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No dia-a-dia das empresas, sem nem mesmo perceber, cada profissional
representa um papel. Reunidos em equipes de trabalho, os personagens
da Hollywood corporativa formam um elenco com comportamentos diferentes
e às vezes antagônicos. Uns agem como Julia Roberts em
Noiva em Fuga – a indecisão em pessoa. Outros
assumem o lado Whoopi Goldberg em Mudança de Hábito
– a personificação da inovação. A
arte de conviver com as diferenças e se adaptar ao grupo é
uma habilidade cada vez mais procurada pelas organizações.
Essa é, afinal, a característica de comportamento que
mais favorece a qualidade dos resultados de uma equipe de trabalho.
Sem tentar abrir mão da própria personalidade, como
cultivar e construir bons relacionamentos? Como conviver (bem) com as
diferenças? E com os inevitáveis conflitos? Essa é
uma arte que exige autoconhecimento e também a rápida
identificação dos demais atores em cena. Para ajudar nessa
tarefa, a revista AMANHÃ pediu ao consultor Eduardo Cupaiolo,
autor do recém-lançado livro Contrate Preguiçosos,
para que fizesse uma descrição dos personagens mais comuns
no palco corporativo e simulasse a convivência entre alguns tipos
(leia quadro nas páginas seguintes). Você vai
se reconhecer nos atores e notar também que cada um dos colegas
desempenha um ou mais papéis. O importante, ao final desse exercício
bem-humorado, é que você se sinta mais hábil na
arte da convivência e possa conduzir melhor sua carreira.
Maximus, o Gladiador – O personagem de Russell
Crowe no filme O Gladiador é considerado por Cupaiolo
um líder de verdade. Pode até não ter o poder de
fato ou de direito, mas enfrenta os desafios e encoraja quem estiver
por perto. Há poucos meses, David Figueiredo, gerente jurídico
e de controles internos do Banco De Lage Landen, do grupo holandês
Rabobank, vivenciou um episódio profissional em que revelou o
papel de Maximus, o gladiador. Um de seus colaboradores apresentou a
proposta de mudar um procedimento interno do banco com o uso de ferramentas
jurídicas inovadoras. A idéia traria mais agilidade, segurança
e economia de recursos nas operações financeiras do banco.
Só que exigiria também uma mudança de cultura e
ele temia que houvesse resistências. “Era como mexer em
time que está ganhando”, lembra Figueiredo.
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| Figueiredo e equipe: boa convivência garante
sucesso de projeto |
Mesmo assim, convicto de que a mudança seria um aprimoramento
importante, ele pediu a seu colaborador que aprofundasse e amadurecesse
a proposta. Com todos os detalhes técnicos e projeções
positivas em mãos, apresentaram a idéia em conjunto em
uma reunião com os diretores. Como previsto, houve resistência
do grupo e o projeto corria risco. Sem desanimar, Figueiredo mudou de
tática e procurou caminhos alternativos. Um dos pontos fortes
na habilidade da convivência construtiva é não bater
de frente em diferenças e resistências. Os dois dediciram
recomeçar a “venda da idéia” pelos funcionários
em níveis hierárquicos que seriam mais beneficiados pela
mudança proposta. Depois de conquistar aliados, Figueiredo trabalhou
como em uma campanha eleitoral. “Fiz um corpo-a-corpo com cada
diretor para ouvir, esclarecer as dúvidas e entender as possíveis
preocupações e impactos nas áreas”, conta.
Resultado: depois de 40 dias, o projeto foi aprovado por unanimidade.
A idéia se mostrou realmente um sucesso e Figueiredo ganhou um
prêmio do banco por empreendedorismo. “Comprei sem medo
a responsabilidade, pois eu estava convencido de que tudo daria certo.
Em vez de confrontar as intranqüilidades, passei a dar conforto
a meus interlocutores”, descreve. Para explicar a facilidade com
que transita entre as diferenças de comportamento, ele diz que
– apesar de ser muito comunicativo e ter energia de sobra –
aprendeu a ouvir mais do que falar. Outra característica importante,
em sua opinião, é não deixar de compartilhar informações,
as boas e as ruins, com todos os integrantes da equipe. E, finalmente,
ele cita o que considera o mais importante: flexibilidade. Não
se deve ter medo de ouvir, refletir, ceder e mudar de opinião.
