| O psicólogo norte-americano Joseph
Yeager não é muito conhecido fora dos Estados Unidos,
mas teve uma participação decisiva no desenvolvimento
de uma ferramenta que é utilizada em qualquer parte do
mundo: a programação neurolingüística.
Yeager estava na primeira turma de “neurolingüistas”
formada nos anos 60 pelos psicólogos Richard Brandler e
John Grinder, da Universidade da Califórnia. Com o passar
do tempo, ele e seus colegas empreenderam os principais avanços
práticos deste conceito, desenvolvendo técnicas
de persuasão e motivação que, ainda hoje,
são usadas pela maioria dos profissionais e palestrantes
da área. Yeager, aliás, foi ainda mais longe. Criou
métodos para entender as “entrelinhas” da linguagem
humana e fundou uma consultoria, a Sommer Consulting, especializada
em identificar “padrões insconscientes” de
consumo. Respeitado, Yeager acabou sendo convocado para o Crime
Scene Investigation (CSI), a unidade de perícia criminal
da polícia norte-americana. “Ele costuma dizer que,
no combate à criminalidade, é mais importante entender
a motivação dos criminoso do que reprimi-lo. A neurolingüística
ajuda a fazer a leitura dessas motivações inconscientes,
não declaradas”, relata Nelson Spritzer, presidente
da consultoria Dolphin Tech e um ex-aluno que se tornou amigo
de Yeager.
A programação neurolingüística
já ganhou muitos adeptos, mas ainda é vista com
alguma desconfiança em certas áreas. O que há
de concreto e o que há de “mágica” nessa
ferramenta?
A neurolingüística não é mágica.
É uma ciência empírica que busca entender
como a linguagem afeta o comportamento e a performance de cada
pessoa. Para isso, ela se serve de várias disciplinas de
conhecimento, especialmente a psicologia. Há vários
experimentos, alguns deles já bastante antigos, que mostram
como a linguagem expressa desejos, comportamentos, medos e outros
tipos de emoção.
Que tipo de experimentos?
O primeiro entendimento sobre a relação entre comportamento
e linguagem surgiu em 1945, quando um psicólogo americano
chamado David McClelland começou a fazer uma experiência
muito interessante. Ele queria descobrir como as pessoas expressavam
seus desejos, valores e outras emoções pela linguagem.
Para isso, ele viajou para três regiões culturalmente
distintas: Alemanha, Estados Unidos e América do Sul. Em
cada lugar, ele mostrou a um grupo de pessoas a foto de um garoto
que conversava com um senhor idoso. E então pediu para
que as pessoas descrevessem a imagem e inventassem uma história
a respeito. As diferenças foram significativas. Na Alemanha,
a imagem remetia os observadores a uma demonstração
de poder. Na imaginação dos alemães, o homem
estava comandando o garoto e dizendo a ele o que fazer. Na América
do Sul, a história era mais divertida: o idoso e o jovem
estavam batendo um papo, relacionando-se de maneira amigável.
Finalmente, nos Estados Unidos, as pessoas imaginavam que aquele
jovem estava aprendendo a fazer algo com um mestre. Foi a primeira
evidência de que a linguagem necessariamente se relaciona
com fatores que a palavra não expressa literalmente. Por
volta de 1965, 1966, Noam Chomsky (o lingüista norte-americano)
levou adiante o assunto ao elaborar a teoria da “gramática
transformativa”. Chomsky ressalta que a linguagem tem duas
estruturas básicas: a “superfície” e
a “profundeza”. A linguagem, aquilo que a gente fala,
ouve e escreve, é a superfície. Mas aquilo que realmente
queremos dizer – nossos desejos, intenções,
medos, etc – está na profundeza. Isto é, está
nas entrelinhas, implícito.
De que maneira esse conhecimento é aplicado na
prática da neurolingüística?
Ele começou a ser aplicado por um antropólogo conhecido
como Benjamim Whorf, que descobriu existir uma forte relação
entre a linguagem e a maneira como as pessoas entendem o mundo.
Se um idioma não contém um termo que expresse uma
idéia, as pessoas são incapazes de entendê-la.
