| Foi Sérgio Abranches quem, no
final dos anos 80, cunhou o termo “presidencialismo de coalizão”
para descrever o sistema de governo brasileiro e suas fragilidades
depois da redemocratização. Formado pela Universidade
de Cornell, nos Estados Unidos, Abranches percebeu desde cedo
que a base de sustentação do presidente do Brasil
seria sempre instável ou suscetível a crises. Para
governar, o presidente teria de formar alianças, fazer
concessões e, principalmente, gastar energia demais para
manter uma maioria no Congresso. A tese se comprovou na prática
com todos os presidentes desde José Sarney até Lula
e o recente episódio do mensalão – em que
deputados foram literalmente comprados para votar a favor de alguns
projetos de lei. Hoje, passadas as eleições, Abranches
acredita que o Brasil ainda está longe de contar com um
Congresso mais ágil ou transparente. A renovação
de deputados e senadores, diz ele, foi apenas quantitativa. Para
completar, alguns Estados como São Paulo formaram bancadas
que “são de chorar” – em referência
às votações expressivas de candidatos do
calibre de Paulo Maluf, Fernando Collor e Clodovil. Vivendo no
Rio de Janeiro aos 56 anos, Abranches conversou com AMANHÃ
um dia depois da votação do primeiro turno. E não
pestanejou em afirmar que o próximo governo será
“um feijão-com-arroz” – ou simplesmente
mais do mesmo.
As eleições terminaram com uma renovação
de aproximadamente 45% das cadeiras do Congresso. Como interpretar
esse índice à luz dos escândalos que, em tese,
mancham a credibilidade do Legislativo – como o Mensalão
e a Máfia das Sanguessugas?
Na verdade, o índice de renovação do Congresso
foi um pouco maior do que isso. Antes das eleições,
já havia ocorrido uma “renovação”
de pouco mais de 15% das cadeiras da Câmara – e aqui
eu me refiro aos deputados que não concorreram à
reeleição porque tiveram suas candidaturas impugnadas
devido a esses escândalos. Se considerarmos isso, veremos
que, na verdade, o percentual de deputados eleitos que não
estavam na legislatura de 2002 a 2006 é maior do que esses
45%.
Podemos dizer que o Congresso está renovado,
então?
Não necessariamente. Houve, sim, uma renovação
numérica, quantitativa. Mas ela não expressa uma
renovação qualitativa, de conteúdo. O PMDB
ficou mais ou menos do mesmo tamanho, o PT perdeu dez cadeiras,
mas teve uma taxa interna de reeleição muito alta
– até os mensaleiros de São Paulo foram reeleitos
em sua maioria. Já o PSDB teve um pequeno crescimento,
mas sem nenhuma mudança expressiva em seus quadros. E o
PFL ficou mais ou menos do mesmo tamanho. Quer dizer: dando uma
olhada na bancada dos maiores partidos, não houve mudança
nenhuma. O que houve foram manifestações de algumas
tendências, algumas delas até contraditórias.
Que tipo de tendências?
A eleição em São Paulo, do ponto de vista
ético, foi uma das piores da história. Entre os
três deputados federais mais votados ficaram o Paulo Maluf,
o Celso Russomano e o Clodovil. No caso de Clodovil, falta conteúdo.
No caso de Maluf e de Russomano, há excesso de conteúdo
“não-ético”. Além disso, tivemos
a reeleição de todos os candidatos do PT envolvidos
em casos escusos e que, até agora, não foram esclarecidos
adequadamente. Já o Rio de Janeiro seguiu uma linha totalmente
contrária: elegeu o Fernando Gabeira, que se destacou na
última legislatura pelo confronto com a corrupção,
com o clientelismo na Câmara e com o Severino Cavalcanti.
Gabeira foi o deputado mais votado do Rio. Analisando esses dois
lados, eu diria que o país deu um passo pequeno na direção
de tomar consciência da necessidade de se renovar a política.
Ainda há setores que demoram para buscar essa renovação,
porque dependem do favor político, do assistencialismo.
Até que ponto isso tem a ver com o poder eleitoral
do Bolsa Família e de outros programas assistenciais do
governo?
