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      Edição 225 - Outubro de 2006
 

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No palco corporativo, circulam os mais diversos personagens. Conhecer o próprio papel e aprender a contracenar bem com todos os tipos é a arma mais eficaz para alavancar a carreira e obter o melhor resulltado do trabalho em equipe

Simone Fernandes
 
   

No dia-a-dia das empresas, sem nem mesmo perceber, cada profissional representa um papel. Reunidos em equipes de trabalho, os personagens da Hollywood corporativa formam um elenco com comportamentos diferentes e às vezes antagônicos. Uns agem como Julia Roberts em Noiva em Fuga – a indecisão em pessoa. Outros assumem o lado Whoopi Goldberg em Mudança de Hábito – a personificação da inovação. A arte de conviver com as diferenças e se adaptar ao grupo é uma habilidade cada vez mais procurada pelas organizações. Essa é, afinal, a característica de comportamento que mais favorece a qualidade dos resultados de uma equipe de trabalho.

Sem tentar abrir mão da própria personalidade, como cultivar e construir bons relacionamentos? Como conviver (bem) com as diferenças? E com os inevitáveis conflitos? Essa é uma arte que exige autoconhecimento e também a rápida identificação dos demais atores em cena. Para ajudar nessa tarefa, a revista AMANHÃ pediu ao consultor Eduardo Cupaiolo, autor do recém-lançado livro Contrate Preguiçosos, para que fizesse uma descrição dos personagens mais comuns no palco corporativo e simulasse a convivência entre alguns tipos (leia quadro nas páginas seguintes). Você vai se reconhecer nos atores e notar também que cada um dos colegas desempenha um ou mais papéis. O importante, ao final desse exercício bem-humorado, é que você se sinta mais hábil na arte da convivência e possa conduzir melhor sua carreira.

Maximus, o Gladiador – O personagem de Russell Crowe no filme O Gladiador é considerado por Cupaiolo um líder de verdade. Pode até não ter o poder de fato ou de direito, mas enfrenta os desafios e encoraja quem estiver por perto. Há poucos meses, David Figueiredo, gerente jurídico e de controles internos do Banco De Lage Landen, do grupo holandês Rabobank, vivenciou um episódio profissional em que revelou o papel de Maximus, o gladiador. Um de seus colaboradores apresentou a proposta de mudar um procedimento interno do banco com o uso de ferramentas jurídicas inovadoras. A idéia traria mais agilidade, segurança e economia de recursos nas operações financeiras do banco. Só que exigiria também uma mudança de cultura e ele temia que houvesse resistências. “Era como mexer em time que está ganhando”, lembra Figueiredo.

Figueiredo e equipe: boa convivência garante sucesso de projeto

Mesmo assim, convicto de que a mudança seria um aprimoramento importante, ele pediu a seu colaborador que aprofundasse e amadurecesse a proposta. Com todos os detalhes técnicos e projeções positivas em mãos, apresentaram a idéia em conjunto em uma reunião com os diretores. Como previsto, houve resistência do grupo e o projeto corria risco. Sem desanimar, Figueiredo mudou de tática e procurou caminhos alternativos. Um dos pontos fortes na habilidade da convivência construtiva é não bater de frente em diferenças e resistências. Os dois dediciram recomeçar a “venda da idéia” pelos funcionários em níveis hierárquicos que seriam mais beneficiados pela mudança proposta. Depois de conquistar aliados, Figueiredo trabalhou como em uma campanha eleitoral. “Fiz um corpo-a-corpo com cada diretor para ouvir, esclarecer as dúvidas e entender as possíveis preocupações e impactos nas áreas”, conta. Resultado: depois de 40 dias, o projeto foi aprovado por unanimidade. A idéia se mostrou realmente um sucesso e Figueiredo ganhou um prêmio do banco por empreendedorismo. “Comprei sem medo a responsabilidade, pois eu estava convencido de que tudo daria certo. Em vez de confrontar as intranqüilidades, passei a dar conforto a meus interlocutores”, descreve. Para explicar a facilidade com que transita entre as diferenças de comportamento, ele diz que – apesar de ser muito comunicativo e ter energia de sobra – aprendeu a ouvir mais do que falar. Outra característica importante, em sua opinião, é não deixar de compartilhar informações, as boas e as ruins, com todos os integrantes da equipe. E, finalmente, ele cita o que considera o mais importante: flexibilidade. Não se deve ter medo de ouvir, refletir, ceder e mudar de opinião. “Quem é inflexível, quebra”, ensina.

