nos últimos anos, a visão do risco mudou. Agora, parece
ser uma realidade assustadora, palpável e inescapável.
No universo corporativo, o risco beira a paranóia. Equívocos
estratégicos, acidentes operacionais, desvios financeiros e rupturas
de cenário são capazes de levar um negócio global
à bancarrota. Na velocidade da internet, as ações
despencam simultaneamente nas bolsas de valores de diversas capitais
do mundo e os resultados corporativos se liquefazem. Milhares de acionistas
perdem bilhões em investimentos e centenas de executivos.
Um estudo realizado pela Deloitte entre 1994 e 2003 revela que quase
metade das mil maiores companhias mundiais tiveram quedas abruptas (cerca
de 20%) do valor das ações nesse período. Ao contrário
do que se imaginava, porém, não foram as fraudes financeiras
as principais vilãs. O relatório, chamado de Os 29 Destruidores
de Valor, aponta os riscos estratégicos assumidos pelos executivos
como a maior causa. Outro levantamento, feito pela consultoria norte-americana
Booz-Allen & Hamilton, confirma o resultado: 87% da perda de valor
de uma empresa está relacionada a erros estratégicos ou
operacionais.
Nunca diga “nunca” – Na administração
de riscos, a palavra “nunca” deve ser simplesmente cortada
do dicionário. Por muitos meses e até anos, Odebrecht,
OAS, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez
– o pool de empreiteiras da Linha 4 do metrô paulistano
– terão de conviver com o abalo de imagem causado pela
abertura da cratera nas obras em Pinheiros. Foram sete mortos entre
trabalhadores e cidadãos que simplesmente passavam pelo local
quando o chão se abriu sob seus pés. “A engenharia
não é uma ciência exata, sempre atua com modelos
e sempre tem incerteza”, pontifica Vahan Agopyan, diretor do Instituto
de Pesquisa Tecnológica (IPT), órgão encarregado
de emitir um laudo sobre o acidente. Embora o pool de empreiteiras
aponte o excesso de chuvas como causa, nesse tipo de acidente é
muito difícil responsabilizar um único fator. “Em
geral, uma série de pequenas causas se sobrepõem e provocam
a fatalidade. Toda obra tem risco e por isso tem seguro”, garante
Cláudio Dall’Acqua, presidente da União Panamericana
de Associações de Engenheiros (Upade).
Sem fazer comentários específicos sobre a cratera do
Metrô de São Paulo, Agopyan dá o exemplo da construção
de uma rede coletora de águas pluviais. “O cálculo
é feito, vamos dizer, com base na previsão da máxima
chuva possível para os próximos 50 anos. Na semana seguinte,
essa chuva acontece e inunda tudo.”
Embora estudos da Organização da Aviação
Civil Internacional (Oaci) revelem que voar é 11 vezes mais seguro
do que andar de carro, os acidentes com aviões continuam a causar
vítimas em todo o mundo e a derrubar as ações das
com panhias aéreas. No mês seguinte após o acidente
com o vôo 1907, que vitimou 154 pessoas, as ações
da Gol se desvalorizaram em quase 10%, enquanto o índice Bovespa
subiu 6,7%. Uma das maiores dificuldades do gerenciamento de risco é
a mensuração dos efeitos sociais de um acidente. “Quando
entra no risco social, começa a complicar: quanto custa uma vida?
Essa discussão dá pano para manga”, analisa Francesco
De Cicco, sócio-diretor da QSP, uma organização
não-governamental para a melhoria contínua dos sistemas
de gestão.
Da superstição à razão –
Desde a Antiguidade, o homem luta para tirar o futuro da mão
dos deuses. No século 16, Leibniz concluiu que a natureza possui
padrões que provocam a repetição dos eventos –
mas só na maioria das vezes. “Sem essa ressalva, tudo seria
previsível”, comenta Peter Bernstein (leia quadro nas
páginas seguintes). Com os olhos no passado e no presente,
foram criadas ferramentas matemáticas (da estatística
à série histórica) para prever qual a probabilidade
de um fenômeno voltar a acontecer. No século 21, a razão
pretende balizar o controle de riscos com o objetivo de colocar o passado
e o futuro a favor dos melhores resultados no presente. Apesar de assumidamente
racionalistas, os escapes supersticiosos ocorrem – inclusive no
universo corporativo.
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| Tragédia no Metrô de São
Paulo: uma sucessão de pequenas falhas |
No final de fevereiro, a recém-inaugurada companhia aérea
Brussels Airlines, da Bélgica, foi obrigada a modificar sua logomarca.
Formada por um B estilizado com 13 círculos vermelhos, as reclamações
dos passageiros supersticiosos – especialmente norte-americanos
e italianos – fizeram a companhia acrescentar mais um ponto à
marca. Portanto, em um programa de gerenciamento de riscos, a variável
do comportamento humano é um dos maiores desafios. “Como
balizar e quantificar a ação das pessoas? É preciso
liderança para diminuir a ‘volatilidade’ do comportamento
dos indivíduos”, admite Paulo Baraldi, consultor da Risk
at Risk e autor do livro Gerenciamento de Riscos Corporativos.
A atitude das pessoas dentro da empresa, às vezes, pode ser
a causa de grandes problemas, como a divulgação de documentos
confidenciais ou a cópia de projetos técnicos. Pessoalmente
ou por meios eletrônicos, esse tipo de falha não é
raro. Robert Janssen, consultor da Associação para Programação
da Excelência do Software Brasileiro (Softex), lembra de um caso
recente. Chegando para uma reunião em uma empresa, foi convidado
a aguardar na sala do executivo com quem se encontraria. “Em cima
da mesa, estavam documentos bastante confidenciais”, lembra.
O fato é que toda atividade empresarial envolve a convivência
com algum grau de risco, embora os gestores tenham uma aparente ojeriza
a essa idéia. “O empresário tem uma natural aversão
ao risco: ele só entra em um negócio se acredita que vai
ganhar mais dinheiro”, observa Roberto Lamb, professor de Finanças
da UFRGS. Dessa forma, os executivos se dedicam a traçar estratégias
que gerem cada vez mais valor para os acionistas no presente e no futuro.
É a busca dessa perspectiva racional contra o risco que forma
o chamado tripé de sustentabilidade das empresas: resultados
econômico-financeiros, questões sociais e ambientais. Só
que nem tudo é racional dentro das organizações.
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