“Quem é inflexível, quebra”, ensina.
Duplas dinâmicas – Em um ambiente cada
vez mais competitivo e complexo, muitas vezes as empresas têm
sido postas diante da necessidade de reunir talentos díspares
e formar equipes multidisciplinares. O que se objetiva é a excelência
em resultados com a combinação dos pontos fortes de cada
um, pois a complementaridade das capacidades é o melhor antídoto
para resolver problemas. Mas nem sempre é o que acontece. É
que as equipes costumam construir visões estereotipadas umas
das outras. “Esse pessoal de marketing é meio folgado,
você não acha? Querem verba para anúncios e não
vendem nada”, dizem os vendedores. “Esse pessoal de vendas
fala, fala, mas é acomodado. Nem aproveitaram nossa campanha”,
alardeiam profissionais de marketing. Juntas, todas as áreas
costumam achar estranhos os profissionais da Tecnologia da Informação
(TI). “Uns nerds, não dão nem bom dia direito
para a gente”, tacham todos. Na sua natural introspecção,
o pessoal de TI só pensa: “Como essa gente toda fala e
perde tempo”.
Quando os administradores de recursos humanos têm de colocar
para trabalhar juntos, por exemplo, o personagem de Tom Cruise, em Top
Gun, e Woody Allen – um diretor que já se tornou o
personagem de si mesmo –, sabem que estão diante de um
complexo desafio. Na opinião de Cupaiolo, à primeira vista
essa dupla é como água e azeite: não se misturam.
Mas, se as diferenças forem respeitadas e até admiradas,
esses dois personagens podem ter uma relação tão
produtiva como em Cyrano de Bergerac, em que as qualidades de um se
tornam complementares às do outro.
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| Agne, da Milenia: as controvérsias leves
trazem criatividade |
Na Accor Services, empresa que administra os cartões Ticket
Alimentação e Ticket Restaurante, a operação
vem passando por um grande processo de transformação,
especialmente nos últimos seis anos. “Nós trabalhávamos
com os tíquetes em papel e agora fazemos mais de 8 milhões
de processamentos eletrônicos por mês”, compara Eliane
Aere, diretora de Recursos Humanos e TI. A tecnologia se tornou tão
essencial à empresa que foi necessário fazer os profissionais
da área trabalhar junto com os de negócios. O pessoal
de TI tem uma performance meio Indiana Jones, sempre disposto a arriscar
a vida por um Graal que a maioria nem sabe que existe. Já os
profissionais de negócios são o tipo acostumado a matar
um leão por dia, como Michael Douglas e Val Kilmer – os
caçadores de A Sombra e a Escuridão. Logo de início,
as duas equipes não se entenderam muito bem, mas a Accor insistiu
porque a aproximação e a integração das
duas áreas era um ponto crítico de sucesso. “Nós
concluímos que só falar isso para as pessoas não
era suficiente”, afirma Eliane. Entre as tradicionais medidas
de aproximação e diálogo, criou-se até um
cargo novo: o CPN – coordenador de processos de negócios.
São profissionais que conhecem muito de TI e fazem uma imersão
nos conceitos da área de negócios. “As duas áreas
criaram essa função de forma compartilhada para ajudar
a fazer a interface”, explica Eliane. Outra iniciativa bem-sucedida
foi o Prêmio Curió – um passarinho irriquieto, que
não sossega no próprio poleiro. Essa premiação
vai para o projeto da área de tecnologia que mais ajuda a de
negócios. Durante um fórum mensal, as pessoas do grupo
relatam suas necessidades e dificuldades específicas para que
todos conheçam bem as demandas de cada um. É mais fácil
ser solidário e participativo quando se entende as dificuldades
do outro. “A gente já melhorou muito”, conclui a
diretora de RH e TI da Accor.
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