Isso tem a ver com o vício do assistencialismo e do clientelismo
na política brasileira. O governo atual apenas exacerbou
esse vício ao transformar o Bolsa Escola, que tinha fins
educativos, em um programa de transferência de renda. O
que me incomoda é saber que esse tipo de iniciativa acontece
em um país que vive em crise fiscal já há
muitos anos. Temos uma dívida alta e uma carga tributária
violenta. Sozinho, o Estado retira da sociedade mais de 40% da
renda. Ao mesmo tempo, falta dinheiro para todas as necessidades
essenciais, para todos os serviços públicos demandados
pela população. Toda discussão a respeito
de educação, saúde e segurança pública
termina na questão da falta de recursos. Mas como é
que falta recurso se o Estado já pega quase metade da receita
da sociedade? Falta porque o Orçamento é irracional,
arbitrário. O Executivo gasta como quer e quanto quer.
Isso faz com que aquela parcela da sociedade despossuída,
que depende do serviço público de educação,
de saúde, de segurança, viva em permanente necessidade,
vulnerável a qualquer oferta de favor. O que nós
precisamos é de uma reforma estrutural no Estado.
Existe alguma margem para que o Congresso aprove uma
reforma estrutural mais ampla como a tributária ou mesmo
a reforma política?
Não. A discussão fiscal é muito superficial
e muito paliativa, muito no “vou gastar melhor”. Mas
ninguém fala em “vamos rever as funções
do Estado”. Toda discussão a respeito do desenvolvimento
é superficial. Ninguém toca efetivamente nas questões
fundamentais que estão travando o investimento privado,
a oferta de infra-estrutura etc. Essa foi uma eleição
cuja campanha não envolveu nenhum debate sério de
alternativas para as necessidades do país. E não
estou falando só dos programas eleitorais. Na eleição
de 2002, por exemplo, eu ouvia, participava e conversava com especialistas
de diferentes fóruns: universidades, mercado financeiro
etc. Havia um debate de idéias com mais fundamentação.
Já essa campanha foi da mais absoluta superficialidade.
“O país deu um passo
pequeno na direção de tomar consciência
quanto à necessidade de se renovar a política.
Ainda há setores do eleitorado que demoram para buscar
a renovação, porque dependem do favor político,
do assistencialismo”
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Qual é o preço dessa superficialidade
de idéias
O preço é que o presidente toma posse sem ter nada
pra botar na mesa. Quando ele assumir, terá de formular
propostas, deixar o tempo passar, a poeira assentar para depois
começar o trabalho. E isso reduz o capital político
do presidente. As negociações tinham de ocorrer
no momento de alta expectativa, ou seja, a partir da posse. Depois
que já se montou o gabinete e o ministério, depois
que já rodaram seis meses de governo, as expectativas caem
e aí fica mais difícil de negociar propostas ambiciosas.
Eu acho que nós estamos nos encaminhando para mais um feijão-com-arroz.
O próximo governo será mais do mesmo.
Diante da suposta falta de propostas, como podemos explicar
a diferença de alinhamento entre o Nordeste, que votou
maciçamente a favor de Lula, e o Sul, que deu sustentação
a Alckmin?
O eleitor não constrói a oferta, ele fica do lado
da demanda. Ela acaba tendo de se alinhar ao que é oferecido.
No caso do Nordeste, o eleitor se alinhou a favor de Lula por
uma série de fatores. O câmbio, por exemplo, ajudou
muito a economia nordestina nos últimos três anos.
A região depende muito do salário, de inflação
baixa... Com o real valorizado, o nordestino viu sua renda crescer,
consumiu mais etc. Criou-se, assim, uma “taxa de conforto
econômico” que levantou a votação do
Lula no Nordeste. Mas esse mesmo câmbio atrapalhou muito
a agroindústria do Rio Grande do Sul e do Centro-Oeste,
em diferentes proporções. O problema foi agravado
pela seca, que atingiu duramente a economia dessas regiões.
Essa “taxa de desconforto econômico” acabou
se refletindo na boa campanha de Alckmin no Sul.
Foi por isso que o Lula não ganhou no primeiro
turno?
Sim. Ao contrário do que muita gente pensa, não
foi São Paulo, sozinho, que deu o segundo turno para Alckmin.
As coisas ganharam essa aparência devido à maneira
pela qual foram apurados os votos. São Paulo entrou por
último na contagem e todos ficaram com a impressão
de que os votos paulistas foram responsáveis por levar
a disputa ao segundo turno. Não foi bem isso. Se você
olhar todos os votos contados, Alckmin ganhou em dez Estados no
primeiro turno, enquanto o Lula ganhou em 16. A maior parte da
diferença pró-Alckmin veio dos três Estados
do Sul e de São Paulo – e foi isso que produziu o
segundo turno. Essa diferença é muito clara. Na
realidade, o Sul tem o maior eleitorado do país, pois é
a região com menor taxa de alienação eleitoral.
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