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      Edição 225 - Outubro de 2006
 

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A escolha do sistema de TV digital deflagra a corrida por uma fábrica de semicondutores no Brasil. Mas o fato é que o país ainda precisa avançar muito para poder produzir chips em escala industrial


Andreas Müller*

A disputa política travada entre os Estados que desejam abrigar uma futura fábrica de semicondutores atingiu uma temperatura tão alta que alguns governadores já não conseguem nem se manter na linha. Um exemplo aconteceu em agosto, no fim de semana em que o Ministério da Fazenda decidiu editar uma Medida Provisória para desonerar a indústria de semicondutores – uma iniciativa considerada vital para atrair um grande investimento do setor para o Brasil. Entusiasmado, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que há anos luta para levar uma grande empresa de componentes ao pólo eletroeletrônico do Estado, cometeu uma gafe: atropelou a assessoria do ministro Guido Mantega e “anunciou” a decisão à imprensa por conta própria. “A informação é que a MP entra em vigor ainda este ano. Com ela, tenho grande expectativa de que poderemos ter no Brasil, provavelmente em Minas Gerais, indústrias importantes do setor anunciando investimentos num espaço de tempo extremamente curto”, declarou ele na ocasião. A informação acabaria sendo confirmada mais tarde pela própria equipe do ministério.

O governador mineiro não é o único que está eufórico demais com a possibilidade de conquistar uma fábrica de semicondutores – ou de produtos que utilizem esses componentes, como chips, microprocessadores, telas de plasma ou cristal líquido (LCD) e outros. Com o respaldo da MP, que até o fechamento desta edição de AMANHÃ ainda estava por ser publicada, pelo menos outros três Estados passam a cobiçar um grande investimento na área: Rio Grande do Sul, Amazonas e São Paulo. Não é pouco que está em jogo. Pelos estudos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a construção de uma fábrica de semicondutores no Brasil demandaria um investimento de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão, dependendo da complexidade. Sozinha, essa unidade se tornaria a maior fornecedora de semicondutores para o mercado brasileiro de microeletrônica, que movimenta US$ 5,2 bilhões ao ano. Aliás, com a recente decisão do Ministério das Comunicações em adotar o padrão japonês de TV digital, esse mercado tende a crescer ainda mais. Na transição para o novo sistema, o governo prevê a utilização de um aparelhinho conhecido como set top box, que recebe o sinal digital e faz a conversão para o analógico. Dessa forma, as pessoas podem usufruir dos benefícios da TV digital sem precisar comprar um televisor novo. Apenas os conversores contam com um mercado estimado em US$ 4,1 bilhões até 2011, segundo o BNDES.

Wolfgang Sauer, da CBS: “Levaremos mais dois ou três anos para ter mão-de-obra suficiente para uma grande operação”

Nesse contexto, é natural que os Estados se mobilizem desde já para aproveitar todo o potencial da indústria de semicondutores. Mas a verdade é que o Brasil ainda está longe de oferecer as condições necessárias para viabilizar um investimento no setor. Falta mão-de-obra qualificada e a política de proteção à propriedade intelectual é considerada confusa e até mesmo frouxa. Para completar, a infra-estrutura brasileira é inadequada para os fabricantes, cujas operações dependem de uma logística altamente eficiente para se rentabilizar. “É notória a existência de fatores que limitam a competitividade do país nesse setor, especialmente a infra-estrutura de exportação e importação”, constata Oscar Clarke, presidente da filial brasileira da Intel, a maior empresa de semicondutores do mundo. Recentemente, o próprio ministro das Comunicações, Hélio Costa, admitiu que a instalação de uma fábrica no país poderá demorar cinco anos para se concretizar. “Se pegarmos só a questão da mão-de-obra, já é um problema. Não existe mão-de-obra nesse setor. A maior parte dos profissionais precisa buscar formação no exterior. No ritmo atual, acredito que só teremos pessoal suficiente para uma grande operação por volta de 2010”, relata o empresário alemão Wolfgang Sauer, presidente da Companhia Brasileira de Semicondutores (CBS), projeto que está sendo erguido no município de Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

O caso da CBS ajuda a compreender os gargalos que impedem o Brasil de entrar na onda dos semicondutores. Planejada há mais de 17 anos, a empresa só começou a sair do papel há poucos meses, quando começaram a circular as informações de que o governo federal editaria a MP para desonerar o setor. “Faltava o incentivo. No mundo todo, a indústria de semicondutores sempre recebeu benefícios, menos aqui. Não que a gente precisasse de dinheiro. Nós não queremos nenhum tostão do Estado, apenas precisamos ter igualdade de condições para competir”, relata Sauer, que também é conhecido por ter sido presidente da Volkswagen do Brasil nos anos 80. Com os incentivos agora assegurados pela MP, a CBS passa a se concentrar em outro desafio: o de encontrar profissionais com capacidade para desenvolver e manipular semicondutores. A maioria da equipe recrutada por Sauer está sendo treinada na Europa, o que demanda um custo extra para o empreendimento. Para completar, será preciso encontrar clientes fora do Brasil. Pelo projeto original, a CBS só conseguirá alcançar uma escala que justifique sua operação se exportar entre 60% e 70% de seus semicondutores. E aí ressurgem os velhos problemas estruturais do país: portos ineficientes, aeroportos escassos, burocracia em excesso nos processos aduaneiros e todos os outros gargalos que elevam as despesas dos exportadores brasileiros.

Em 2002, a consultoria de tecnologia IDC, a AT Kearney e a Azevedo Sette Advogados prepararam um estudo que identificava os cinco desafios que o Brasil teria de superar para permitir o desenvolvimento do setor de semicondutores. Estavam na lista: formar mão-de-obra especializada, fomentar a demanda local, desenvolver mecanismos de proteção ao capital intelectual, aprimorar a infra-estrutura e desburocratizar o sistema aduaneiro. “Continuamos tendo a maioria desses gargalos. Toda a nossa logística precisa ser modificada”, constata Wanderley Marzano, diretor da área de componentes da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). O único desafio já superado é o da demanda local. Hoje, o Brasil concentra 8% do mercado mundial de televisores e 6% do de celulares. Ou seja: é um terreno atraente para as fabricantes de componentes eletrônicos. “E, mesmo que não fosse, precisamos acabar com esse mito de que a indústria de semicondutores só se instala nos lugares em que existe grande demanda. Se isso fosse verdade, não haveria fábricas em Taiwan e a Intel não estaria operando na Costa Rica”, argumenta Marzano.

 


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