| Andreas
Müller
e Andréia
Barros

Tecnicamente, a Sadia não é uma
multinacional. É bem verdade que os produtos da empresa
são vendidos em mais de 90 países – em alguns
deles, com marca própria. E que quase metade de seu faturamento,
de R$ 8,3 bilhões por ano, é gerada lá fora.
Mas o fato é que, apesar dessa presença global,
a Sadia é tão-somente uma grande empresa brasileira.
Todas as suas 11 fábricas estão no Brasil. Dos 46
mil funcionários atuais, apenas 300 trabalham além
das fronteiras nacionais – e pouquíssimos são
contratados lá fora. Negócios “internacionais”,
mesmo, só as exportações daqueles produtos
desenvolvidos, manufaturados e embalados aqui. A Sadia, portanto,
não é uma multinacional. Ou melhor: não era.
Em setembro deste ano, a companhia fundada em
1944, na cidade de Concórdia, no oeste de Santa Catarina,
decidiu dar o passo definitivo rumo à internacionalização.
Em um fato relevante, anunciou a construção de sua
primeira fábrica fora do Brasil. “Já atuávamos
em mais de 100 mercados e tínhamos escritórios comerciais
em 11 países. Sentimos que era hora de construir uma fábrica
no exterior”, justifica Gilberto Tomazzoni, diretor-presidente
da Sadia. O empreendimento será erguido na Rússia
por meio de uma joint venture com a Miratorg, empresa
que já distribuía os produtos da Sadia naquele país.
Importará insumos básicos do Brasil, como carnes,
soja e açúcar, e se encarregará de transformá-los
em salsichas, hambúrgueres e outros alimentos industrializados.
Sozinha, a Sadia deverá injetar US$ 70 milhões na
nova fábrica, que terá cerca de mil funcionários
– quase todos eles russos. Agora, diz Tomazzoni, a empresa
passará a contar com diversas vantagens no mercado russo.
“Conseguiremos fornecer hambúrgueres para toda a
rede McDonald’s na Rússia, por exemplo”, informa
ele.
A Sadia não é a única a caminho
de se transformar em uma multinacional de verdade. Em todo o país,
cada vez mais empresas abandonam o modelo exportador e partem
em busca de novas fronteiras. A tendência se aplica, inclusive,
àqueles setores que sempre desfrutaram das vantagens de
produzir e exportar a partir do Brasil – como é o
caso das indústrias de cimento, de calçados e, obviamente,
de alimentos. “As empresas brasileiras perceberam que, muitas
vezes, transferir uma fábrica para outro país é
mais simples do que contornar todos os problemas logísticos
envolvidos numa venda para o exterior”, constata Álvaro
Cyrino, pesquisador do Núcleo de Internacionalização
da Fundação Dom Cabral (FDC), de Belo Horizonte.
A mudança de postura é visível até
no mercado de fusões e aquisições. Nos nove
primeiros meses deste ano, o número de empresas estrangeiras
compradas por brasileiras quase triplicou em relação
ao mesmo período de 2005, segundo um levantamento realizado
pela consultoria KPMG. Foram, ao todo, 62 transações
protagonizadas por companhias como Gerdau, Braskem e Alpargatas.
O levantamento não contabiliza a mega-aquisição
da Vale do Rio Doce, que no final de outubro pagou R$ 18 bilhões
pela mineradora canadense Inco, segunda maior produtora de níquel
do mundo.
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| A sede da Gerdau, no Canadá: exemplo
de internacionalização para as empresas brasileiras |
Parte desse movimento se deve a fatores conjunturais.
O fraco crescimento da economia brasileira nos últimos
anos, por exemplo, levou muitas empresas brasileiras a buscar
seu peixe em águas internacionais. “Aquelas que conseguem
se expandir internacionalmente deixam de depender somente do mercado
local, que está sujeito a flutuações políticas
e financeiras. Diversificando, elas sempre terão como contrabalançar
possíveis contratempos em um segmento específico”,
conta de Miami a advogada Genilde Guerra, sócia do escritório
Kravitz & Guerra – que assessora companhias dispostas
a instalar unidades nos Estados Unidos. Além disso, há
a desvalorização do dólar. Nos últimos
dois anos, as empresas que lucravam em cima da diferença
entre a moeda americana e o real passaram por um estrangulamento.
Para muitas companhias, a internacionalização foi
a única alternativa para manter os bons resultados com
o câmbio desfavorável.
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| Genilde, da Kravitz & Guerra: é
preciso contrabalançar riscos |
Foi mais ou menos isso que aconteceu, por exemplo,
com a Marcopolo. Ao contrário da Sadia, a empresa já
contava com uma grande estrutura fora do Brasil – até
o início deste ano, mantinha cerca de 46% de seus ativos
distribuídos entre a Argentina, Colômbia, México,
Portugal e África do Sul. Enquanto o câmbio ajudava,
a maior parte dos chassis para ônibus era produzida no Brasil.
Às unidades do exterior, cabia apenas a tarefa de receber
peças e montá-las conforme as necessidades do mercado
local. Com a desvalorização do dólar, porém,
o modelo teve de ser revisto. Agora, a Marcopolo procura globalizar
quase todos os processos, inclusive a fabricação
de componentes. “É com essa filosofia que, agora,
estamos indo para a Índia e para a Rússia”,
conta José Antônio Martins, vice-presidente corporativo
da Marcopolo. No mercado indiano, a empresa estabeleceu uma joint
venture com a Tata Motors. Na Rússia, a escolhida
foi a Ruspromauto, especializada na fabricação de
veículos pesados. “Recebemos pedidos para desenvolver
diferentes tipos de carrocerias em cada país. Graças
a isso, temos condições de atender aos mais variados
tipos de pedidos”, conta Martins, citando o exemplo de um
ônibus sem teto, o Andare Class, que foi encomendado para
transportar peregrinos muçulmanos à cidade de Meca
(confira mais detalhes a respeito na reportagem especial “Um
mosaico criativo”, nesta edição).
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