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      Edição 228 - Janeiro/Fevereiro de 2007
 

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Este ano, 30 empresas devem abrir capital para captar dinheiro e crescer. Essa é a parte boa. Difícil é aprender a dar satisfação aos investidores e dividir o poder de decisão

Guilherme Damo e Marcos Graciani

Não espere vida fácil. Depois de listar ações na Bolsa de Valores, o dia-a-dia de uma empresa nunca mais será a mesmo – especialmente se a abertura de capital foi realizada sob as regras de governança corporativa do Novo Mercado. A captação de recursos, com a entrada de centenas e até milhares de novos acionistas, tem seu preço. O processo para adequar a gestão da companhia às exigências de transparência do mercado de capitais é demorado, complexo e dispendioso. Feita a primeira oferta pública (IPO – Initial Public Offering – que se pronuncia aipiôu), a vida corporativa ganha novas cores: é preciso aprender a conviver com o “milagre da multiplicação dos sócios”. Isso significa dar satisfação aos “novos patrões” a cada final de trimestre e dividir o poder das decisões estratégicas.

Como qualquer falha nesse processo de comunicação pode causar uma grande dor de cabeça, proliferam nas companhias abertas os gerentes e diretores de relações com investidores (RI). Esses profissionais têm a responsabilidade de tratar muito bem e de forma equânime todos os acionistas, além de monitorar a opinião pública para evitar que as ações despenquem por pequenos ruídos de linguagem – o que já ocorreu muitas vezes no mercado de capitais no Brasil e no exterior. Nenhum patrão é mais suscetível do que o investidor em ações.

Apesar de o ingresso na Bolsa não ser exatamente simples e fácil, a evolução do número de IPOs na Bovespa é galopante. Em 2004, sete empresas brasileiras abriram capital. No ano seguinte, houve um ligeiro aumento: nove. Em 2006, no entanto, o total de primeiras ofertas públicas disparou para 26 e a expectativa do mercado é que chegue a 30 este ano. “Cumprir as obrigações com os investidores é custoso, mas os benefícios superam os pontos negativos”, pondera Rodrigo Campos, gerente de RI da América Latina Logística (ALL).

ALL: desde o lançamento, em 2004, as ações tiveram valorização de 393%

No ano passado, as 26 ofertas iniciais na Bovespa captaram pouco mais de R$ 15 bilhões – quase o triplo de 2005. Somadas aos novos lotes de ações emitidos por companhias veteranas ao longo dos últimos três anos, este total salta para R$ 45 bilhões. É muito dinheiro. Especialmente em um país em que a média anual de expansão do PIB é de 2,6% desde o Plano Real. Enquanto o país não cresce, comprar concorrentes é a palavra de ordem para a expansão dos negócios. Captar recursos na Bovespa, portanto, é a alternativa para companhias que querem e precisam ir às compras sem arcar com os altos juros dos empréstimos bancários.

A boa valorização dos papéis depois do lançamento em Bolsa é também um aval importante para a captação de financiamentos com taxas mais amigáveis no sistema financeiro nacional e internacional. Além disso, a forte expansão do mercado de capitais no Brasil torna as ações de companhias brasileiras mais atraentes e oferece às empresas um outro modelo de aquisição: fechar negócios com a troca de papéis. O Itaú comprou a operação brasileira do BankBoston por US$ 2,2 bilhões em papéis. A mesma solução foi usada, por exemplo, pela ALL para adquirir a Brasil Ferrovias.

Nos últimos três anos, uma série de fatores provocou uma nova efervescência de negócios na Bovespa, que tem batido sucessivos recordes. Inflação sob controle e juros em queda incentivaram os investidores nacionais a buscar aplicações com remuneração mais alta – ainda que correndo mais risco. A migração do capital internacional para as economias emergentes é outro forte estímulo à Bovespa. No ano passado, 35,5% das aplicações em ações foram realizadas por investidores estrangeiros. “Na comparação com os outros emergentes, o mercado de capitais brasileiro entrou para o leque das boas alternativas de investimento”, comemora João Batista Fraga, superintendente de relações com empresas da Bovespa. No total, entre 2003 e 2006, o movimento de negócios quase triplicou, com um salto de R$ 204 bilhões para R$ 598 bilhões. “Desde 2003, a alta foi sustentável, uma vez que o lucro das empresas cresceu na mesma proporção. Já nos últimos meses de 2006 houve uma certa dose de euforia”, adverte Fernando Exel, presidente da Economática, consultoria especializada em análise do mercado de capitais e parceira de AMANHÃ na elaboração do ranking As Blue Chips do Sul.

Bovespa: há três anos, o pregão diário bate recordes sucessivos e o mercado de capitais brasileiro amadurece

O choque da Bolsa – Preparo e planejamento são as palavras-chave para as empresas que pretendem abrir capital. Antes de lançar ações, a Natura passou por seis anos de treinamento com o auxílio de uma auditoria externa. Adequar os procedimentos da companhia às exigências do Novo Mercado é tarefa complexa, pois as regras são mais rígidas do que a própria legislação societária do país. A transparência alcançada no relacionamento com seus diversos públicos, no entanto, é supervalorizada pelos investidores. Mais da metade das empresas do segmento do Novo Mercado teve as ações cotadas acima do Ibovespa médio em 2006. Para Raymundo Magliano Filho, presidente da Bovespa, não há surpresa. “O Novo Mercado da Bovespa é reconhecido mundialmente pelos seus altos padrões de governança corporativa, de transparência e de respeito ao investidor”, orgulha-se.

Na Natura, por exemplo, essas regras mudaram até o relacionamento entre os departamentos. Hoje é rotina ver todos os assuntos passando pelos gerentes de RI para evitar que a divulgação de alguma informação possa prejudicar os acionistas minoritários ou derrubar os papéis no mercado. “Por mais que a gente se prepare, sempre surge alguma novidade”, garante Helmut Bossert, gerente de RI.

Logo depois de seu IPO em 2005, a Grendene viveu uma dessas surpresas desagradáveis. Um analista ligou para perguntar por que a empresa estava gastando mais do que o previsto em propaganda. “Quer dizer que vocês prestam atenção nisso?”, respondeu um diretor. O escorregão nas regras de transparências derrubou a cotação das ações. “Isso foi fruto da inexperiência inicial da empresa para lidar com a linguagem e a liturgia do mercado de capitais. É episódio encerrado”, assegura Dóris Wilhelm, gerente de RI.

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