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      Edição 228 - Janeiro/Fevereiro de 2007
 

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O ex-ministro Luiz Fernando Cirne Lima diz que Chávez e Evo são criaturas do governo Lula e expõe o que, de fato, pode acelerar o crescimento do país

 
Eugênio Esber e Simone Fernandes

Os cabelos brancos não tornaram Luiz Fernando Cirne Lima menos contundente. Mais jovem ministro da Agricultura que o país já teve, ele era voz dissonante na equipe do governo Médici. “Eu queria um pouco menos de crescimento, mas com mais distribuição de renda”, recorda. Hoje, aos 74 anos, ele vê o Brasil enredado no mesmo dilema – como vencer a estagnação da economia sem trazer de volta a inflação e, sobretudo, sem usar aceleradores de crescimento que produzem mais concentração de renda. Apegado a cavalos e a tudo que envolve a lida rural, Cirne também não perdeu sua energia. Mais do que dirigir a Copesul nos últimos 14 anos, período no qual a central petroquímica migrou para a órbita privada e se tornou uma companhia de US$ 2,4 bilhões, Cirne se tornou um dos maiores fomentadores da cultura no extremo sul. De março a dezembro, por exemplo, a Copesul traz a Porto Alegre alguns dos maiores intelectuais do Brasil e do mundo, na atualidade, para o ciclo de conferências “Fronteiras do Pensamento”. Para conceder esta entrevista, Cirne fechou a agenda por duas horas e até se atrasou para um compromisso pessoal. A verve o venceu.

Crescimento é a grande prioridade do segundo governo Lula. Agora vai?
Ainda é cedo para falar do PAC [Plano de Aceleração do Crescimento], mas, a meu juízo, se o presidente pensa que o Brasil vai crescer por causa dessas medidas, está enganado. Pode ser um início, mas muita coisa precisa ser feita. Uma economia que vem crescendo a 2,5% você não leva para 5% da mesma forma que pode fazer um carrro acelerar de zero a 100 em alguns segundos. Não é assim..

Em que estágio estamos?
A China, a Índia e a Rússia se prepararam para crescer. Estavam prontas para acelerar o desenvolvimento. O Brasil, não. Está nessa mesmice. Desde o governo Fernando Henrique, o país só tem cuidado da estabilização da moeda. Esta é uma conquista importantíssima do período Fernando Henrique, mas também foi só isso. E neste aspecto o primeiro governo Lula foi muito parecido. Agora, Lula vai apostar no crescimento.

Quais são os riscos de uma aceleração abrupta da economia?
Não é só colocar o pé no acelerador. Lula vai apostar nisso, mas o fato é que todos os modelos que aceleram o crescimento são tremendamente concentradores de renda, como na China. Para não causar problemas sociais gravíssimos, os chineses são competentes nas ações sociais que mitigam a concentração de renda. Coisa que o Brasil não sabe fazer. Eu fui ministro [da Agricultura] em uma época [1969/1973] em que o país crescia 9% ao ano. Eu sempre defendi a tese de que é preferível crescer a 7%, distribuindo renda, do que crescer a 9%, concentrando riqueza. Evidente que, depois, a área econômica me linchava por dizer isso...

A aceleração do crescimento, implica o risco de inflação?
Implica, sim, uma boa dose de inflação que hoje a sociedade brasileira não aceita mais porque é tremendamente injusta e concentradora de renda. Os ricos têm instrumentos para se defender da inflação, os assalariados, não. A gente diz que a inflação está dominada, mas em uma economia como a do Brasil os riscos inflacionários estão atrás da porta.

Para acelerar a economia, o governo Lula poderia tolerar níveis mais altos de inflação?
Lula tem suficientemente clara a idéia da importância de manter o controle da inflação. E a equipe econômica está absolutamente afinada com a defesa da moeda.

“O projeto de Lula é voltar em 2014. Para 2010, ele deve apoiar um candidato que não seja petista e não o fustigue. Alguém com o perfil de Aécio”

Se é assim, por que, então, Lula parece assumir, agora, uma postura desenvolvimentista?
É evidente que o projeto do Lula é voltar em 2014. O candidato do Lula para 2014 é ele mesmo. Em 2010, é até preferível, para Lula, passar a presidência para outro partido – para um opositor que não o fustigue. O perfil que vislumbro hoje é o de Aécio Neves. Mineiro, tranqüilão, não vai para o confronto e tem tido muito bom diálogo com o Lula. Na hipótese de ser eleito alguém do PT em 2010, este seria o candidato à reeleição em 2014.

Quais as premissas para o país crescer mais, mas sem inflação?
Um passo gigantesco na vida nacional foi a Lei de Responsabilidade Fiscal. Eu chego até a me perguntar: como é que isso passou? Acho que foi um descuido. Mas dá esperança que outras coisas possam ser viabilizadas: a reforma tributária, a da previdência, a política e a trabalhista-sindical, nesta ordem.

Qual é o ponto central de cada uma dessas reformas?
Na questão tributária, se não mexer no ICMS, não é reforma. O caminho é instituir um Imposto sobre Valor Agregado. Também é preciso mudar a estrutura e a divisão das receitas da União, dos Estados e dos Municípios. Na Previdência, é preciso tapar o rombo de 50 bilhões. Não há país que agüente isso. Há o risco de um colapso e todo mundo vai ter de pagar. O processo é lento e doloroso, mas um dia tem de começar. Na área política, seria um tremendo avanço chegarmos a um sistema distrital misto [um voto no candidato distrital e outro no partido]. Sou a favor do parlamentarismo puro, mas o Brasil ainda não tem maturidade para isso. Também é fundamental mudar a forma de contribuição nas campanhas eleitorais. O financiamento só poderia ser público ou de pessoas físicas, não de empresas. E, por fim, na área trabalhista e sindical, a palavra crucial para inspirar uma reforma deve ser negociação. A legislação atual é um estímulo à automação, à contratação de robôs. As exigências legais levam a terceirizações, a uma série de emaranhados, a saídas muito ruins. Hoje, a informalidade já atinge 50% dos trabalhadores. Não há país que resista a isso... E você fala com o pessoal que atua na Justiça do Trabalho e todos são absolutamente favoráveis à manutenção deste status quo e até de novas regras...

A Justiça do Trabalho está advogando em favor do conflito?
Não é que advogue a causa do conflito, mas ela vive do conflito. Sem o conflito, diminui o número de juízes, de procuradores, os prédios todos que estão aí... O ideal seria começar um processo gradual de flexibilização das leis trabalhistas, tudo baseado na negociação. Os sindicatos de trabalhadores estão resistindo à idéia de negociar porque sentem que podem perder. Mas num processo de negociação todo mundo vai ceder.

E a reforma sindical?
Este é um assunto complexo. Eu apenas diria que, no Brasil, tanto o sindicalismo patronal quanto o laboral estão ultrapassados. Sob o ponto de vista de qualidade da atividade, acho que o patronal está pior.

Voltando à questão da reforma tributária: o que o senhor sugere quando defende mudanças na estrutura de receitas da União, dos Estados e dos Municípios?
A União está muito bem de finanças. Os municípios estão razoavelmente bem. E os Estados estão quebrados. E é preciso que os Estados tenham melhores condições de assumir suas responsabilidade. Isso deve ser levado em conta numa reforma tributária que venha a instituir um imposto sobre valor agregado.

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