| Neste ano, a duas rodadas do fim do Campeonato Brasileiro
de futebol, os torcedores já conheciam o time que seria dono
da taça. O Internacional não conseguiu vencer o Atlético
Paranaense e ficou sete pontos atrás do São Paulo. Naquele
jogo, a equipe gaúcha chegou a seu desempenho máximo no
torneio. Nada mais poderia tirar o título de campeão do
time paulista. Da mesma forma, o índice de previsibilidade do
comportamento da economia brasileira em 2007 é quase uma barbada.
O país parece ter encostado em seu limite de crescimento. Nos
12 últimos anos, a média anual de expansão do PIB
ficou em 2,6%. Em 2007, não deve haver grandes surpresas, segundo
o relatório Focus do Banco Central, que faz a média da
projeção dos especialistas de todo o país. A previsão
consensual para o ano que vem é alta de 3,5% do PIB. Nesse débil
caminhar, o Brasil perde importância na economia mundial. Um estudo
da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revela
que na última década o PIB brasileiro cresceu 22,4%, enquanto
a economia global se expandiu 45,6%. Para chegar a uma renda per capita
de US$ 9,8 mil, o brasileiro vai ter de esperar até 2030, revelam
cálculos da consultoria financeira Goldman Sachs.
Alavancar o ritmo de crescimento do país, no entanto, exige
mais do que palavras e boas intenções como o próprio
presidente Lula já percebeu desde que anunciou a chegada do “espetáculo
do crescimento”. Desde o início de dezembro, o governo
federal sinaliza a divulgação de um pacote de ajuste fiscal
e tributário para estimular o investimento privado. Ainda até
o final deste ano, segundo o ministro Guido Mantega, da Fazenda, devem
ser definidas e assinadas medidas de aplicação imediata.
O empresariado, por seu lado, não parece disposto a esperar por
paliativos. Um levantamento da Secretaria de Assuntos Econômicos
(SAE) do BNDES mostra que o investimento privado deve superar R$ 1 trilhão
entre 2007 e 2010. Esse número se baseia no planejamento de setores
sólidos como petróleo e gás, indústria extrativa
mineral, indústria de transformação, transporte
e logística, energia elétrica e construção
residencial. “Esse investimento virá de qualquer maneira,
independentemente da taxa de crescimento da economia”, afirmou
Ernani Teixeira Torre Filho, chefe da SAE, no dia da divulgação
do estudo em novembro passado.
 |
Reformas proteladas – Os especialistas ouvidos
por AMANHÃ são unânimes: em 2007, o ritmo da economia
continuará morno e refém da moeda sobrevalorizada, do
juro real entre os mais altos do mundo, da excessiva carga tributária
e da falta de investimentos públicos. Enquanto as imprescindíveis
reformas não saírem do papel, o Brasil não se livra
das correntes que mantêm o país nesse patamar de desenvolvimento
raquítico.
Além das sempre adiadas reformas política, trabalhista
e tributária, a previdenciária é a mais importante
para que o PIB volte a crescer com vigor, garantem os analistas. A Previdência
é um dos principais fatores para o inchaço da dívida
pública brasileira, que se aproxima dos 50% do PIB. O gasto com
aposentadorias, por exemplo, aumenta a uma taxa média de 7% ao
ano e atualmente a proporção é de 35 milhões
de contribuintes para 25 milhões de beneficiários. O rombo,
que usurpa a margem líquida de recursos para investimentos públicos,
chega a R$ 50 bilhões por ano e tende a se agravar. É
que a expectativa de vida dos brasileiros está em 73 anos e o
IBGE estima que em 2020 vá chegar a 81. A situação
é tão perversa que, em vez de comemorar o aumento da expectativa
de vida dos brasileiros, o fato é divulgado como problemático.
Entre as dificuldades para se fazer a reforma está a vinculação
entre o valor do salário mínimo e o reajuste dos benefícios
previdenciários. Já existe uma proposta para acabar com
esse vínculo, mas Lula tem sinalizado pouca disposição
para mexer no vespeiro da Previdência. Os especialistas temem
que seja perdida a oportunidade de solucionar o problema definitivamente.
“Nunca um presidente pós-democratização teve
tantas condições de governabilidade”, aponta o cientista
político Fernando Schüller. O cenário favorável
se caracteriza, na opinião dele, pela reeleição
com 58 milhões de votos, base com muitos partidos aliados e uma
oposição branda. Optar por não resolver o rombo
da Previdência é o mesmo que deter o Brasil. “É
a escolha por crescer pouco”, diagnostica Dany Rappaport, da corretora
paulista InvestPort. A procrastinação das reformas brasileiras
faz David Beers, diretor-gerente da Standard & Poor’s, lembrar-se
de uma frase ouvida em viagens ao redor do mundo. “Os políticos
não fazem reformas sérias porque os beneficiados no futuro
serão outros políticos – e não eles”,
relata.
A reforma tributária é uma das medidas mais almejadas
pelo empresariado sob a alegação de que a excessiva carga
de impostos precisa ser reduzida para possibilitar a ampliação
dos investimentos. Um levantamento da consultoria KPMG mostrou que as
empresas brasileiras pagam em média 34% de sua receita anual
em tributos. Os impostos brasileiros incidentes sobre o setor privado
estão acima da média mundial (27,1%) e da média
latino-americana (28,1%). Nessa área, o governo parece propenso
a dar com uma mão e tirar com a outra. Uma das medidas mais prováveis
é a prorrogação da CPMF. Para obter apoio à
iniciativa, o governo acena também com a unificação
do ICMS – principal tributo dos Estados – como parte do
pacote para acelerar a velocidade do crescimento. “Difícil
é equiparar a alíquota do ICMS sem que um Estado perca
e o outro ganhe”, afirma Henry Lummertz, da Veirano Advogados.
A lição de casa, porém, tem deveres ainda mais
complexos. “No segundo mandato, Lula teria de aumentar os investimentos
públicos e diminuir gradativamente os tributos”, prega
Paulo Mansur Levy, diretor de estudos macroeconômicos do Instituto
de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea). Enquanto a reforma tributária
não sai, os especialistas acusam o governo federal de arrecadar
muito, gastar mal e com isso dificultar os investimentos privados e
ainda incentivar a evasão. No mínimo, a elusão
fiscal se torna prática corrente. “Há como driblar
a carga de impostos licitamente, dependendo de cada setor”, avalia
o advogado tributarista Humberto Ávila.
|