Duplas dinâmicas – Em um ambiente cada vez mais competitivo e complexo, muitas vezes as empresas têm sido postas diante da necessidade de reunir talentos díspares e formar equipes multidisciplinares. O que se objetiva é a excelência em resultados com a combinação dos pontos fortes de cada um, pois a complementaridade das capacidades é o melhor antídoto para resolver problemas. Mas nem sempre é o que acontece. É que as equipes costumam construir visões estereotipadas umas das outras. “Esse pessoal de marketing é meio folgado, você não acha? Querem verba para anúncios e não vendem nada”, dizem os vendedores. “Esse pessoal de vendas fala, fala, mas é acomodado. Nem aproveitaram nossa campanha”, alardeiam profissionais de marketing. Juntas, todas as áreas costumam achar estranhos os profissionais da Tecnologia da Informação (TI). “Uns nerds, não dão nem bom dia direito para a gente”, tacham todos. Na sua natural introspecção, o pessoal de TI só pensa: “Como essa gente toda fala e perde tempo”.

Quando os administradores de recursos humanos têm de colocar para trabalhar juntos, por exemplo, o personagem de Tom Cruise, em Top Gun, e Woody Allen – um diretor que já se tornou o personagem de si mesmo –, sabem que estão diante de um complexo desafio. Na opinião de Cupaiolo, à primeira vista essa dupla é como água e azeite: não se misturam. Mas, se as diferenças forem respeitadas e até admiradas, esses dois personagens podem ter uma relação tão produtiva como em Cyrano de Bergerac, em que as qualidades de um se tornam complementares às do outro.

Agne, da Milenia: as controvérsias leves trazem criatividade

Na Accor Services, empresa que administra os cartões Ticket Alimentação e Ticket Restaurante, a operação vem passando por um grande processo de transformação, especialmente nos últimos seis anos. “Nós trabalhávamos com os tíquetes em papel e agora fazemos mais de 8 milhões de processamentos eletrônicos por mês”, compara Eliane Aere, diretora de Recursos Humanos e TI. A tecnologia se tornou tão essencial à empresa que foi necessário fazer os profissionais da área trabalhar junto com os de negócios. O pessoal de TI tem uma performance meio Indiana Jones, sempre disposto a arriscar a vida por um Graal que a maioria nem sabe que existe. Já os profissionais de negócios são o tipo acostumado a matar um leão por dia, como Michael Douglas e Val Kilmer – os caçadores de A Sombra e a Escuridão. Logo de início, as duas equipes não se entenderam muito bem, mas a Accor insistiu porque a aproximação e a integração das duas áreas era um ponto crítico de sucesso. “Nós concluímos que só falar isso para as pessoas não era suficiente”, afirma Eliane. Entre as tradicionais medidas de aproximação e diálogo, criou-se até um cargo novo: o CPN – coordenador de processos de negócios. São profissionais que conhecem muito de TI e fazem uma imersão nos conceitos da área de negócios. “As duas áreas criaram essa função de forma compartilhada para ajudar a fazer a interface”, explica Eliane. Outra iniciativa bem-sucedida foi o Prêmio Curió – um passarinho irriquieto, que não sossega no próprio poleiro. Essa premiação vai para o projeto da área de tecnologia que mais ajuda a de negócios. Durante um fórum mensal, as pessoas do grupo relatam suas necessidades e dificuldades específicas para que todos conheçam bem as demandas de cada um. É mais fácil ser solidário e participativo quando se entende as dificuldades do outro. “A gente já melhorou muito”, conclui a diretora de RH e TI da Accor.

 

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