É o que chamamos de Hipótese de Whorf: o limite
da linguagem define os limites do mundo. Em alguns países,
por exemplo, a linguagem é estruturada de tal forma que
as pessoas não conseguem entender nem mesmo o sentido de
presente, passado e futuro. Existe uma tribo no Congo, na África,
onde os nativos não têm noção de tempo.
Eles estão sempre no presente, no momento em que a ação
está acontecendo. Eles não pensam no amanhã
ou no ontem: tudo é agora, pois essa é a característica
da linguagem deles. Se você falar com eles sobre o amanhã,
eles não entenderão, porque não têm
uma representação mental para a idéia de
“amanhã”.
Como as pessoas podem explorar os limites da linguagem
em favor de seus negócios ou de sua carreira?
Entender a característica, o poder revelador da linguagem,
é algo crucial para os negócios. Imagine que você
foi chamado para fazer uma campanha publicitária para aquela
tribo do Congo... Bem, você dificilmente conseguirá
vender produtos com mensagens que envolvam a passagem do tempo,
não é? Seguro de vida, por exemplo. Os nativos vão
perguntar: “O quê? Futuro? O que é isso?”
Você não pode vender um produto relacionado com algo
que o consumidor não entende, e o papel da neurolingüística
é ajudar nessa compreensão.
Com a multiplicação de pessoas que falam
mais de um idioma ao redor do mundo, esse problema não
tenderia a acabar?
Não. Na hora da negociação, a regra é
a mesma. Embora todos falem uma língua comum durante uma
conversa – seja em português, em inglês, etc
–, cada palavra pode ter um significado diferente para as
pessoas envolvidas. Em reuniões, se alguém diz uma
única palavra para cinco indivíduos, nada impede
que surjam aí cinco idéias diferentes. Neste caso,
a confusão é geral. Parte do que a lingüística
faz é ensinar como perceber quando as pessoas estão
tendo interpretações diferentes do que você
expressa. Tentamos mostrar o que é preciso fazer para que
todos formem a mesma idéia. É um meio muito eficaz
para fazer com que as equipes se comuniquem melhor e trabalhem
com mais eficiência.
“Como líder, você
passa cerca de 80% de seu tempo tentando convencer outras
pessoas a fazer alguma coisa. Logo, quanto maior for sua habilidade
lingüística, mais alto será o cargo que
você poderá vir a ocupar”
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A neurolingüística sempre trabalhou para
aprimorar o poder de liderança e de persuasão das
pessoas. Uma comunicação eficiente é capaz
de formar um líder?
As idéias são como uma mão cheia de bolinhas
de gude. Se você soltá-las, elas se espalharão
sobre a mesa, uma para cada lado. Numa reunião, as idéias
facilmente se espalham. O grande desafio do líder é
evitar que as idéias se espalhem, é fazer com que
todos pensem numa única direção, pois é
assim que a empresa evolui. E é aí que entra a neurolingüística,
a comunicação. Como líder, você passa
80% do tempo convencendo outras pessoas a fazer alguma coisa.
Já como técnico, numa função mais
burocrática, você tende a dedicar apenas 5% do seu
tempo aos relacionamentos. Para mim, está muito claro:
quanto mais habilidades lingüísticas você tem,
mais alto é o cargo que você pode vir a ocupar.
Mesmo que esse líder seja tecnicamente fraco?
A técnica é importante, é claro. Ninguém
cresce sem conhecimento. O ponto é que as pessoas mais
bem-sucedidas que eu conheço também são extremamente
boas nas habilidades de conversação. Elas fazem
todos pensarem da mesma maneira e levam todos a trabalhar na busca
de uma solução para um mesmo problema. É
simples assim: se você sabe como conversar, você geralmente
se dá bem nos negócios. As pessoas podem ser excelentes
técnicos e cientistas. Podem consertar computadores, tornarem-se
ótimos vendedores, etc. Mas é comum esses profissionais
brilhantes ficarem perdidos, sem saber o que fazer quando estão
encarregados de liderar um grupo. Aliás, a maioria dos
indivíduos com ótimo background técnico
não sabe e tampouco quer liderar outras pessoas. Quando
estão no comando, são eles que dizem a frase clássica:
“Ai, meu Deus, o que eu faço agora?”. Liderar
é diferente, é confuso. É muito difícil
enxergar a causa concreta de um problema de liderança..
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