| Andreas
Müller*

A disputa política travada entre os Estados
que desejam abrigar uma futura fábrica de semicondutores
atingiu uma temperatura tão alta que alguns governadores
já não conseguem nem se manter na linha. Um exemplo
aconteceu em agosto, no fim de semana em que o Ministério
da Fazenda decidiu editar uma Medida Provisória para desonerar
a indústria de semicondutores – uma iniciativa considerada
vital para atrair um grande investimento do setor para o Brasil.
Entusiasmado, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves,
que há anos luta para levar uma grande empresa de componentes
ao pólo eletroeletrônico do Estado, cometeu uma gafe:
atropelou a assessoria do ministro Guido Mantega e “anunciou”
a decisão à imprensa por conta própria. “A
informação é que a MP entra em vigor ainda
este ano. Com ela, tenho grande expectativa de que poderemos ter
no Brasil, provavelmente em Minas Gerais, indústrias importantes
do setor anunciando investimentos num espaço de tempo extremamente
curto”, declarou ele na ocasião. A informação
acabaria sendo confirmada mais tarde pela própria equipe
do ministério.
O governador mineiro não é o único
que está eufórico demais com a possibilidade de
conquistar uma fábrica de semicondutores – ou de
produtos que utilizem esses componentes, como chips, microprocessadores,
telas de plasma ou cristal líquido (LCD) e outros. Com
o respaldo da MP, que até o fechamento desta edição
de AMANHÃ ainda estava por ser publicada, pelo menos outros
três Estados passam a cobiçar um grande investimento
na área: Rio Grande do Sul, Amazonas e São Paulo.
Não é pouco que está em jogo. Pelos estudos
do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES), a construção de uma fábrica de semicondutores
no Brasil demandaria um investimento de US$ 500 milhões
a US$ 1 bilhão, dependendo da complexidade. Sozinha, essa
unidade se tornaria a maior fornecedora de semicondutores para
o mercado brasileiro de microeletrônica, que movimenta US$
5,2 bilhões ao ano. Aliás, com a recente decisão
do Ministério das Comunicações em adotar
o padrão japonês de TV digital, esse mercado tende
a crescer ainda mais. Na transição para o novo sistema,
o governo prevê a utilização de um aparelhinho
conhecido como set top box, que recebe o sinal digital
e faz a conversão para o analógico. Dessa forma,
as pessoas podem usufruir dos benefícios da TV digital
sem precisar comprar um televisor novo. Apenas os conversores
contam com um mercado estimado em US$ 4,1 bilhões até
2011, segundo o BNDES.
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| Wolfgang Sauer, da CBS: “Levaremos
mais dois ou três anos para ter mão-de-obra suficiente
para uma grande operação” |
Nesse contexto, é natural que os Estados
se mobilizem desde já para aproveitar todo o potencial
da indústria de semicondutores. Mas a verdade é
que o Brasil ainda está longe de oferecer as condições
necessárias para viabilizar um investimento no setor. Falta
mão-de-obra qualificada e a política de proteção
à propriedade intelectual é considerada confusa
e até mesmo frouxa. Para completar, a infra-estrutura brasileira
é inadequada para os fabricantes, cujas operações
dependem de uma logística altamente eficiente para se rentabilizar.
“É notória a existência de fatores que
limitam a competitividade do país nesse setor, especialmente
a infra-estrutura de exportação e importação”,
constata Oscar Clarke, presidente da filial brasileira da Intel,
a maior empresa de semicondutores do mundo. Recentemente, o próprio
ministro das Comunicações, Hélio Costa, admitiu
que a instalação de uma fábrica no país
poderá demorar cinco anos para se concretizar. “Se
pegarmos só a questão da mão-de-obra, já
é um problema. Não existe mão-de-obra nesse
setor. A maior parte dos profissionais precisa buscar formação
no exterior. No ritmo atual, acredito que só teremos pessoal
suficiente para uma grande operação por volta de
2010”, relata o empresário alemão Wolfgang
Sauer, presidente da Companhia Brasileira de Semicondutores (CBS),
projeto que está sendo erguido no município de Lagoa
Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
O caso da CBS ajuda a compreender os gargalos
que impedem o Brasil de entrar na onda dos semicondutores. Planejada
há mais de 17 anos, a empresa só começou
a sair do papel há poucos meses, quando começaram
a circular as informações de que o governo federal
editaria a MP para desonerar o setor. “Faltava o incentivo.
No mundo todo, a indústria de semicondutores sempre recebeu
benefícios, menos aqui. Não que a gente precisasse
de dinheiro. Nós não queremos nenhum tostão
do Estado, apenas precisamos ter igualdade de condições
para competir”, relata Sauer, que também é
conhecido por ter sido presidente da Volkswagen do Brasil nos
anos 80. Com os incentivos agora assegurados pela MP, a CBS passa
a se concentrar em outro desafio: o de encontrar profissionais
com capacidade para desenvolver e manipular semicondutores. A
maioria da equipe recrutada por Sauer está sendo treinada
na Europa, o que demanda um custo extra para o empreendimento.
Para completar, será preciso encontrar clientes fora do
Brasil. Pelo projeto original, a CBS só conseguirá
alcançar uma escala que justifique sua operação
se exportar entre 60% e 70% de seus semicondutores. E aí
ressurgem os velhos problemas estruturais do país: portos
ineficientes, aeroportos escassos, burocracia em excesso nos processos
aduaneiros e todos os outros gargalos que elevam as despesas dos
exportadores brasileiros.
Em 2002, a consultoria de tecnologia IDC, a AT
Kearney e a Azevedo Sette Advogados prepararam um estudo que identificava
os cinco desafios que o Brasil teria de superar para permitir
o desenvolvimento do setor de semicondutores. Estavam na lista:
formar mão-de-obra especializada, fomentar a demanda local,
desenvolver mecanismos de proteção ao capital intelectual,
aprimorar a infra-estrutura e desburocratizar o sistema aduaneiro.
“Continuamos tendo a maioria desses gargalos. Toda a nossa
logística precisa ser modificada”, constata Wanderley
Marzano, diretor da área de componentes da Associação
Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica
(Abinee). O único desafio já superado é o
da demanda local. Hoje, o Brasil concentra 8% do mercado mundial
de televisores e 6% do de celulares. Ou seja: é um terreno
atraente para as fabricantes de componentes eletrônicos.
“E, mesmo que não fosse, precisamos acabar com esse
mito de que a indústria de semicondutores só se
instala nos lugares em que existe grande demanda. Se isso fosse
verdade, não haveria fábricas em Taiwan e a Intel
não estaria operando na Costa Rica”, argumenta Marzano.
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