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      Edição 227 - Dezembro de 2006
 

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Aos poucos, as empresas aprendem a conviver com as ferramentas eletrônicas de comunicação que podem aumentar ou diminuir a produtividade no trabalho


Patrícia Mazocato

Há nas empresas um duelo silencioso em que as armas são o mouse e o teclado. Empregados e empregadores lutam pelo controle das ferramentas tecnológicas que – para o bem e para o mal – tornaram tênue a separação entre casa e trabalho. Como o celular, o notebook e a internet levaram as urgências profissionais e os relatórios para dentro da rotina doméstica, fica cada vez mais difícil delimitar o ambiente corporativo e os momentos de lazer – e vice-versa. “Se eu me distraio horas na internet, durante o trabalho, quanto tempo eu gasto em casa na solução de problemas profissionais?”, questiona Tânia Gomes Bischoff, psicóloga organizacional e professora da PUC-RS..

A invasão recíproca dos dois ambientes se evidencia nos resultados da Web@Work 2006, pesquisa realizada pelo segundo ano na América Latina pela Websense, empresa norte-americana de softwares de segurança e filtragem da internet. Ao serem questionados sobre o uso de aplicativos e sobre os hábitos de navegação na web dentro da empresa, 80% dos profissionais brasileiros revelaram gastar em média 4,7 horas por semana em sites não-relacionados ao trabalho. E a tendência é de alta: na pesquisa 2005, os brasileiros confessavam passar apenas 2,1 horas em navegação de lazer. Cresce também o acesso à pornografia on-line. Entre os entrevistados, 12% admitiram visitar sites desse tipo durante as horas de trabalho – ou em casa, mas com o notebook da empresa.

O ícone das mensagens instantâneas com seu interminável pisca-pisca no lado direito da tela do micro dos funcionários é outro tormento para os gestores de Recursos Humanos. É que os programas como MSN, ICQ e até o Orkut estão substituindo bem depressa a antiga e pouco tecnológica “rádio cafezinho”.

Na caminhada até a copa em busca de uma xícara de café é que o pessoal do escritório colocava em dia as fofocas do trabalho e da vida pessoal. A tecnologia da informação mudou até isso: na frente do teclado e da tela, com jeito de quem se estafa de trabalhar, os profissionais podem se dedicar a espalhar a mais nova maldade contra o chefe. O hábito de usar as ferramentas eletrônicas é tão forte que 64% dos funcionários brasileiros prefeririam deixar de tomar café da manhã a abrir mão do acesso à internet para fins pessoais no ambiente corporativo – dado também da Web@Work 2006.

Programa HR1: honestidade medida pela freqüência de voz

Acesso restrito – Na tentativa de evitar abusos e perda de produtividade pelo desvio da atenção no trabalho, as empresas impõem limites e definem políticas de acesso aos meios eletrônicos corporativos. “Estima-se que 66% das empresas do Paraná já tenham imposto algum tipo de restrição ao uso pessoal das ferramentas digitais em horário de trabalho”, afirma José Antônio Fares, presidente da ABRH-PR.

Nas organizações em que as medidas restritivas são adotadas, pouca gente se sente à vontade para falar no assunto. “A decisão é antipática e as empresas têm vergonha de dizer que proíbem o acesso à internet”, declara um empresário que – claro – prefere não se identificar. Essa postura, no entanto, não é aprovada pelos especialistas em gestão de recursos humanos. “Não adianta deixar de falar no assunto. As novas tecnologias estão aí e as pessoas precisam ser orientadas”, resume Andrea Huggard-Caine, consultora de RH de São Paulo que tem entre seus clientes empresas como Unibanco, Dupont e Goodyear.

Ao mesmo tempo em que distraem os colaboradores de suas funções, essas ferramentas trazem ganhos de produtividade: agilizam a busca de dados, a troca de informações e encurtam a distância dos contatos de negócios. Outro benefício é a redução de grandes e pequenos custos operacionais. Na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) de Porto Alegre, por exemplo, o uso do MSN reduziu a conta dos telefones fixos de R$ 3,5 mil para R$ 2,8 mil por mês. “O desafio das empresas é dar acesso às ferramentas tecnológicas e fazer com que sejam usadas de maneira produtiva”, aponta Amadeo Magedanz, gerente administrativo e de TI da ESPM.

É o que acontece, por exemplo, na Datasul, empresa de Joinville (SC) especializada no desenvolvimento de softwares de gestão. Ubirajara Maia de Oliveira, gerente de sistema e infra-estrutura, admite que a companhia é uma exceção no mercado. “Temos uma política diferenciada da maioria das empresas. Liberamos todos os recursos e fazemos a administração pelas exceções”, assegura. Com 2,4 mil profissionais em 36 unidades no Brasil e no exterior, o uso do MSN e do VoIP (transmissão de voz pela internet) faz uma economia de cerca de 40% nas contas telefônicas.

O dono da voz

Em uma das etapas do processo de seleção, o candidato é convidado a entrar sozinho em uma sala. Sobre a mesa estão um notebook com fones de ouvido e microfone. Durante 20 minutos, o profissional responde em voz alta às perguntas que aparecem na tela. As questões procuram avaliar a confiabilidade do candidato e giram em torno de temas como uso de drogas, honestidade e discrição.

O profissional responde e sua freqüência de voz é analisada pelo programa HR1, que detecta e interpreta qualquer alteração emocional. Ao final do teste, um relatório aponta se as respostas merecem baixa, média ou alta credibilidade. O notebook, portanto, tornou-se uma espécie de máquina detectora de mentiras..

“O programa fornece informações para a contratação em cargos de confiança. E também possibilita a análise de confiabilidade do funcionário em situações de difícil apuração dos fatos”, explica Leandro Longhi, diretor da Squadra Consultoria e Treinamento em Segurança, empresa que há dois meses tem a representação do HR1 no Rio Grande do Sul, Paraná e Rio de Janeiro. Dezesseis clientes já utilizam o software desenvolvido pela israelense Nemesysco, mas Longhi alega que a necessidade de sigilo impede que revele o nome das companhias.

A decisão sobre a contratação, ou não, de um funcionário jamais deve ser baseada somente no resultado do teste de voz, na opinião da psicóloga Nice Rema Souza, sócia-diretora da Maker Consultoria em RH, de Porto Alegre. Ela acredita que a função do HR1 é antecipar e prevenir problemas para as empresas contratantes. “A tecnologia não é dedo-duro. Apenas dá mais fidedignidade aos processos de seleção”, garante.

 


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