| Não espere vida fácil. Depois de listar
ações na Bolsa de Valores, o dia-a-dia de uma empresa
nunca mais será a mesmo – especialmente se a abertura de
capital foi realizada sob as regras de governança corporativa
do Novo Mercado. A captação de recursos, com a entrada
de centenas e até milhares de novos acionistas, tem seu preço.
O processo para adequar a gestão da companhia às exigências
de transparência do mercado de capitais é demorado, complexo
e dispendioso. Feita a primeira oferta pública (IPO – Initial
Public Offering – que se pronuncia aipiôu), a vida corporativa
ganha novas cores: é preciso aprender a conviver com o “milagre
da multiplicação dos sócios”. Isso significa
dar satisfação aos “novos patrões”
a cada final de trimestre e dividir o poder das decisões estratégicas.
Como qualquer falha nesse processo de comunicação pode
causar uma grande dor de cabeça, proliferam nas companhias abertas
os gerentes e diretores de relações com investidores (RI).
Esses profissionais têm a responsabilidade de tratar muito bem
e de forma equânime todos os acionistas, além de monitorar
a opinião pública para evitar que as ações
despenquem por pequenos ruídos de linguagem – o que já
ocorreu muitas vezes no mercado de capitais no Brasil e no exterior.
Nenhum patrão é mais suscetível do que o investidor
em ações.
Apesar de o ingresso na Bolsa não ser exatamente simples e
fácil, a evolução do número de IPOs na Bovespa
é galopante. Em 2004, sete empresas brasileiras abriram capital.
No ano seguinte, houve um ligeiro aumento: nove. Em 2006, no entanto,
o total de primeiras ofertas públicas disparou para 26 e a expectativa
do mercado é que chegue a 30 este ano. “Cumprir as obrigações
com os investidores é custoso, mas os benefícios superam
os pontos negativos”, pondera Rodrigo Campos, gerente de RI da
América Latina Logística (ALL).
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| ALL: desde o lançamento, em 2004, as
ações tiveram valorização de 393% |
No ano passado, as 26 ofertas iniciais na Bovespa captaram pouco mais
de R$ 15 bilhões – quase o triplo de 2005. Somadas aos
novos lotes de ações emitidos por companhias veteranas
ao longo dos últimos três anos, este total salta para R$
45 bilhões. É muito dinheiro. Especialmente em um país
em que a média anual de expansão do PIB é de 2,6%
desde o Plano Real. Enquanto o país não cresce, comprar
concorrentes é a palavra de ordem para a expansão dos
negócios. Captar recursos na Bovespa, portanto, é a alternativa
para companhias que querem e precisam ir às compras sem arcar
com os altos juros dos empréstimos bancários.
A boa valorização dos papéis depois do lançamento
em Bolsa é também um aval importante para a captação
de financiamentos com taxas mais amigáveis no sistema financeiro
nacional e internacional. Além disso, a forte expansão
do mercado de capitais no Brasil torna as ações de companhias
brasileiras mais atraentes e oferece às empresas um outro modelo
de aquisição: fechar negócios com a troca de papéis.
O Itaú comprou a operação brasileira do BankBoston
por US$ 2,2 bilhões em papéis. A mesma solução
foi usada, por exemplo, pela ALL para adquirir a Brasil Ferrovias.
Nos últimos três anos, uma série de fatores provocou
uma nova efervescência de negócios na Bovespa, que tem
batido sucessivos recordes. Inflação sob controle e juros
em queda incentivaram os investidores nacionais a buscar aplicações
com remuneração mais alta – ainda que correndo mais
risco. A migração do capital internacional para as economias
emergentes é outro forte estímulo à Bovespa. No
ano passado, 35,5% das aplicações em ações
foram realizadas por investidores estrangeiros. “Na comparação
com os outros emergentes, o mercado de capitais brasileiro entrou para
o leque das boas alternativas de investimento”, comemora João
Batista Fraga, superintendente de relações com empresas
da Bovespa. No total, entre 2003 e 2006, o movimento de negócios
quase triplicou, com um salto de R$ 204 bilhões para R$ 598 bilhões.
“Desde 2003, a alta foi sustentável, uma vez que o lucro
das empresas cresceu na mesma proporção. Já nos
últimos meses de 2006 houve uma certa dose de euforia”,
adverte Fernando Exel, presidente da Economática, consultoria
especializada em análise do mercado de capitais e parceira de
AMANHÃ na elaboração do ranking As Blue Chips do
Sul.
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| Bovespa: há três anos, o pregão
diário bate recordes sucessivos e o mercado de capitais brasileiro
amadurece |
O choque da Bolsa – Preparo e planejamento
são as palavras-chave para as empresas que pretendem abrir capital.
Antes de lançar ações, a Natura passou por seis
anos de treinamento com o auxílio de uma auditoria externa. Adequar
os procedimentos da companhia às exigências do Novo Mercado
é tarefa complexa, pois as regras são mais rígidas
do que a própria legislação societária do
país. A transparência alcançada no relacionamento
com seus diversos públicos, no entanto, é supervalorizada
pelos investidores. Mais da metade das empresas do segmento do Novo
Mercado teve as ações cotadas acima do Ibovespa médio
em 2006. Para Raymundo Magliano Filho, presidente da Bovespa, não
há surpresa. “O Novo Mercado da Bovespa é reconhecido
mundialmente pelos seus altos padrões de governança corporativa,
de transparência e de respeito ao investidor”, orgulha-se.
Na Natura, por exemplo, essas regras mudaram até o relacionamento
entre os departamentos. Hoje é rotina ver todos os assuntos passando
pelos gerentes de RI para evitar que a divulgação de alguma
informação possa prejudicar os acionistas minoritários
ou derrubar os papéis no mercado. “Por mais que a gente
se prepare, sempre surge alguma novidade”, garante Helmut Bossert,
gerente de RI.
Logo depois de seu IPO em 2005, a Grendene viveu uma dessas surpresas
desagradáveis. Um analista ligou para perguntar por que a empresa
estava gastando mais do que o previsto em propaganda. “Quer dizer
que vocês prestam atenção nisso?”, respondeu
um diretor. O escorregão nas regras de transparências derrubou
a cotação das ações. “Isso foi fruto
da inexperiência inicial da empresa para lidar com a linguagem
e a liturgia do mercado de capitais. É episódio encerrado”,
assegura Dóris Wilhelm, gerente de RI.
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