| Andreas
Müller e Eduardo
Lorea

Não é difícil entender por
que as embalagens, elas mesmas, estão se tornando um dos
principais veículos de venda das empresas. Basta vasculhar
a história: esse novo padrão, que se manifesta em
embalagens cada vez mais “inteligentes”, é
apenas a etapa atual de um longo processo de evolução
que teve início no Brasil dos anos 40 – quando os
únicos “supermercados” eram os armazéns
de secos e molhados. É o que mostra o livro História
da Embalagem no Brasil, dos jornalistas Pedro Cavalcanti
e Carmo Chagas. Lançado pela Associação Brasileira
de Embalagem (Abre), o estudo mostra como o crescimento da população
urbana no país deu origem a um ambiente de consumo individualista
e dinâmico – no qual as embalagens passaram a ter
diversas outras funções além de proteger
produtos. Hoje, a embalagem também ajuda a racionar custos
de distribuição e venda. É um veículo
de comunicação da marca com o consumidor. Mais do
que isso, é uma espécie de “vendedor silencioso”
– que, às vezes, pesa mais na escolha do consumidor
do que o produto propriamente dito. Mas como foi chegar a esse
ponto?
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| Sinal dos tempos: antigamente, os rótulos
de bebidas vinham lotados de informação, muitas
vezes de cunho político. Com o passar do tempo, os panfletos
deram lugar a desenhos mais clean, feitos para agradar
à primeira vista |
“Mais de 90% dos produtos disponíveis
no mercado não contam com nenhum apoio de propaganda ou
marketing. Para esses, o único recurso de comunicação
é a própria embalagem”, explica o designer
Fábio Mestriner, ex-presidente da Abre e um dos idealizadores
do livro. Atualmente, diz ele, existem mais de 50 estratégias
conhecidas de marketing via embalagem. Uma delas, já clássica,
é a de utilizar os próprios rótulos ou caixas
para propagandear outros produtos de uma mesma linha. Foi o que
fez a Kellog’s do Brasil, a fabricante do Sucrilhos, ao
lançar a sua própria versão de barrinha de
cereais no país. Por um certo tempo, a empresa distribuiu
amostras gratuitas da novidade dentro das caixas de Sucrilhos.
Por fora, uma ilustração mostrava o tigre Tony,
o mascote oficial da marca, segurando a barrinha e convidando
o consumidor a experimentá-la. “Eles usaram uma embalagem
para comunicar o lançamento de um novo produto e, é
claro, para vender mais Sucrilhos”, resume Mestriner.
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| Antes e depois: nos antigos armazéns,
tudo era vendido no balcão, a granel. Nos supermercados
de hoje, as embalagens assumem a tarefa de “vender”
o produto |
Os próprios designers ainda estão
se adaptando aos novos tempos. Lincoln Seragini, um dos mais respeitados
especialistas brasileiros, destaca que a embalagem está
se tornando um elemento cada vez mais dinâmico. “Ela
está se transformando no principal diferencial competitivo
para a maioria das marcas. Até porque os produtos já
não apresentam tantas inovações no conteúdo
em si”, defende ele. Nesse contexto, formas, cores e tamanhos
mudam o tempo todo, e cada produto chega ao consumidor empacotado
de uma maneira adequada à ocasião – seja ela
um desfile de Carnaval, um jantar romântico ou uma reunião
de negócios. Essa tendência aparece nas embalagens
de marcas consagradas como Coca-Cola e Omo, ou nos kits promocionais
de operadoras de telefone celular como Oi, Claro e Vivo, que trocam
de roupa conforme a estação. “É impossível
desenhar uma embalagem universal, capaz de satisfazer a todos
os consumidores em todas as situações”, defende
a americana JoAnn Hines, dona da consultoria Packaging Diva, em
entrevista a AMANHÃ.
O
primeiro engradado
A foto ao lado mostra aquilo que, certamente, foram os primeiros
engradados de cerveja do Brasil. As garrafas eram acomodadas
em espigas de palha e, depois, agrupadas em sacos. O trabalho
cabia basicamente a mulheres – em geral, mais cuidadosas
do que os homens. A foto é do início do século
20 e mostra a antiga Fábrica Santa Marina, hoje Saint
Gobain, em São Paulo.

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Quem precisa de vendedor? –
Na prática, as embalagens estão ocupando o espaço
que, antigamente, pertencia ao vendedor de armazém. No
início do século passado, quando não havia
embalagens e tampouco rótulos com merchandising,
cabia aos funcionários atrás do balcão a
tarefa de dar ao cliente todas as informações sobre
cada produto – de preferência, convencendo-o a encher
a sacola. Um trecho de A História da Embalagem no Brasil
resgata os detalhes mais pitorescos do ambiente que vigorava no
comércio daquela época. E recorda como as pessoas
levavam suas compras para casa num tempo em que quase tudo era
vendido a granel:
Muitas mercadorias penduradas no teto, grandes caixas de
madeira contendo milho, quirera, arroz, feijões, farinha-d’água
etc, que eram retiradas com uma medida cônica de lata e
pesadas na grande balança Filizola vermelha, com mostrador
branco, ou na balança antiga, com dois pratos de bronze
e os pesos de latão. (...) Se a quantidade era pequena,
era embrulhada em um cartucho parecido com um pastel ou cone,
como os de amendoins, feito de jornal ou papel pardo. As compras
eram marcadas em caderninho, para pagamento no fim do mês.
(...)
Sobre o balcão havia invariavelmente um suporte
de ferro com três bobinas de larguras diversas. O vendedor
separava a quantidade de papel que julgasse necessária,
cortando-a do rolo com o auxílio de uma lâmina presa
à estrutura. Depois, fazia o embrulho, amarrando-o com
barbante. Não havia, ainda, as fitas adesivas e a única
cola disponível, além do “grude” de
farinha de trigo feito em casa, era a goma arábica.
Esse modelo funcionou bem até os anos 40,
época em que o poder de compra da classe média costumava
se esgotar em necessidades básicas – alimentos, roupas
etc. Terminada a Segunda Guerra Mundial, porém, o rápido
crescimento econômico do país provocou uma virada
radical nos padrões de consumo do brasileiro. As indústrias
de base se consolidaram, as grandes montadoras de veículos
se instalaram no país e Juscelino Kubitschek assumiu a
presidência com a milagrosa meta de fazer o Brasil avançar
50 anos em cinco. Em pouco tempo, o consumidor começava
a aparecer nos armazéns exigindo algo mais do que cartuchos
de papel para levar as compras para casa. “Foi aí
que houve o grande boom na indústria da embalagem”,
conta Fábio Mestriner, hoje coordenador do curso de pós-graduação
em Gestão Estratégica da Embalagem da Escola Superior
de Propaganda e Marketing (ESPM). “Ao contrário do
que se imagina, o brasileiro é um comprador educado para
o consumo, com um nível de exigência alto.”
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| Tendência: no futuro, as embalagens
terão múltiplas funções –
tal como as bandejas de congelados, que tanto conservam como
ajudam a cozinhar os alimentos no forno |
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