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      Edição 225 - Outubro de 2006
 

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O cientista político Sérgio Abranches diz que o Congresso precisa de uma renovação mais profunda do que a proporcionada pela eleição para que o Brasil finalmente encaminhe as reformas tributária e política

 
Andreas Müller

Foi Sérgio Abranches quem, no final dos anos 80, cunhou o termo “presidencialismo de coalizão” para descrever o sistema de governo brasileiro e suas fragilidades depois da redemocratização. Formado pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, Abranches percebeu desde cedo que a base de sustentação do presidente do Brasil seria sempre instável ou suscetível a crises. Para governar, o presidente teria de formar alianças, fazer concessões e, principalmente, gastar energia demais para manter uma maioria no Congresso. A tese se comprovou na prática com todos os presidentes desde José Sarney até Lula e o recente episódio do mensalão – em que deputados foram literalmente comprados para votar a favor de alguns projetos de lei. Hoje, passadas as eleições, Abranches acredita que o Brasil ainda está longe de contar com um Congresso mais ágil ou transparente. A renovação de deputados e senadores, diz ele, foi apenas quantitativa. Para completar, alguns Estados como São Paulo formaram bancadas que “são de chorar” – em referência às votações expressivas de candidatos do calibre de Paulo Maluf, Fernando Collor e Clodovil. Vivendo no Rio de Janeiro aos 56 anos, Abranches conversou com AMANHÃ um dia depois da votação do primeiro turno. E não pestanejou em afirmar que o próximo governo será “um feijão-com-arroz” – ou simplesmente mais do mesmo.

As eleições terminaram com uma renovação de aproximadamente 45% das cadeiras do Congresso. Como interpretar esse índice à luz dos escândalos que, em tese, mancham a credibilidade do Legislativo – como o Mensalão e a Máfia das Sanguessugas?
Na verdade, o índice de renovação do Congresso foi um pouco maior do que isso. Antes das eleições, já havia ocorrido uma “renovação” de pouco mais de 15% das cadeiras da Câmara – e aqui eu me refiro aos deputados que não concorreram à reeleição porque tiveram suas candidaturas impugnadas devido a esses escândalos. Se considerarmos isso, veremos que, na verdade, o percentual de deputados eleitos que não estavam na legislatura de 2002 a 2006 é maior do que esses 45%.

Podemos dizer que o Congresso está renovado, então?
Não necessariamente. Houve, sim, uma renovação numérica, quantitativa. Mas ela não expressa uma renovação qualitativa, de conteúdo. O PMDB ficou mais ou menos do mesmo tamanho, o PT perdeu dez cadeiras, mas teve uma taxa interna de reeleição muito alta – até os mensaleiros de São Paulo foram reeleitos em sua maioria. Já o PSDB teve um pequeno crescimento, mas sem nenhuma mudança expressiva em seus quadros. E o PFL ficou mais ou menos do mesmo tamanho. Quer dizer: dando uma olhada na bancada dos maiores partidos, não houve mudança nenhuma. O que houve foram manifestações de algumas tendências, algumas delas até contraditórias.

Que tipo de tendências?
A eleição em São Paulo, do ponto de vista ético, foi uma das piores da história. Entre os três deputados federais mais votados ficaram o Paulo Maluf, o Celso Russomano e o Clodovil. No caso de Clodovil, falta conteúdo. No caso de Maluf e de Russomano, há excesso de conteúdo “não-ético”. Além disso, tivemos a reeleição de todos os candidatos do PT envolvidos em casos escusos e que, até agora, não foram esclarecidos adequadamente. Já o Rio de Janeiro seguiu uma linha totalmente contrária: elegeu o Fernando Gabeira, que se destacou na última legislatura pelo confronto com a corrupção, com o clientelismo na Câmara e com o Severino Cavalcanti. Gabeira foi o deputado mais votado do Rio. Analisando esses dois lados, eu diria que o país deu um passo pequeno na direção de tomar consciência da necessidade de se renovar a política. Ainda há setores que demoram para buscar essa renovação, porque dependem do favor político, do assistencialismo.

