| Os cabelos brancos não tornaram
Luiz Fernando Cirne Lima menos contundente. Mais jovem ministro
da Agricultura que o país já teve, ele era voz dissonante
na equipe do governo Médici. “Eu queria um pouco
menos de crescimento, mas com mais distribuição
de renda”, recorda. Hoje, aos 74 anos, ele vê o Brasil
enredado no mesmo dilema – como vencer a estagnação
da economia sem trazer de volta a inflação e, sobretudo,
sem usar aceleradores de crescimento que produzem mais concentração
de renda. Apegado a cavalos e a tudo que envolve a lida rural,
Cirne também não perdeu sua energia. Mais do que
dirigir a Copesul nos últimos 14 anos, período no
qual a central petroquímica migrou para a órbita
privada e se tornou uma companhia de US$ 2,4 bilhões, Cirne
se tornou um dos maiores fomentadores da cultura no extremo sul.
De março a dezembro, por exemplo, a Copesul traz a Porto
Alegre alguns dos maiores intelectuais do Brasil e do mundo, na
atualidade, para o ciclo de conferências “Fronteiras
do Pensamento”. Para conceder esta entrevista, Cirne fechou
a agenda por duas horas e até se atrasou para um compromisso
pessoal. A verve o venceu.
Crescimento é a grande prioridade do segundo
governo Lula. Agora vai?
Ainda é cedo para falar do PAC [Plano de Aceleração
do Crescimento], mas, a meu juízo, se o presidente
pensa que o Brasil vai crescer por causa dessas medidas, está
enganado. Pode ser um início, mas muita coisa precisa ser
feita. Uma economia que vem crescendo a 2,5% você não
leva para 5% da mesma forma que pode fazer um carrro acelerar
de zero a 100 em alguns segundos. Não é assim..
Em que estágio estamos?
A China, a Índia e a Rússia se prepararam para crescer.
Estavam prontas para acelerar o desenvolvimento. O Brasil, não.
Está nessa mesmice. Desde o governo Fernando Henrique,
o país só tem cuidado da estabilização
da moeda. Esta é uma conquista importantíssima do
período Fernando Henrique, mas também foi só
isso. E neste aspecto o primeiro governo Lula foi muito parecido.
Agora, Lula vai apostar no crescimento.
Quais são os riscos de uma aceleração
abrupta da economia?
Não é só colocar o pé no acelerador.
Lula vai apostar nisso, mas o fato é que todos os modelos
que aceleram o crescimento são tremendamente concentradores
de renda, como na China. Para não causar problemas sociais
gravíssimos, os chineses são competentes nas ações
sociais que mitigam a concentração de renda. Coisa
que o Brasil não sabe fazer. Eu fui ministro [da Agricultura]
em uma época [1969/1973] em que o país
crescia 9% ao ano. Eu sempre defendi a tese de que é preferível
crescer a 7%, distribuindo renda, do que crescer a 9%, concentrando
riqueza. Evidente que, depois, a área econômica me
linchava por dizer isso...
A aceleração do crescimento, implica o
risco de inflação?
Implica, sim, uma boa dose de inflação que hoje
a sociedade brasileira não aceita mais porque é
tremendamente injusta e concentradora de renda. Os ricos têm
instrumentos para se defender da inflação, os assalariados,
não. A gente diz que a inflação está
dominada, mas em uma economia como a do Brasil os riscos inflacionários
estão atrás da porta.
Para acelerar a economia, o governo Lula poderia tolerar
níveis mais altos de inflação?
Lula tem suficientemente clara a idéia da importância
de manter o controle da inflação. E a equipe econômica
está absolutamente afinada com a defesa da moeda.
“O projeto de Lula é
voltar em 2014. Para 2010, ele deve apoiar um candidato que
não seja petista e não o fustigue. Alguém
com o perfil de Aécio”
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Se é assim, por que, então, Lula parece
assumir, agora, uma postura desenvolvimentista?
É evidente que o projeto do Lula é voltar em 2014.
O candidato do Lula para 2014 é ele mesmo. Em 2010, é
até preferível, para Lula, passar a presidência
para outro partido – para um opositor que não o fustigue.
O perfil que vislumbro hoje é o de Aécio Neves.
Mineiro, tranqüilão, não vai para o confronto
e tem tido muito bom diálogo com o Lula. Na hipótese
de ser eleito alguém do PT em 2010, este seria o candidato
à reeleição em 2014.
Quais as premissas para o país crescer mais,
mas sem inflação?
Um passo gigantesco na vida nacional foi a Lei de Responsabilidade
Fiscal. Eu chego até a me perguntar: como é que
isso passou? Acho que foi um descuido. Mas dá esperança
que outras coisas possam ser viabilizadas: a reforma tributária,
a da previdência, a política e a trabalhista-sindical,
nesta ordem.
Qual é o ponto central de cada uma dessas reformas?
Na questão tributária, se não mexer no ICMS,
não é reforma. O caminho é instituir um Imposto
sobre Valor Agregado. Também é preciso mudar a estrutura
e a divisão das receitas da União, dos Estados e
dos Municípios. Na Previdência, é preciso
tapar o rombo de 50 bilhões. Não há país
que agüente isso. Há o risco de um colapso e todo
mundo vai ter de pagar. O processo é lento e doloroso,
mas um dia tem de começar. Na área política,
seria um tremendo avanço chegarmos a um sistema distrital
misto [um voto no candidato distrital e outro no partido].
Sou a favor do parlamentarismo puro, mas o Brasil ainda não
tem maturidade para isso. Também é fundamental mudar
a forma de contribuição nas campanhas eleitorais.
O financiamento só poderia ser público ou de pessoas
físicas, não de empresas. E, por fim, na área
trabalhista e sindical, a palavra crucial para inspirar uma reforma
deve ser negociação. A legislação
atual é um estímulo à automação,
à contratação de robôs. As exigências
legais levam a terceirizações, a uma série
de emaranhados, a saídas muito ruins. Hoje, a informalidade
já atinge 50% dos trabalhadores. Não há país
que resista a isso... E você fala com o pessoal que atua
na Justiça do Trabalho e todos são absolutamente
favoráveis à manutenção deste status
quo e até de novas regras...
A Justiça do Trabalho está advogando em
favor do conflito?
Não é que advogue a causa do conflito, mas ela vive
do conflito. Sem o conflito, diminui o número de juízes,
de procuradores, os prédios todos que estão aí...
O ideal seria começar um processo gradual de flexibilização
das leis trabalhistas, tudo baseado na negociação.
Os sindicatos de trabalhadores estão resistindo à
idéia de negociar porque sentem que podem perder. Mas num
processo de negociação todo mundo vai ceder.
E a reforma sindical?
Este é um assunto complexo. Eu apenas diria que, no Brasil,
tanto o sindicalismo patronal quanto o laboral estão ultrapassados.
Sob o ponto de vista de qualidade da atividade, acho que o patronal
está pior.
Voltando à questão da reforma tributária:
o que o senhor sugere quando defende mudanças na estrutura
de receitas da União, dos Estados e dos Municípios?
A União está muito bem de finanças. Os municípios
estão razoavelmente bem. E os Estados estão quebrados.
E é preciso que os Estados tenham melhores condições
de assumir suas responsabilidade. Isso deve ser levado em conta
numa reforma tributária que venha a instituir um imposto
sobre valor agregado.
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