Até que ponto isso tem a ver com o poder eleitoral do Bolsa Família e de outros programas assistenciais do governo?
Isso tem a ver com o vício do assistencialismo e do clientelismo na política brasileira. O governo atual apenas exacerbou esse vício ao transformar o Bolsa Escola, que tinha fins educativos, em um programa de transferência de renda. O que me incomoda é saber que esse tipo de iniciativa acontece em um país que vive em crise fiscal já há muitos anos. Temos uma dívida alta e uma carga tributária violenta. Sozinho, o Estado retira da sociedade mais de 40% da renda. Ao mesmo tempo, falta dinheiro para todas as necessidades essenciais, para todos os serviços públicos demandados pela população. Toda discussão a respeito de educação, saúde e segurança pública termina na questão da falta de recursos. Mas como é que falta recurso se o Estado já pega quase metade da receita da sociedade? Falta porque o Orçamento é irracional, arbitrário. O Executivo gasta como quer e quanto quer. Isso faz com que aquela parcela da sociedade despossuída, que depende do serviço público de educação, de saúde, de segurança, viva em permanente necessidade, vulnerável a qualquer oferta de favor. O que nós precisamos é de uma reforma estrutural no Estado.

Existe alguma margem para que o Congresso aprove uma reforma estrutural mais ampla como a tributária ou mesmo a reforma política?
Não. A discussão fiscal é muito superficial e muito paliativa, muito no “vou gastar melhor”. Mas ninguém fala em “vamos rever as funções do Estado”. Toda discussão a respeito do desenvolvimento é superficial. Ninguém toca efetivamente nas questões fundamentais que estão travando o investimento privado, a oferta de infra-estrutura etc. Essa foi uma eleição cuja campanha não envolveu nenhum debate sério de alternativas para as necessidades do país. E não estou falando só dos programas eleitorais. Na eleição de 2002, por exemplo, eu ouvia, participava e conversava com especialistas de diferentes fóruns: universidades, mercado financeiro etc. Havia um debate de idéias com mais fundamentação. Já essa campanha foi da mais absoluta superficialidade.

“O país deu um passo pequeno na direção de tomar consciência quanto à necessidade de se renovar a política. Ainda há setores do eleitorado que demoram para buscar a renovação, porque dependem do favor político, do assistencialismo”

Qual é o preço dessa superficialidade de idéias
O preço é que o presidente toma posse sem ter nada pra botar na mesa. Quando ele assumir, terá de formular propostas, deixar o tempo passar, a poeira assentar para depois começar o trabalho. E isso reduz o capital político do presidente. As negociações tinham de ocorrer no momento de alta expectativa, ou seja, a partir da posse. Depois que já se montou o gabinete e o ministério, depois que já rodaram seis meses de governo, as expectativas caem e aí fica mais difícil de negociar propostas ambiciosas. Eu acho que nós estamos nos encaminhando para mais um feijão-com-arroz. O próximo governo será mais do mesmo.

Diante da suposta falta de propostas, como podemos explicar a diferença de alinhamento entre o Nordeste, que votou maciçamente a favor de Lula, e o Sul, que deu sustentação a Alckmin?
O eleitor não constrói a oferta, ele fica do lado da demanda. Ela acaba tendo de se alinhar ao que é oferecido. No caso do Nordeste, o eleitor se alinhou a favor de Lula por uma série de fatores. O câmbio, por exemplo, ajudou muito a economia nordestina nos últimos três anos. A região depende muito do salário, de inflação baixa... Com o real valorizado, o nordestino viu sua renda crescer, consumiu mais etc. Criou-se, assim, uma “taxa de conforto econômico” que levantou a votação do Lula no Nordeste. Mas esse mesmo câmbio atrapalhou muito a agroindústria do Rio Grande do Sul e do Centro-Oeste, em diferentes proporções. O problema foi agravado pela seca, que atingiu duramente a economia dessas regiões. Essa “taxa de desconforto econômico” acabou se refletindo na boa campanha de Alckmin no Sul.

Foi por isso que o Lula não ganhou no primeiro turno?
Sim. Ao contrário do que muita gente pensa, não foi São Paulo, sozinho, que deu o segundo turno para Alckmin. As coisas ganharam essa aparência devido à maneira pela qual foram apurados os votos. São Paulo entrou por último na contagem e todos ficaram com a impressão de que os votos paulistas foram responsáveis por levar a disputa ao segundo turno. Não foi bem isso. Se você olhar todos os votos contados, Alckmin ganhou em dez Estados no primeiro turno, enquanto o Lula ganhou em 16. A maior parte da diferença pró-Alckmin veio dos três Estados do Sul e de São Paulo – e foi isso que produziu o segundo turno. Essa diferença é muito clara. Na realidade, o Sul tem o maior eleitorado do país, pois é a região com menor taxa de alienação eleitoral.

 

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